Strixhaven: Escola de Magos

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

23/03/2021 | Por Adana Washington

Episódio 1: A Aula Começou

Nos corredores aparentemente intermináveis do Biblioplex, onde o conhecimento arcano de incontáveis mundos revestia prateleiras que viram a ascensão e queda de impérios, parecia que o único som em todo o plano de Arcavios era o clique do salto na pedra. A Professora Onyx, como era conhecida ali, respirou fundo enquanto caminhava, inalando o cheiro de papel velho e o ozônio familiar que sempre parecia acompanhar a magia. Ela precisava de uma pausa de mais uma reunião insuportável. Apesar de toda a sabedoria e aprendizado deste lugar, ele era povoado por alguns indivíduos notavelmente cabeças-duras.

Professora Onyx | Arte de: Kieran Yanner

Caso em questão: apesar de seu renome considerável em todo o Multiverso, os outros professores de Strixhaven não reconheceram Liliana Vess quando ela se apresentou com um nome inteiramente diferente. Aquilo não a surpreendera. A escola sempre fora assim, mesmo desde quando ela fora estudante, tantos anos atrás; sempre envolta em seus próprios pequenos problemas.

Havia algo calmante no peso de todos aqueles livros, tomos e pergaminhos ao seu redor. Pareciam envolver o lugar em um tipo de silêncio. Quando os estudantes chegassem, o campus não seria nem de longe tão quieto — mas, por enquanto, ela saboreava a sensação de solitude enquanto vagava pelas estantes.

Um farfalhar soou logo adiante. Com uma pontada de irritação, Liliana imaginou aquele Códice perpetuamente tagarela; ele provavelmente dobraria a esquina a qualquer minuto. Ao virar a próxima curva, porém, não foi o livro magicamente animado da escola que ela viu nas estantes.

"O que você está fazendo?" disse ela.

A figura congelou, sua mão ainda alcançando outro livro para adicionar à pilha a seus pés.

Liliana deu um passo à frente. "Os estudantes não devem chegar por mais—"

As palavras sumiram quando um rastro de luz arroxeada voou da mão da figura. Raspou em seu braço, e a sala subitamente pareceu ceder e balançar enquanto uma sensação nauseante se espalhava por seu corpo. Com um gesto de vontade, ela isolou os efeitos do feitiço e depois o aniquilou. Trabalho de amador, sim — mas nenhuma das cinco faculdades de Strixhaven ensinava magia daquela natureza.

"Então", disse ela, uma corrente rodopiante de energia mortal envolvendo sua mão enquanto convocava sua própria magia, "você não está aqui apenas para as sessões de verão, presumo."

A figura estava mascarada, ela conseguia ver agora — o espaço onde os olhos deveriam estar era coberto apenas por metal liso e plano. Ela ouvira falar dos Oriq, é claro. A escola estava cheia de sussurros preocupados sobre a sociedade secreta de magos, aqueles obcecados por magias proibidas e poder a qualquer custo. Ela não esperava ver um tão cedo, porém. "Eu sei o que você é", disse ela.

O intruso olhou para o corredor, depois de volta para Liliana. "Então você sabe que seus dias estão contados."

"Professora Onyx?" Uma voz vagamente familiar chamou de um dos corredores próximos. Liliana girou na direção do som, mão carregada de feitiço erguida. A Reitora Shaile Talonrook estava no fim do corredor, franzindo o cenho. "Você está bem?"

Quando ela se virou de volta, o intruso sumira. Apenas a pilha de livros e pergaminhos no chão mostrava que ele sequer estivera ali.

Liliana recompôs-se, deixando a magia dissipar-se. Aquele não era o momento de atrair mais atenção para si mesma. "Sim, eu apenas — pensei ter visto algo nas estantes. Os professores já passaram para o próximo tópico?"

A Reitora Talonrook estalou o bico, seus imensos olhos escuros cheios de irritação. "O Reitor Nassari está insistindo em prolongar a temporada de Torre dos Magos deste ano."

Liliana franziu o cenho enquanto tocava seu braço onde o feitiço a raspara. Seguindo a Reitora Talonrook de volta para o Salão dos Oráculos, ela olhou em direção aos livros. "Certamente temos problemas maiores que a Torre dos Magos."

"Muito certo, muito certo!" arrulhou a Reitora Talonrook. Liliana mal ouviu qualquer outra coisa que ela disse.

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Em seus aposentos em Kylem, Will Kenrith encarava impotente a pilha imponente de livros em sua cama. Estivera tentando escolher qual trazer consigo; a princípio, parecia certo que o tomo referente à Profecia Fundida era a melhor aposta, mas então ele se lembrara de seu texto histórico favorito, o relato de Thadus, o Curandeiro. Fazia agora uma hora, e ele não estava mais perto de decidir. Passou a mão pelo seu curto cabelo loiro e olhou ao redor do quarto, seu olhar captando o cartão brilhante em forma de coruja sobre a mesa antes de balançar a cabeça. Não havia como saber quanto tempo passaria antes que retornassem a Kylem. Se é que retornariam.

A porta da frente bateu ao abrir, fazendo Will estremecer, e Rowan Kenrith entrou empertigada.

A irmã de Will era tão alta quanto ele, o cabelo dourado fluindo sobre a capa vermelha jogada em seu ombro. Ela franziu o cenho para Will, seu olhar passando pelos livros ainda espalhados diante dele. "Como você ainda não está pronto?"

"Só~me dê um minuto", disse ele. A Profecia Fundida. Definitivamente a Profecia Fundida.

Rowan pegou o convite na mesa do outro lado do quarto. Faíscas douradas flutuaram dele, o cartão em forma de coruja brilhando levemente em sua mão. "Você teve duas semanas, Will. Precisamos ir."

"As histórias dizem que Strixhaven existe lá há milênios. Tenho certeza de que pode esperar mais alguns minutos por nós." Ele olhou de volta para a pilha. Como poderia se virar sem as memórias de Thadus? "Ou, possivelmente horas."

Rowan gemeu. "Kasmina provavelmente está esperando por nós agora mesmo."

Will suspirou. Kasmina. A mulher contara-lhes bastante sobre todas as coisas que Strixhaven tinha a oferecer. Mas seu convite viera do nada, chegando apenas alguns dias depois de Garruk ter se dado por satisfeito o suficiente com a segurança deles para deixá-los por conta própria. Não haviam passado tanto tempo assim com ela em Kylem, e agora deveriam ir para um mundo inteiramente novo apenas pela palavra dela? Will voltou-se para seus livros. "Tenho certeza de que ela ficará bem."

"Nós estamos partindo."

"Sim, eu sei. Hoje, certamente. Só preciso de—"

"Não, Will." Rowan amassou o convite em sua mão. "Agora."

Will começou a falar, mas a luz irrompeu pelo quarto, gavinhas de sombras rodopiando pelo ar. Ele cerrou os olhos contra ela enquanto se espalhava para cercar sua irmã. Atrás dela, pontos de um céu azul brilhante brilhavam em uma teia de folhas verdes verdejantes.

Rowan sorriu e acenou enquanto entrava na luz e desaparecia.

Will cerrou a mandíbula, lutando contra o puxão em seu âmago. Mas sua conexão com a irmã era forte demais. Logo as mesmas gavinhas de luz e sombra irromperam ao seu redor, banhando a cama com seu brilho etéreo. Desesperadamente, ele agarrou as Memórias de Thadus, o Curandeiro antes que a luz pudesse puxá-lo para um novo plano. Ao redor dele, então, havia luz, cor e som diferentes de tudo em Kylem. Estava sendo arremessado através do nada, através de tudo.

A primeira coisa que Will ouviu, onde quer que Rowan os tivesse levado, foi um guincho agudo. Vinha de um borrão de penas e talões — um borrão que vinha direto em sua direção. Will soltou um grito de susto, erguendo as Memórias como um escudo. O pássaro cortou o ar para cima pouco antes do impacto, descrevendo um arco largo no alto.

Estavam em uma clareira, cercados por árvores anãs de aparência gentil. Na borda dela estava uma figura familiar carregando um cajado torto. Após um momento, o pássaro desceu do céu e pousou no ombro da mulher.

"Olá, Will. Rowan." Um feixe de luz solar brilhou sobre ela, incendiando seu cabelo ruivo. Kasmina deu algo como um pequeno sorriso, assentindo para ele. "Vejo que ambos conseguiram. E bem a tempo. As aulas começarão em breve."

Will olhou ao redor. Não conseguia ver nada além de natureza selvagem. "Então, hum. A escola é por aqui perto?"

"Isso mesmo." Kasmina virou-se e caminhou em direção à borda da clareira. "Veremos a primeira tocha em breve."

A primeira tocha? Will imaginou o que aquilo poderia significar.

"Então como é este lugar?" perguntou Rowan, saindo do lado de Will para segui-la. "Existem outros como nós? Pessoas que conseguem se mover entre mundos?"

"É um campus muito grande", disse Kasmina. "Tenho certeza de que há outros de planos diferentes. Você vem, Will?"

Will cerrou a mandíbula, então marchou atrás delas.

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Havia, como Kasmina dissera, uma tocha. O que ela não dissera era que era massiva — mais parecida com uma torre, na verdade. A coluna prateada erguia-se alto acima das árvores, perfurando o céu azul brilhante. Mesmo do chão, Will conseguia ver a chama dançante no topo da estrutura, sua luz rivalizando com a dos dois sóis que brilhavam acima dela. Conforme alcançavam a base, Will passou a mão pelo metal liso. "Como mantêm essa coisa acesa?"

"Como a maioria das coisas em Arcavios", disse Kasmina. "Com magia."

Will olhou para a mulher, irritado. "Este é o seu mundo natal?"

"Estou com a universidade há muito tempo, mas não." Kasmina olhou para o horizonte. "A próxima tocha deve ser por ali."

Will olhou na mesma direção, mas tudo o que via eram os campos verdes estendendo-se diante deles, interrompidos apenas por uma trilha batida.

"Se houver mais tochas, você terá tempo para admirá-las depois, Will. Vamos", disse Rowan, correndo à frente.

"Rowan, vá devagar", disse Will. "Não sabemos quem ou o que pode estar por aqui."

"Exatamente!" disse ela, rindo.

Caminharam por alguns quilômetros antes de alcançarem a próxima tocha. Will imaginou quantas delas haveria por este plano — e sobre que outras terras mais estranhas elas poderiam se erguer.

"Os Textos do Criador de Tempestades foram muito mais minuciosos", disse Kasmina, distraidamente.

Will sobressaltou-se com a proximidade de Kasmina. Franziu o cenho, então seguiu o olhar dela para o livro ao seu lado. Deslizou a mão sobre ele, a capa gasta dando-lhe uma sensação de segurança. "Nunca ouvi falar desse."

"Bem, você sempre pode consultá-lo no Biblioplex, assim que chegarmos a Strixhaven."

"O quê?" Rowan perguntou.

"O Biblioplex", Kasmina respondeu. "Lar da coleção mais extensa de conhecimento sobre magia em qualquer plano, em qualquer lugar."

"Ah", Rowan disse, sem se dar ao trabalho de esconder seu desapontamento. "Mais livros. Quem se importa?"

"Você está brincando?" exclamou Will. "Poderíamos aprender qualquer coisa! Tudo! Temos que apertar o passo!"

Rowan revirou os olhos. "Agora quem precisa ir devagar, hum? Você não disse que poderia haver feras por aí?"

"Minha coruja me alertaria sobre qualquer perigo se aproximando", disse Kasmina. "Nenhum de vocês tem nada a temer."

Will olhou para o pássaro. Ele flexionou suas asas brancas conforme a luz dos sóis ricocheteava em seus olhos redondos. Em um movimento pausado, virou a cabeça para olhar diretamente para ele. Will franziu o cenho. "O que há de errado com ela?"

Kasmina olhou para frente. "Absolutamente nada. Embora ela esteja ficando um pouco avançada em idade."

Caminharam o restante do caminho em silêncio, com Will lançando olhares furtivos para a coruja e sua dona. Mas o pássaro sempre parecia saber quando ele estava olhando e encarava de volta até que Will não conseguisse evitar desviar o olhar. Ele notou a mudança na paisagem conforme avançavam, avistando uma cordilheira de montanhas cinza-avermelhadas ao longe.

Finalmente, Kasmina quebrou o silêncio ao passarem por outra tocha. "Bem-vindos a Strixhaven."

Conforme o trio crestava a colina, Will quase caiu de cara com a visão diante dele. O campus estendia-se pelo horizonte, um emaranhado intrincado de torres reluzentes e telhados achatados. Um arco maciço de pedras denteadas flutuava sobre o que devia ser o centro da instituição, as extremidades de cada pedra apontando para o chão lisas e planas, como se uma lâmina gigante tivesse decepado as partes de baixo.

Will aproximou-se do lado de Rowan. "Isso é~"

"Maior que o nosso castelo", Rowan disse, sua voz baixa.

Aquela era uma maneira de colocar a coisa. A extensão de Strixhaven era maior do que todos os cinco castelos de Eldraine somados. No centro dela, um edifício enorme erguia-se acima dos demais. A luz solar brilhava em seus arcos pontiagudos enquanto grandes orbes flutuavam sobre os edifícios mais baixos.

"Aquele é o Biblioplex", disse Kasmina, aproximando-se para ficar ao lado deles. Will assentiu absorto, ainda sem palavras enquanto contemplava o campus.

Rowan soltou uma risada curta, tirando-o de seu devaneio. "Isso vai ser bom."

Will sorriu enquanto seguia sua irmã em direção aos portões imponentes. Eram massivos o suficiente para parecerem próximos, embora provavelmente levassem mais uma hora de caminhada para chegar.

Havia dado apenas alguns passos quando percebeu abruptamente que Kasmina não os seguia. Ele e Rowan viraram-se e olharam para trás, curiosos. "Você não vem?"

Arte de: Brian Valeza

"Ah, não", Kasmina disse, balançando a cabeça. Olhou para sua coruja, e o pássaro levantou voo, voando em direção ao Biblioplex. "Tenho outros assuntos para atender. Procurem por uma corujin chamada Mavinda Sharpbeak. Ela os ajudará a se instalarem."

"Ah." Rowan limpou a garganta. "Bem, uh, obrigada, então."

Will fez uma reverência. "O que minha irmã disse. Obrigado por nos trazer até aqui."

"Não há necessidade de tanta formalidade", disse Kasmina, sorrindo. "Mas vocês são muito bem-vindos."

Will endireitou-se e olhou para a mulher mais uma vez antes de ir juntar-se à sua irmã. "Rowan", sussurrou ele. "O que você acha que é uma 'corujin'?"

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No outro lado dos portões, o campus fervilhava de atividade enquanto as pessoas apressavam-se pelos largos caminhos de pedra de Strixhaven. Alguns dos estudantes mais jovens usavam uniformes idênticos, seus mantos cinzas esvoaçando atrás deles enquanto se apressavam. Os mais velhos estavam cada um trajados com vestimentas únicas e moviam-se em grupos, como cores que permanecem juntas.

Babados e folhos vermelhos e azuis contrastavam fortemente com os ângulos e redemoinhos dos casacos e polainas pretos e brancos. Sobretudos verdes e pretos e botas pesadas pareciam o completo oposto dos coletes vermelhos e brancos elegantes e estreitos e golas altas. Will girou nos calcanhares, absorvendo o caleidoscópio de cores e formas em movimento.

"Ela é estranha, não é?" disse Rowan, distraidamente. Ela não parecia nem de longe tão impressionada com o espetáculo ao redor deles — se tanto, parecia perdida em pensamentos.

"Quem?"

"Kasmina. Ela e aquela coruja." Ela deu de ombros. "Acho que não importa mais. Ela nos trouxe aqui, certo?"

Antes que Will pudesse formular uma resposta, gritos ecoaram de mais para dentro do campus. Em um instante, Rowan partiu, correndo em direção às vozes.

"Ei!" chamou Will, partindo atrás dela. "Espera aí!"

Arte de: Manuel Castañón

Correram por uma esquina apenas para derrapar até parar na entrada de um pátio menor. Lá dentro, uma multidão observava enquanto dois grupos de estudantes lançavam feitiços por um campo gramado, os lampejos de luz e cor zunindo e espiralando pelo ar enquanto erravam por pouco seus alvos. Um feitiço atingiu uma garota de vermelho e azul e ela começou a flutuar, chutando as pernas impotente e acenando os braços. Risos e aplausos subiram da multidão.

Will olhou em horror. "Achei que isto devesse ser uma escola. Isto é—"

"Brilhante!" Rowan terminou, sorrindo. Ela puxou a manga de um estudante próximo, um jovem dríade de preto e verde. "Quem está ganhando?"

"Até agora, Prismari parece ter a vantagem", disse o estudante. "Mas eu não ficaria confortável demais se fosse eles. Aqueles Platinapenas podem ser um bando vicioso."

"Batalhas sanguinárias no meio do campus?" gaguejou Will.

O dríade franziu o cenho. "Isto é apenas um duelo. Ninguém vai se machucar de verdade. Não muito, de qualquer forma."

"Ok, já chega disso", disse Will, tentando soar impositivo. "Rowan, vamos. Precisamos falar com — bem, algum tipo de administrador. Um diretor, talvez. Há aulas para entrar, e certamente livros que precisamos adquirir, e—"

Rowan deu um passo à frente, ignorando-o completamente. No campo, um estudante fixara os olhos em um dos Prismari em vermelho e azul. Suas mãos estavam erguidas, e seus lábios moviam-se enquanto falava em um tom baixo e focado. Entre seus dedos, espirais de tinta preta começaram a se formar.

"Cuidado!" gritou Rowan. Ela enviou uma descarga de eletricidade no que preparava o feitiço de tinta. Ele deu um grito de susto conforme a descarga o atingiu, fazendo a tinta preta que ele conjurava respingar por todo o seu uniforme. Mais risos e aplausos da multidão. O estudante Prismari virou-se e olhou para Rowan, surpreso. "Valeu!"

Rowan sorriu e começou a responder; antes que Will pudesse avisá-la, uma bobina de tinta viva varreu os pés dela. Ela caiu de costas, tossindo conforme o ar saía de seu peito por um momento, e olhou para cima para ver quem a atingira — um estudante em vestes pretas e brancas, as mesmas do que ela eletrocutara. "Fique fora disso, caloura", siseou o estudante.

O ar ao redor de Rowan estalou e sibilou com eletricidade conforme ela convocava outra carga. "Quer tentar de novo?"

De volta às margens, o dríade inclinou-se para Will. "Então, aquela é a sua irmã?"

"Receio que sim", disse ele, fazendo uma careta. Estivera esperando silêncio, aprendizado — até agora, isto era tão ruim quanto Kylem.

"Parece que ela escolheu sua casa."

Era verdade — Rowan estava parada do lado dos estudantes Prismari agora, lançando faíscas contra os outros. Relutantemente, Will entrou no campo, abrindo caminho pela batalha, desviando de golfadas de chama e flechas de luz conforme voavam de um lado para o outro. Quando finalmente conseguiu alcançá-la, agarrou o braço dela. "Rowan, esta não é a nossa luta. Vamos embora."

Ela apenas riu. "Will, você se divertiria se de fato tentasse!"

"Não estamos aqui para nos divertir, Rowan! Estamos aqui para nos tornarmos magos melhores!"

"Saia do caminho, calouro!" veio um grito atrás dele. Ele virou-se bem a tempo de receber um orbe de tinta no peito, que explodiu e o enviou colidindo contra Rowan. Juntos, levantaram-se do chão, tossindo, e Will olhou para baixo em horror: a cópia de Memórias de Thadus que ele tinha em sua mochila de viagem caíra e estava pingando tinta preta. Soube imediatamente que estava arruinada. "Ok", Will rosnou, cerrando a mandíbula. "Talvez seja a nossa luta."

Rowan puxou-o para ficar de pé. "Lembra da partida contra Vitrus e Gorm?"

Will assentiu, convocando a energia para lançar magia. Instantaneamente o ar ao seu redor caiu vários graus; ele soltou um suspiro, que fumegou no ar. "Vamos fazer isso."

Rowan virou-se e ergueu a mão, convocando uma esfera de relâmpago que estalava e sibilava conforme se esticava e serpenteava pelo ar.

Will contou conforme enviava uma onda de vento frio e gelo para rodopiar ao redor do relâmpago de Rowan. "Um~dois~TRÊS!"

Will e Rowan moveram-se como um só, sua magia combinando-se conforme descrevia um arco em direção aos outros estudantes. Eles não pareciam mais estar sorrindo tão presunçosamente — mas exatamente antes de atingir os Platinapenas, o relâmpago de Rowan brilhou e estalou, cortando as fitas da magia de gelo de Will. Will franziu o cenho, mas era tarde demais para ajustar. O ataque de Rowan foi forte, ao menos; perfurou o escudo de luz que a estudante Platinapena mais velha conjurara, enviando-a tropeçando para trás.

Rowan vibrou ao seu lado, mas a celebração durou pouco conforme ela girou e usou um chicote de relâmpago para afastar as farpas de outro mago.

Will encarou o ponto onde sua magia combinada — o entrelaçamento de feitiços que sempre foram capazes de fazer — falhara. Algo não estava certo.

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Liliana estava do lado de fora do Biblioplex, observando o desfile brilhante de estudantes conforme passavam. Conseguia quase sentir o peso de seu antigo uniforme Murchasabugo e puxou distraidamente o colarinho de seu casaco de professora.

Do outro lado, o Reitor Nassari entrou empertigado pelas portas do Biblioplex, com a Reitora Lisette ao seu lado. Liliana acompanhou o passo ao lado dos reitores.

"Professora Onyx." A Reitora Lisette assentiu em saudação. "Como está se adaptando às suas aulas?"

"Muito bem", Liliana disse. "Embora eu tenha ouvido alguns rumores perturbadores dos estudantes."

O Reitor Nassari riu. Era um som estranho, vindo de um efreet, como água correndo sobre cristais. "Bem, mentes jovens costumam criar contos elaborados. Acho que é um bom sinal. Imaginação ativa, e tudo mais."

Liliana forçou um sorriso, tentando manter seu tom leve. "A menos que eles também estejam brincando de fantasia e esgueirando-se pelos corredores, eu diria que isto é um pouco mais que brincadeira inocente."

"Esgueirando-se?" A Reitora Lisette arqueou uma sobrancelha. "E você viu uma dessas pessoas?"

Ela pausou. Como responder a isso? "Vi um estranho em uma máscara no campus. Se este era um desses Oriq, porém~"

"Aquela palavra de novo. Sempre soa tão séria. Realmente não sabemos se esses rumores são mais do que uma pegadinha inofensiva", disse Lisette.

Aquela magia que o estranho mascarado lançara nela estava longe de ser uma pegadinha inofensiva. "Não deveríamos subestimá-los, em todo caso. Os outros reitores e professores deveriam ser avisados. Certamente a escola tem alguma linha de defesa que possamos empregar."

"Você quer dizer, além de Alibou?" Nassari bufou. "Tenho certeza de que ele adoraria de fato ter algo para fazer para variar. Talvez então ele deixe de lado seu rancor contra mim."

"Estava pensando em algo mais que um único golem."

"Mesmo que estes seja-lá-como-se-chamem apresentem algum risco — nossos estudantes mal são cordeiros indefesos", disse Lisette. "Eles conseguem se defender."

"Mas quem vai protegê-los uns dos outros?" disse Nassari, apontando para um pátio próximo. Liliana conseguia ver feitiços errantes voando para o céu conforme gritaria e aclamação preenchiam o ar; outro duelo. Lisette suspirou enquanto Nassari ria. "Vê? Com tal talento, não acho que tenham nada a temer dos Oriq."

"Reitor Nassari", começou Liliana. "Deveríamos realmente—"

"Tudo bem, tudo bem."

Juntos, moveram-se para separar a batalha. Nassari enviou uma ampla faixa de água através da multidão, encurralando estudantes Prismari. Vinhas e raízes dispararam do chão sob o comando da Reitora Lisette, puxando as crianças para longe umas das outras e prendendo suas mãos antes que pudessem enviar mais magia voando.

Um jovem rapaz resmungava conforme seguia uma garota loira para fora do campo. "Isto não é Kylem, Rowan."

Liliana franziu o cenho, seu olhar passando pelas roupas deles. Estavam sem uniforme, e espadas pendiam de seus cintos. O cabelo curto dele era tão brilhante quanto o dela, seus olhos e narizes espelhos um do outro.

Kylem, ele dissera. Ela conhecia um lugar chamado Kylem — mas ele não se localizava em Arcavios.

A garota franziu o cenho. "Eu sei disso, Will. Mas isto também não é Eldraine. E você não pode me dizer o que fazer."

"Podemos apenas ir, por favor? Antes que nos metam em problemas."

Liliana observou conforme os gêmeos passavam por ela, encontrando brevemente o olhar do rapaz. Ele lançou-lhe um sorriso nervoso, então apressou-se a passar, puxando a irmã consigo.

Provavelmente não eram agentes Oriq. Mas se fossem planeswalkers, então talvez pudessem ser úteis se — quando, ela se corrigiu — problemas chegassem a Strixhaven.

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Will maravilhava-se com as paredes dentro dos dormitórios estudantis. Linhas intrincadas percorriam a pedra, brilhando com uma luz suave. Ele estendeu a mão e traçou uma delas, a magia formigando contra a ponta do seu dedo.

"É este", Rowan disse do corredor. Ela acenou para Will antes de empurrar a porta.

Entrando atrás dela, Will absorveu as paredes robustas e a janela de vidro. A luz solar entrava, preenchendo o espaço com um brilho quente. Duas camas ficavam em cada lado do quarto, cada uma arrumada ordenadamente com cobertores cinzas cobertos por linhas douradas que se interceptavam. Na parede atrás da porta, dois uniformes pendiam em suportes, sapatos combinando sentados no chão abaixo deles.

Rowan deixou-se cair na cama mais próxima da porta. "Isto é bom. Muito melhor que aquelas pedras que chamavam de camas em Kylem."

Will deu um risinho enquanto colocava seus livros na outra cama. Sentou-se, afundando no colchão macio, e passou as mãos pelas costuras brilhantes. As mesmas linhas brilhantes fluíam pelas paredes de pedra. Símbolos esculpidos aninhavam-se nos cantos, chamas de pedra e árvores e estrelas marchando pelo teto. Sua atenção prendeu-se nas chamas, lembrando-o do duelo feroz lá fora. Olhou para as próprias mãos. "Aquele feitiço que lançamos juntos pareceu~estranho para você?"

Rowan olhou da outra cama. "O que você quer dizer?"

"Não sei. Apenas não foi o mesmo que em Kylem."

"Bem, não estamos em Kylem, lembra?" Rowan deu de ombros e plantou os pés sobre o cobertor. "Além disso, funcionou, não funcionou? Qual é o problema?"

Will balançou a cabeça. "Sim, funcionou, mas~deveria ter sido mais suave. Mais coeso. Fizemos feitiços juntos dúzias de vezes, mas desta vez, foi como se nossa magia não estivesse cooperando. Pergunto-me se o Biblioplex terá algumas respostas."

"Bem, divirta-se com toda essa leitura", Rowan disse. Ela levantou-se e dirigiu-se à porta.

"Isto não é apenas um problema meu, Rowan", protestou Will. "E se estar neste mundo estiver fazendo algo para afetar nossa magia?"

"Minha magia estava perfeitamente bem."

"Não, não estava." Will deu um passo em direção à sua irmã. "Mas aqui, podemos descobrir o porquê. Você ouviu a Kasmina — esta é a coleção mais extensa de conhecimento mágico no Multiverso! Não viemos aqui para entrar em alguma rixa escolar estúpida."

Rowan revirou os olhos. "Ah, sério? E para que viemos aqui?"

"Para aprender. Para ficarmos mais fortes. Para aproveitar a vantagem do conhecimento e sabedoria que Strixhaven tem a oferecer." Will deixou as mãos caírem ao lado do corpo. "Poderíamos levar tudo isso de volta para Eldraine e ajudar o nosso próprio povo."

Rowan apenas balançou a cabeça. "É para isso que você veio aqui, Will. Mas eu não sou você. Podemos ser gêmeos, mas tenho permissão para viver minha própria vida."

"Claro que tem." Will suspirou. "Não foi isso o que eu quis dizer."

Após um momento, Rowan virou-se e saiu. Will agarrou seus livros e apressou-se atrás dela. Mas conforme Rowan movia-se mais para o fim do corredor, os passos de Will desaceleraram. Talvez ele tivesse que encontrar respostas por conta própria.

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Arte de: Piotr Dura

Em um banco ao longo de um cênico pátio do campus, Kasmina observava sua coruja retornando dos dormitórios. Conseguia ainda ver os gêmeos em sua mente, suas imagens um pouco distorcidas pelo formato daqueles olhos aviários. Strixhaven ofereceria muitas possibilidades para ambos. Ela apenas precisava ver quais eles tomariam.

Algo puxou sua atenção, e Kasmina fechou os olhos. Mas em vez de escuridão, sua mente encheu-se de vermelho.

Outra de suas corujas voava pelo ar, planando sobre um deserto rochoso. Movimento abaixo captou seu olhar.

Um homem escalava as rochas, os vermelhos e marrons de suas roupas ajudando-o a se misturar na paisagem. Ao lado dele, uma criatura semelhante a uma raposa saltava ágil pela lateral da formação, apenas para parar subitamente e assumir uma postura defensiva.

Houve uma investida de ar conforme várias figuras pareceram deslizar das sombras, saindo das mesas circundantes em ângulos impossíveis. Estavam vestidas com roupas escuras, máscaras de metal pairando onde deveriam estar seus rostos. Uma luz roxa doentia coalescia em cada uma de suas mãos erguidas — todas as quais estavam apontadas para o homem com a coisa-raposa. Lentamente, ele ergueu as mãos em rendição.

Kasmina enviou um comando mental, e sua coruja seguiu alto no alto enquanto os magos amarravam os braços do homem e o arrastavam em direção a uma bocarra de caverna aberta à frente.

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Lukka resmungou conforme os magos o empurravam para dentro da caverna. Mila rondava ao seu lado, seus dentes à mostra e pelos eriçados. Silenciosamente, ele estendeu a mão através do elo entre eles para acalmá-la. Se ela atacasse, os magos pensariam que ele era um inimigo. E embora tivesse certeza de que venceria a briga, não fora para isso que viera até aqui. Mila olhou para ele, então lentamente assentou-se de volta em cautela. Manteve o passo com Lukka, passando por cima de livros velhos e mofados que transbordavam das pilhas nuas ao longo da parede.

Os magos levaram-no a uma câmara maior. Estalagmites e estalactites cortavam o espaço como dentes serrilhados, o teto banhado em sombras. Lukka tropeçou em uma pedra solta, enviando uma pequena chuva de seixos tilintando pela encosta atrás dele.

"Silêncio", um dos magos mascarados siseou para ele. Empurrou o ombro de Lukka. "Continue andando."

Lukka respirou fundo, tentando sufocar sua própria irritação. Então uma das estalagmites moveu-se.

A princípio, pensou estar imaginando coisas, a escuridão pregando peças em sua mente. Então Lukka estendeu seus sentidos e congelou — a textura pedregosa e sulcada não era pedra, mas algum tipo de carapaça. Lentamente, o que quer que fosse pareceu se desdobrar, esticando pernas longas e finas na escuridão. Atrás dele, outra estalactite mudou de lugar, emitindo um estalido baixo ao fazê-lo. Estavam cercados.

"Continue. Andando", disse o mago mascarado.

Eles escolheram seu caminho pelo espaço, cada seixo deslizando enviando seus olhares para o teto. Lukka tentou imaginar como as criaturas se pareciam quando estavam ativas. O pensamento de enfrentar uma delas em carne e osso trouxe de volta memórias dos muitos pesadelos rastejantes que espreitavam nos sistemas de cavernas sob Ikoria. Acompanhando o horror, porém, havia uma estranha familiaridade — não conseguia evitar sentir como se já tivesse encontrado sua espécie antes.

Os magos puxaram Lukka até parar, forçando-o de joelhos. Mila virou-se para o lado oposto da caverna, baixando-se com um rosnado. Lukka olhou para baixo para ela. "Ei. Quieta."

O triturar de ossos perfurou o silêncio. Passos aproximaram-se, e das sombras saiu uma figura alta e magra. Girando ao redor da máscara longa, quase parecida com um pássaro, que escondia seu rosto, havia correntes de energia escura e coruscante.

Lukka tentou manter sua própria expressão neutra conforme o homem aproximava-se de uma das criaturas penduradas no teto, parando para acariciar sua carapaça. "Bem-vindo a Arcavios, Lukka de Ikoria."

"Você me conhece?"

"Sei de muitas coisas. Coisas que eu poderia te ensinar." O homem mascarado afastou-se da criatura estranha, em direção a Lukka. "E em troca, acredito que existam coisas que você poderia fazer por mim."

26/03/2021 | Por Aysha U. Farah

Um Grito de Magia

"Estou te entediando, Senhorita Squallheart?"

Eu me assusto e bato o joelho na escrivaninha. Minhas pernas são longas demais para tudo em Strixhaven, e as cadeiras do escritório de Uvilda não são exceção. A Reitora da Perfeição está sentada com as mãos cruzadas delicadamente, combinando perfeitamente com a magia fria e controlada que ela empunha. E, caso alguém precise de lembrete, seu escritório é igual. Paredes de cobalto, tapetes cerúleos e cortinas de azul-celeste diáfanas que tremem na brisa gelada. A única nota dissonante na decoração é o candelabro. E eu, suponho.

Arte de: Chris Rahn

"Desculpe", eu digo. "Estou com uma música na cabeça."

Uvilda arqueia uma sobrancelha fina. "Algo que eu conheça?"

"Acho que não." É suave — um lamento distante que não consigo captar direito. Apenas uma única linha de melodia, repetindo-se desde que acordei esta manhã. "Não consigo me lembrar bem da letra."

"De fato? A memória parece ser um problema este semestre, não é?"

Giro uma das pulseiras no meu pulso. "Acho que eu deveria anotar as coisas."

Ela ri como se eu tivesse feito uma piada. Mexo nas pulseiras do outro braço. Eu as uso principalmente para me impedir de roer minhas garras.

Uvilda é legal. Como magos seniores, já conheci muito piores, sentada em festas cheias de amigos e admiradores da minha mãe, suportando horas de fofoca, traição e alpinismo social. A reitora apenas tem uma tendência a falar com as pessoas como se fossem computações mágicas complexas que podem ser desvendadas com a frase gatilho correta.

"Não estou aqui para desencorajá-la, Senhorita Squallheart. Pelo contrário. Quero capacitá-la a fazer o melhor trabalho possível aqui na Faculdade Prismari."

"Eu sei disso."

"Você é a única estudante que ainda não solicitou uma crítica, e meus professores me dizem que é porque você, até agora, falhou em terminar qualquer coisa." Ela pausa, esperando que eu dê uma desculpa. Não tenho nenhuma. "Já faz quase um mês que o período começou, Senhorita Squallheart."

Ela olha pontualmente para minhas pulseiras tilintantes, e eu me forço a soltá-las. "Isso não é~exatamente verdade. Terminei coisas. Só~não entreguei nada."

"E por que não?"

Eu hesito. "Não está~certo. Não está pronto."

"Não deveria deixar que eu seja a juíza disso? É para isso que serve uma crítica."

Eu dou de ombros. Quero dizer a ela que já sei exatamente o que ela criticaria, mas sei que ela acharia isso impertinente. Minha mãe sempre acha. Ao lado de Uvilda na escrivaninha, uma das chamas das velas capta meu olhar. Está se comportando de forma estranha, tremeluzindo ligeiramente fora de tempo com as outras.

"Senhorita Squallheart?" Ela me dá um sorriso fino. "Outra música na cabeça?"

Respiro fundo. O campus de Strixhaven está impregnado com o gosto da magia, mas este edifício é especialmente pungente. Contenho um espirro. "Não tenho nada preparado para uma crítica, e não tenho uma boa desculpa. Não sei o que mais dizer."

Estou esperando raiva; o que recebo é mil vezes pior. Uvilda adota uma fisionomia avoenga. Parece dar muito trabalho. "Há algo que você gostaria de discutir, Rootha?"

Eu pauso. "O que você quer dizer?"

A expressão dela não muda, mas suas barbatanas se eriçam de irritação. Todas as velas em sua escrivaninha tremeluzem com o deslocamento do ar, exceto uma. "Coisas em sua mente, distúrbios emocionais? Problemas em casa?"

Retiro o que disse. Uvilda é exatamente como o resto deles. O calor sobe pelo meu pescoço. "Isto não tem nada a ver com a minha mãe."

"Sua mãe era uma conjuradora incrivelmente talentosa e delicada." Ou Uvilda não notou minha raiva, ou não se importa. "Ela foi~o quê, a quarta geração de estudantes Prismari na sua família?"

Meus olhos são atraídos irresistivelmente por uma das peças de arte em exibição no escritório. Uma réplica perfeita de um floco de neve, até sua estrutura cristalina delicada. Frio, mas nunca derretendo. Uma peça de feitiçaria impecável e segura. Minha mãe a fez em seu primeiro mês na Prismari. Quero despedaçá-la com minhas próprias mãos.

"Quinta", eu digo. "Ela foi a quarta. Eu sou a quinta."

Uma maga Squallheart, incapaz de sequer terminar um projeto. As chamas das velas estremecem novamente, dançando na brisa. Mergulho no movimento, deixando o tagarelar de Uvilda sobre minha família passar por mim.

"E por respeito à sua mãe e em deferência ao talento que eu sei que você possui, permitirei uma chance de você se redimir."

Mordo uma resposta sarcástica. Um efeito colateral de crescer sem amigos da minha idade é que tenho tendência a me dirigir a figuras de autoridade como se fossem colegas. "Ah é?"

"Traga-me um projeto concluído até amanhã—"

"Amanhã?" As velas flamejam com meu temperamento.

A expressão de Uvilda torna-se decididamente azeda. "Você mesma disse que tem trabalho terminado. Traga-me algo. Ou receio que não poderei mais garantir uma vaga para você na faculdade Prismari."

As velas flamejam mais alto. Calma, calma. Eu sabia que algo assim estava vindo, não há razão para eu perder o controle. As velas se acalmam. Todas exceto uma, que continua a dançar.

Não me surpreendo quando, assim que cruzo o limiar do escritório de Uvilda, ouve-se um whoosh e um clarão de luz vermelha, seguido por um grasnido de irritação.

Nassari, Reitor da Expressão | Arte de: Jason Rainville

"Ah, esfrie o ânimo", diz uma voz que estala nas bordas.

"Olá, Reitor", digo secamente, olhando por cima do ombro. "O senhor tem o hábito de espreitar em chamas de velas durante as críticas dos estudantes?"

"Ugh, chame-me de Nassari. 'Reitor' era o nome do meu pai."

"Espere, sério?"

"Não." O outro mago sênior da Prismari bate um dedo escuro no queixo. "Não sei por que disse isso. De qualquer forma, chame-me de Nassari. Efreets não fazem cerimônia."

"Nassari", digo, porque nunca fui muito boa em cerimônias também. "Mesma pergunta, suponho."

"Hmm? Ooh, não. A maioria dos estudantes de Uvilda são assustadoramente enfadonhos."

Os pés de Nassari não tocam exatamente o chão, chamas acumulando-se entre seus calcanhares e o mosaico do piso. Quase espero ver um rastro de marcas de queimadura, mas a magia deles é controlada demais para isso. Afinal, eles são o Reitor da Expressão, e mantêm rédeas curtas sobre o que exatamente essa expressão envolve.

"Mas você me interessa, Rootha. E eu queria estender uma oferta de assistência, caso você algum dia deseje algum conselho que seja menos, digamos~"

"Prático?"

"Eu ia dizer 'irritantemente cansativo', mas isso é muito mais equilibrado."

Alcançamos o topo da escada, e não tenho certeza se Nassari pretende me seguir por ela abaixo. O escritório deles fica no alto do Salão de Conjurot, junto com seus aposentos e oficina. Se eu pedir a ajuda de Nassari, eles provavelmente conseguiriam uma prorrogação para mim. Conseguiriam provavelmente mais que isso. Um indulto.

"Sei que a magia da sua família ostenta um estilo de assinatura", dizem eles. "Mas não acho que combine com você."

"O que isso significa?" Sai mais ríspido do que pretendo.

Nassari inclina-se para perto. Quase me afasto devido à pele deles ficando vermelha e laranja, e as chamas florescendo em seus olhos. Efreets têm reputação de serem traiçoeiros e imprevisíveis. Mas, por outro lado, orcs têm reputação de serem violentos. Mantenho minha posição.

"Há mais em você do que você deixa transparecer", Nassari diz, olhos quentes o suficiente para queimar. "Há magia selvagem em você."

A memória me atinge como um tapa, as mesmas palavras ditas em uma voz diferente. Magia selvagem. Folhas verdes, céu azul e vermelho. Raiva vermelha, sangue vermelho. Um grito em meus ouvidos e uma euforia doentia e zonza explodindo em minhas veias.

Eu tropeço. Nassari me segura antes que eu possa rolar escada abaixo.

"Estou bem", arquejo, antes que possam perguntar. "Obrigada pela oferta, mas ficarei bem."

Pelo menos uma coisa boa veio da Reitora Uvilda falando sem parar da minha mãe: lembro de onde vem a música presa na minha cabeça. Não as palavras ou o nome, mas sua fonte. Minha mãe costumava cantá-la para si mesma enquanto trabalhava. Uma paleta em uma mão, um pincel na outra, inclinando-se perto de seu cavalete e cantarolando suavemente. Eu sentava nos tapetes e misturava pigmentos para ela enquanto meus irmãos corriam lá fora com as crianças da vizinhança.

"Amarelo, Roothie", ela dizia, "o mais brilhante que você conseguir." E eu fazia o meu melhor para misturar as tintas do jeito que ela queria. Mesmo quando eu errava, as pinturas eram sempre belas. Tudo o que ela fazia era belo.

Todos os estudantes Prismari têm seu próprio conjunto de quartos — um espaço de convivência e um estúdio. O meu fica no lado oeste do campus, com vista para a borda do Caminho da Opus. Quando chego em casa, um dos sóis está se pondo sobre o lago, enviando luz salpicada por sua superfície. Sirvo-me de um gole de licor de amaranto seco com gelo, tomando pequenos goles e cantarolando a velha música da minha mãe para mim mesma enquanto tento encontrar o candidato ideal para a crítica de Uvilda. Embora, se eu ficar bêbada o suficiente, possa apenas decidir arrumar as malas e fugir.

Uma fileira de telas apoia-se na parede do estúdio — paisagens e retratos genéricos. Todos feitos no último mês, e nenhum vale o pigmento com que foi pintado. Em teoria, eu estava praticando técnica, mas nada aqui vale uma crítica. Como disse a Uvilda, já sei tudo o que ela vai dizer.

Aproximo-me da minha mesa de trabalho, juncada de papel de rascunho, pincéis e um cinzel amassado de quando o joguei contra a parede na semana passada. Minha peça mais recente da aula de escultura arcana está em meio ao detrito. Eu suspiro. Aquela provavelmente será minha melhor aposta.

A peça é de um azul profundo e frio. Caberia perfeitamente no escritório de Uvilda. Mas além disso, não há nada que a recomende. Apenas parece um surto caótico, uma onda congelada no meio do respingo, porque é exatamente isso que ela é. Enchi um balde com água e o despejei no chão do estúdio, congelando-a conforme respingava de volta em mim. O efeito não é nem de longe tão espetacular quanto eu esperava.

Minha mãe tece esculturas intrincadas e cintilantes de água e gelo, trançando cada molécula em um nível base para construir a estrutura mais delicada e fulgurante. Tudo o que consigo fazer é um congelamento instantâneo de tudo de uma vez, o que significa que não tenho controle sobre como fica. Nenhuma nuance, nenhum talento artístico. Apenas magia bruta e não filtrada lançada em um surto desordenado. Magia selvagem.

Eu estremeço, sirvo-me de mais amaranto e lanço novamente o feitiço de congelamento porque a superfície está parecendo um pouco gotejante. A magia vem quando chamo, mas é lenta e borrada. Eu gostaria de culpar a bebida, mas~

Minha mãe tinha uma tigela de bolas de gude em seu estúdio, e eu costumava brincar com elas enquanto ela trabalhava, despejando-as no tapete para fazer formas. Gatos, cachorros, dragões, orcs, todos vestidos para a batalha. Eu adorava espalhar minhas mãos sobre elas e sentir as pequenas esferas de vidro contra minhas palmas, misturá-las, empurrá-las juntas. Mas se eu quisesse que os contornos fossem precisos, tinha que alinhar as bolas de gude uma a uma, lenta e cuidadosamente.

É assim que praticar o tipo de magia da minha mãe me faz sentir. Lenta, cuidadosa e enfadonha.

Estou começando a sentir o licor quando alguém bate à minha porta.

"Sei que você está aí, Rooth. Consigo sentir a melancolia."

Em um transe, destranco a porta. Uma mulher está no limiar, os olhos pretos brilhantes na luz bruxuleante que reveste o corredor.

"Felisa?"

Ela sorri, torto e brilhante, revelando a ponta de uma presa afiada. "Não vai me convidar para entrar?"

Eu limpo a garganta. "Entre."

Ela desliza por mim suavemente. Felisa Fang está vestida para sair em um vestido prata e preto, seu cabelo preso no alto para revelar um pescoço esguio e orelhas suavemente pontiagudas. É o mesmo vestido que ela usou no ano passado, quando nós duas passamos a noite no bar, unidas pela necessidade de não conhecermos mais ninguém. Felisa, porque ela é do outro lado do mundo, e eu porque minhas habilidades de fazer amigos estavam pateticamente atrofiadas. Bebemos demais e contamos uma à outra nossas histórias. Ou mentimos sobre elas, ao menos. Contei a ela uma imagem dourada de crescer com Samara Squallheart, laudada artista-maga, e ela me contou sobre o clã Fang e sua mansão extensa.

Fosse ou não verdade, ela fazia jus à ficção — uma vampira, elegante e sagaz, com uma sagacidade brutal única mesmo entre outros de sua espécie. Gostei tanto dela quando nos conhecemos.

Ainda gosto. Ao menos em teoria. Na prática, mal nos falamos desde que escolhemos nossas faculdades.

"Bem, isto é simplesmente imenso!" Felisa anuncia, girando no centro da sala de modo que sua saia se abre em leque. "Você tem um quarto inteiro extra! Como isso é equitativo? Terei que reclamar com o reitor~é completamente inaceitável que eu não tenha um estúdio próprio, mesmo que eu não saiba pintar para salvar minha vida. Ah, você estava trabalhando?"

"Eu estava quase terminando." Nós duas paramos em lados opostos da minha mesa de trabalho. "Havia algo que você precisasse?"

"Não te vejo há eras — achei que seria bom dar uma conferida. Você não tem ido ao Fim do Arco."

Fico imediatamente suspeita. Não porque nos separamos em maus termos, mas porque há uma qualidade ensaiada nesta conversa. "Não tenho tido muita vontade de beber ultimamente", digo cautelosamente.

Felisa inclina a cabeça para o copo na minha mão.

"Não tenho tido muita vontade de beber em público recentemente", corrijo.

"Uh-huh." Ela alcança a escultura, e tenho que me forçar a não afastar a mão dela. "Você fez isto?"

Eu assinto.

"É bonito."

"Bonito." Minha voz soa como se viesse de algum lugar fora do meu peito.

"É." Os olhos de Felisa brilham sob as luzes do estúdio. "Não tão bonito quanto você, porém." Ela ri — um som quente, musical. É tão viciante que quero rir com ela. "Nem sei por que você está aqui." Ela dá um passo para mais perto, até que eu pudesse esticar a mão e tocá-la. "Se eu fosse tão bonita quanto você, nem me daria ao trabalho de vir para a universidade."

O calor atinge minhas bochechas, depois meu peito, depois meu estômago, forte, conforme a irritação se enrola dentro de mim como um punho. "Não faça isso."

"O quê?"

"Não use magia em mim." Eu me afasto dela. "Eu sei que não devo confiar em nada do que alguém da Platinapena diz."

As presas de Felisa brilham em um rosnado, antes que ela se controle novamente.

"Uau. Bem, tudo bem. Eu estava apenas oferecendo algum encorajamento — você parecia estar precisando."

"O que isso deveria significar?" retruco.

Felisa é uma Vanglória — ela usa palavras para inspirar ou reprochar, o que pode resultar em quedas e picos intensos na estabilidade emocional de um alvo. É um tipo complexo de magia que não é fácil de ensinar. Ou você tem o jeito para isso, ou não tem. Sinto a tensão disso contra o interior das minhas pálpebras e o fundo da minha garganta.

A raiva que tem fervilhado no fundo do meu estômago desde o escritório hoje desabrocha novamente em um inferno. "Pare com isso! Não preciso das suas mentiras ou do seu encorajamento ou de qualquer outra coisa que você possa oferecer." A magia rodopia dentro de mim, pressionando a arquitetura dos meus ossos. Vejo sangue vermelho e céu azul e ouço os gritos me cercando. E então apenas vejo Felisa, olhando para mim como se não soubesse quem eu sou. "Talvez seja melhor você ir embora."

Ela vai.

Estou tremendo. Sinto os pequenos tremores em meus braços e pernas. Despejo mais amaranto no copo e o viro de uma vez. Bonito. Bonito. O que de bom ser bonita vai me trazer? A arte da minha mãe é mais que bonita. É transcendente. É poderosa. Se eu levar algo bonito para a Reitora Uvilda, sei exatamente o que ela dirá.

Quando minha mão alcança meu projeto, é como se pertencesse a outra pessoa. Minhas garras brilham e minhas pulseiras se chocam. Minha escultura ressoa como mil pequenos sinos conforme a estilhaço em pedaços no chão do estúdio.

Arte de: Bayard Wu

O Caminho da Opus está deserto à noite, mas as luzes bruxuleantes ardem ao longo da trilha, guiando meu caminho. Passo cambaleando por fileiras e fileiras de projetos de arte passados, belos e impossíveis, presenteados à faculdade por estudantes gratos. Todos deixam algo para trás quando se formam — é tradição.

Não é difícil encontrar o da minha mãe. Conheço a magia dela de vista.

Sua maior criação: uma cachoeira interminável derramando-se do nada e desaparecendo de volta em lugar nenhum. A magia é impecável, mas fácil de perturbar. Com um toque dos meus dedos, sinto todas as maneiras como ela é mantida unida há décadas. Eu poderia desenrolá-la fio por fio, ou poderia apenas estilhaçá-la.

Uma alegria vingativa sobe dentro de mim. Samara Squallheart é famosa, amada, mas seu trabalho será tão facilmente desfeito quanto o de sua filha inútil.

"Eu não faria isso. Seria uma bagunça."

Um cordão fino de chama entrelaça meu pulso, mais vapor que fogo. Mas então eu me esforço contra ele e ele aquece, mais e mais quente até eu gritar, escaldada.

O Reitor Nassari me solta e estende uma mão paciente. "Deixe-me ver."

Eles não parecem bravos, mas há comando sem esforço suficiente na voz deles para que eu nem sonhe em desobedecer. Não magia. Apenas autoridade. Sua pele é perfeitamente fria ao toque, e quando eles passam o polegar pelo meu pulso, a queimadura some. "Como nova."

Eu me afasto. Sinto-me tão vazia que estou ecoando. "O senhor estava me seguindo?"

"Sim."

"Ah."

Eu não estava esperando honestidade, e certamente não esperava que viesse sem repreensão. E é bom que eu estivesse te seguindo.

"O senhor mandou a Felisa atrás de mim também?"

Os olhos de carvão brilhante de Nassari se estreitam. "Não sei quem é essa."

"Ela é da Platinapena. Uma Vanglória. Nós somos — fomos amigas. Ela apareceu do nada e começou a usar magia de encorajamento em mim."

Nassari faz um som na garganta que me lembra fogo devorando pergaminho. "Isso parece mais a praia de Uvilda que a minha. Funcionou?"

Eu bufo. "Não gosto de ter minhas emoções manipuladas."

"Ninguém gosta."

"Algumas pessoas devem gostar", eu digo. "Senão ninguém na Platinapena teria emprego."

Os olhos de Nassari ardem ainda mais brilhantes. "Hmm, mas alguém visita uma Vanglória porque quer, ou porque não tem escolha?"

Não estou sóbria o suficiente para isto. "Não sei! Por que alguém faz qualquer coisa?"

"Ah, o enigma eterno. Vamos discutir isso longe de obras de arte delicadas. Adoro um pouco de destruição, mas os golems jardineiros vão querer meu couro se eu deixar você detonar o gramado."

Após um momento de hesitação, aceito o braço oferecido e deixo que me conduzam para longe da cachoeira da minha mãe. "Então o senhor está me dizendo que Uvilda fez minha amiga usar magia em mim para~o quê? O ponto todo de uma crítica é eu mesma fazer o trabalho!"

"Hm." A boca de Nassari se achata. "Talvez seja menos o seu sucesso que ela esteja buscando, e mais a atenção de uma parte interessada."

Luto para processar o que eles querem dizer, e quando consigo, a raiva sobe novamente dentro de mim em espirais apertadas. "Minha mãe. É claro."

"Os Squallhearts têm sido generosos com doações no passado", Nassari diz.

Eu sei disso. Claro que sei. Mas de algum modo nunca me ocorrera que eu poderia ter sido aceita em Strixhaven apenas por causa da fama da minha mãe. Eu iria para Strixhaven porque é isso que as mulheres Squallheart fazem, mas assumi, talvez de forma idiota, que chegaria lá por méritos próprios.

Estou feliz que Nassari esteja aqui porque não tenho certeza do que faria se não estivessem. Sei que eles sentem a violência suprimida dentro de mim. A magia selvagem.

"Posso te contar um segredo?" A luz bruxuleante torna suas chamas fantasmagóricas.

"Eu~acho que sim? Não sou muito boa com segredos."

"Tudo bem, eu confio em você." Eles batem um dedo na boca, mimando um sussurro. "Eu nunca gostei da sua mãe."

"O quê?" De tudo no mundo que eles poderiam ter dito, eu não estava esperando por isso. "Mas~ela é um gênio. Sabe por quanto sai uma das pinturas dela?"

Nassari mostra uma língua laranja derretida em uma demonstração infantil de aversão. "Eh. Claro. Mas a mulher em si~sem ofensa à sua família, mas ela sempre foi metida e espinhosa na minha aula. Todo sorrisos enquanto precisava de você, uma vidraça em branco quando não precisava."

Fico olhando para eles, porque acho que nunca ouvi ninguém resumir minha mãe de forma tão brutal e precisa. "Então por que o senhor está fazendo tudo isto?" É mais alto do que eu pretendo, a frustração transbordando. "Se não sou sua estudante e o senhor não se importa com a minha mãe, por que gastar seu tempo comigo?"

A brisa chicoteia as chamas de Nassari ao redor de seus tornozelos. "Você sabe como é a sensação de um terremoto? Não os tremores em si, mas o potencial antes de começarem. O gosto do ar antes de uma tempestade, a maré recuando antes de uma onda. É assim que você me parece. A magia que você está fazendo em suas aulas — magia limpa, arrumada, ordenada. Não combina com você."

As palavras abrem um poço dentro de mim, horror borbulhando para fora. Que Nassari possa estar ali parado e dizer isto para mim, possa estender a mão e agarrar todas as coisas dentro de mim que mais me assustam e arrancá-las para o aberto.

Eu me balanço para trás. "O senhor não entende."

"Explique, então." Aquele comando novamente. Nenhuma compulsão, apenas vontade temperada em chamas.

Minha respiração estremece no peito. "Não sei por onde começar."

"Por qualquer lugar."

Fecho os olhos brevemente. "Minha magia veio cedo. Quando eu tinha uns oito anos. Isso é muito cedo para uma orca. Eu era uma criança desajeitada. Mãos grandes, pés grandes, e com a magia, só piorou. Eu tinha um temperamento terrível. Eu~jogava as coisas. Quebrava-as. Gritava se não conseguia o que queria. O que é normal para uma criança, suponho. Mas eu era uma criança que podia incendiar coisas com o cérebro." Forço uma risada. Dói. "Eu estava no quintal brincando com meus irmãos. Um deles — Tomlin, o mais novo~eu estava brava com ele. Mal me lembro do que ele estava fazendo. Provavelmente me cutucando com um graveto, algo estúpido.

"Eu estava com tanta raiva. Queria machucá-lo, e machuquei." Cerrar a mandíbula contra as memórias. "Pareceu — bom. Certo. Como se fosse o que eu deveria estar fazendo. Ele sobreviveu, ele está bem, mas ninguém nunca mais confiou em mim. Nenhuma das famílias próximas deixava seus filhos chegarem perto de mim. Então, enquanto meus irmãos e minha irmã estavam lá fora na mata correndo com crianças da nossa idade, eu estava lá dentro. Sendo ensinada a controlar minha magia." Diga, Rootha. "Mesmo que não venha naturalmente para mim. Eu consigo fazer. Eu fiz. Até agora."

Nassari faz um ruído suave ao meu lado. Minhas passadas agitadas nos trouxeram por toda a extensão do Caminho da Opus, e estamos na borda da seção habitável do campus Prismari. Além está a escuridão intercalada com neblinas de magia — Ventofúria. Um cemitério de projetos abandonados e feitiços conjurados pela metade que não ficaram felizes em se render de volta às suas partículas de base. Ninguém deveria vir aqui, mas as pessoas vêm. Felisa costumava assistir a duelos de honra aqui regularmente, observando estudantes mais velhos resolverem seus problemas com magia quando as palavras não eram mais adequadas.

Exatamente o lugar para descartar uma coisa quebrada que não funciona como deveria.

"Você nunca contou essa história para ninguém, não é?"

Encaro a escuridão. "Não quero simpatia."

"Bom. Porque não receberá nenhuma de mim."

Olho para eles, esperando um sorriso. Apenas outra piada. Mas não há nada de piada na expressão deles, nada de gentil.

Bizarramente, começo a rir, mesmo enquanto tudo dentro de mim se aperta mais e mais. "Bem, ótimo! Obrigada pelo encorajamento."

Nassari ergue um ombro. "Se eu achasse que encorajamento ajudaria, teria te mandado de volta para a sua Vanglória. Você acha que é a única maga com uma história dessas? Magia não é uma disciplina limpa."

"Fantástico", eu desdenho. "Bom saber quão mediana eu sou. E suponho que esses magos todos cresceram para levar vidas felizes?"

"Pelo contrário." Nassari levanta a corda que separa o fim do Caminho da Ventofúria, fluindo sob ela com graça de outro mundo. "Muitos deixam que isso os arruíne, como você fez aqui."

Isso dói como um tapa. "Eu não fiz—!"

"Você cometeu um erro, e desapareceu dentro de si mesma."

"Um erro?" Minha voz ecoa nos vazios. "Eu poderia ter matado meu irmão, e eu gostei!"

Nassari deixa a corda cair lentamente, separando-nos. "Bem, você não vai me matar. Não importa o quanto você goste."

Mostro as presas. "O senhor tem tanta certeza disso?"

Eles retribuem o sorriso, vicioso e bruto de poder. "Tente."

Eles estão me provocando. Não deixo ninguém fazer isso há mais de quinze anos, mas não suporto o desdém em seus olhos. O desapontamento. Eles acharam que eu era algo digno, interessante. Algo valioso. Eu provei que estavam errados.

Isso me deixa brava. Isso me faz queimar.

Arte de: Colin Boyer

O poder explode forte e abrasador do meu diafragma, uma golfada quente de magia que sai em um grito. Nem mesmo um encantamento real, apenas uma descarga bruta de emoção. Totalmente descontrolada, preparada para matar.

Nassari move-se mais rápido do que já vi qualquer criatura se mover. Como chama incendiando grama seca. Eles saltam para trás no ar e capturam minha magia entre suas palmas. A força do impacto os lança mais alto no ar, ondas de choque atingindo o solo e chicoteando minhas tranças ao redor da cabeça. Eles dão um salto mortal elegante no ar e tombam de volta ao chão. A magia eles sifonam para longe e para dentro da Ventofúria, onde ela paira no ar, estalando como estática.

Meus joelhos atingem o pavimento. "Não, não, não." Todo o meu interior foi escavado. Eu ecoo como as galerias superiores do Biblioplex. Ataquei um reitor.

"Levante-se", Nassari diz.

Afasto meu cabelo dos olhos. A calma deles é enfurecedora. "Eu ataquei o senhor!"

"Eu mandei você tentar."

"Isso não importa!"

"Não vou te expulsar da Prismari, Rootha Squallheart. E nem a Reitora Uvilda. Se quiser ir embora, terá que fazer isso você mesma."

Olho para eles, silhuetados contra a descarga da minha magia ainda pairando no ar. Durante toda a minha vida, tudo o que alguém já me ofereceu foram encorajamentos vagos e métodos de controle. Nassari me oferece uma mão para subir e passar sobre a corda para dentro da Ventofúria.

"Ainda não tenho um projeto para Uvilda", eu digo. Estou tremendo. Tento esconder fechando os punhos.

No escuro, o corpo inteiro de Nassari brilha. Eles são a coisa mais brilhante aqui. "Nada?" Eles olham em direção ao spray de magia. "Isso não me parece com nada."

Eu bufo. "É, isso não é arte. É um acesso de raiva."

"Sabe o que eu entreguei como meu primeiro projeto?"

"Não. O quê?"

A língua derretida de Nassari brilha por trás de seu sorriso. "Um terremoto."

Eu rio, novamente sem ter certeza se estão brincando. Dou um passo para mais perto da magia pairando no ar. Ela~não é exatamente sem forma. Há uma consistência nela, uma constelação. Estendo uma mão—

E a puxo bruscamente para trás. A música. A música da minha mãe ressoa em meus ouvidos quando toco a magia. Alta demais — é praticamente um grito e ainda não há letra — mas acho que consigo ouvi-la em algum lugar profundo dentro dela. Eu poderia arrancá-la — eu sei que conseguiria.

Mas não em uma noite.

Balanço a cabeça. "Não posso levar isto para Uvilda."

"Claro que não." As sobrancelhas de Nassari são feitas de chama, mas ainda conseguem parecer extremamente sardônicas. "Eu não disse? Você não vai embora enquanto ainda quiser ficar. Uvilda não é mais sua orientadora. Eu sou. E eu digo que você passou."

Fico momentaneamente sem palavras, minha boca abrindo e fechando. "Uvilda não ficará feliz com isso."

"Eu lidarei com ela."

"Por quê?" explodo. "Por que o senhor está fazendo isto por mim? Não sou excepcional. Não sou única. Sou—"

"Uma das minhas", Nassari diz, e me perfura com um olhar tão intenso que sinto vontade de recuar. "A magia dentro de você é do que eu sou feito, de corpo e alma. E não permitirei que ela se queime até virar nada."

Engulo seco, todas as minhas dúvidas me pressionando. "Não valho tanto assim."

"Talvez ainda não." A boca de Nassari está torta. "Mas tenho faro para investimentos de longo prazo."

31/03/2021 | Por Adana Washington

Episódio 2: Lições

Tavver não sabia por quanto tempo esperara naquele túnel apertado sob o Biblioplex — horas, certamente, embora tenha parecido muito mais. Não se sentia seguro movendo-se durante o dia; eventualmente, teria que emergir da passagem subterrânea e cruzar o desfiladeiro que separava a escola das matas circundantes. Depois disso, estaria sob a cobertura das árvores, majoritariamente, mas nem isso era proteção contra ser visto. Esta era uma escola cheia de magos — maldição! Os melhores magos de toda Arcavios, não importa o que os outros Oriq dissessem sobre todos os pirralhos indignos. E se um dos Fundadores por acaso voasse no alto? Ele não tinha interesse em ser incinerado por fogo de dragão. Não, Tavver sempre se achou um pragmático. Então, muito pragmaticamente, esperou até o anoitecer.

Não estava animado em enfrentar Extus novamente — não após falhar em sua missão. Mas se preocuparia com isso quando saísse vivo. Tavver vira verdadeira escuridão naqueles olhos violetas da professora. Ela tivera a intenção de matá-lo — e para quê? Para que Extus pudesse ter algum livro velho e empoeirado de que se lembrava de sabe-se lá quantos anos atrás?

Finalmente, com a noite caída, ele pôde começar a árdua jornada para casa através da floresta e sobre as escarpas rochosas. Seria uma longa noite.

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Três semanas antes, antes de Lukka conhecer os magos Oriq — antes de o sequestrarem, na verdade — ele cerrou os olhos contra a luz, seu estômago ainda revirando por transplanar. Nunca uma sensação agradável. Através do campo gramado à frente dele estava uma pequena vila. Conseguia ver algumas pessoas circulando; uma mulher acenava as mãos sobre uma fileira de terra arada, murmurando um feitiço de crescimento, enquanto outra ordenava o que parecia um constructo de lama a arrastar um arado pelo campo.

Vagou por ruas não pavimentadas até que o cheiro de comida o atraiu para uma estalagem. Ignorando os olhares e sussurros das pessoas sentadas às mesas de madeira agachadas, Lukka sentou-se no balcão de madeira.

"Procurando algo, estranho?" disse o estalajadeiro, um homem redondo com uma cabeça de cachos robustos.

"Uma refeição quente", disse Lukka. O estalajadeiro hesitou como se fosse dizer algo, então assentiu e moveu-se em direção à cozinha.

"Não vi roupas como essas antes", veio uma voz atrás de Lukka. "Você não é daqui, imagino."

Ele se virou. Um homem alto nas mesmas roupas rústicas que o restante dos aldeões levantara-se de sua mesa e estava vindo em sua direção.

"Não", disse Lukka, virando-se. "Acho que não sou."

"Sabe quem dizem que se veste estranho e age mais estranho ainda? Passando por cidadezinhas como a nossa para recrutar? Os Oriq", disse o homem atrás dele. Seu tom estava longe de ser amigável.

"Não sei do que você está falando."

"Talvez sim. Talvez não. De onde você é, então?"

Lukka manteve os olhos fixos para frente, sem se dar ao trabalho de sequer olhar para o homem tagarela. "Você não conheceria."

Ouviu o homem sugar os dentes. O estalajadeiro ainda não retornara da cozinha. Lukka começava a duvidar que algum dia retornaria.

"Ok, Oriq, acho que já ouvi o bastante. Não gostamos de intrometidos nesta cidade, ou daqueles que buscam perturbar a paz. Se fôssemos uma cidade de verdade, chamaríamos a Guarda-dragão mais próxima e menos ocupada para dar um jeito em você. Mas somos apenas uma pequena vila agrícola — então aprendemos a lidar com estranhos nós mesmos."

Lukka sentiu, em vez de ver, o fluxo de magia conforme o homem iniciava um feitiço. Será que todo mundo é a droga de um mago neste plano? Ele se virou e, em um movimento fluido, esmagou o punho na mandíbula do homem. O homem caiu inerte, a energia diáfana enrolada em uma mão dissipando-se. Lukka teve um instante para respirar antes de outro homem irromper pela porta da estalagem, uma bola de chama pairando acima de uma mão estendida. Lukka conseguiu dar alguns passos antes que a faísca ígnea respingasse nas costas de seu casaco, lançando-o através do vidro de uma janela próxima e para a rua.

O fedor de couro carbonizado encheu seu nariz, misturando-se com a dor lancinante em seus ombros. Lukka rosnou e lançou seus sentidos pela vila, encontrando cada mente vulnerável que conseguia. Chamou por elas, tropeçando de volta para ficar de pé.

O homem que lançava bolas de fogo deixara a estalagem e unira-se do lado de fora a outros dois aldeões de aparência robusta. "Onde estão seus amigos? Sabemos que vocês, escória Oriq, gostam de viajar em bandos."

"Ah, eles chegarão a qualquer minuto", disse Lukka.

O homem ergueu a mão e começou a enchê-la novamente com fogo. Antes que pudesse terminar, um cão saltou pelo ar, seus dentes afiados brilhando conforme afundavam no braço dele. O homem gritou, as chamas apagando-se enquanto ele lutava para se libertar. Conseguiu arrancar seu braço exatamente quando um cavalo avançou contra ele. Ele e seu companheiro mergulharam para fora do caminho, mas o cavalo os seguiu, impulsionado pela raiva de Lukka. Empinou-se, então desceu os cascos com força.

O sorriso presunçoso de Lukka desapareceu conforme a fome disparou por seu estômago. Cambaleou pela estrada, sua mente seguindo absorta a luta através das feras, até que o ruído sumiu atrás dele.

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Normalmente, refletia Liliana, não se entrava voluntariamente no covil de um dragão — ou se o fazia, fazia-se com um desejo de morte e algumas lâminas bem afiadas. Ela não tinha nenhum dos dois ao aproximar-se do bosque emaranhado onde Beledros Murchasabugo fazia seu lar. Tudo o que trazia consigo eram perguntas que precisavam de resposta.

Afastou um galho baixo, tentando fazer o máximo de barulho possível. Esgueirar-se para cima de um dragão era uma ideia ainda pior que visitar um. Mas o ninho estava vazio, apenas uma ampla mancha de folhagem pressionada contra a terra, e Liliana sentiu-se aliviada apesar de si mesma. Nicol Bolas se foi. Do que estou realmente recuando?

O covil era cercado por árvores de folhas escuras inclinando-se sobre o divot na terra como jurados. O cheiro de decadência misturava-se com terra fresca, mas Liliana sabia que Beledros tinha uma coleção formidável de escritos arcanos guardados. Esferas brilhantes de vários tamanhos jaziam aninhadas em estruturas de raízes massivas, protegendo seu conteúdo do ar úmido. Talvez houvesse algo nos livros e pergaminhos que pudesse ajudá-la a trazer Gideon de volta. Liliana espiou para dentro de um dos globos, cuidadosa para não ficar presa na lama espessa sob os pés.

Estava olhando através de sua quinta esfera quando o som de asas trouxe sua atenção ao céu. Liliana respirou fundo e lembrou de ajustar seu uniforme de professora conforme a sombra de Beledros Murchasabugo passava sobre ela.

Art por: Raymond Swanland

Beledros circulou o local duas vezes antes de pousar com um tremor que abalou a terra. Dobrou suas asas negras emplumadas enquanto estudava Liliana com aqueles olhos brilhantes e sinistros. "Taiva pode ser duro às vezes, mas certamente lidar com ele não é tão problemático quanto caminhar até aqui fora, Professora."

"O que eu preciso não é algo em que o diretor possa me ajudar."

Beledros lançou o que Liliana julgou ser um olhar curioso.

"Encontrei parte do seu trabalho sobre reincorporação etérea." Liliana puxou um pedaço pontiagudo de metal do bolso. Era a única peça de Gideon que ela tinha, uma ponta de uma das lâminas de seu sural. "O que seria necessário para que tais métodos funcionassem em humanos?"

Beledros emitiu um ruído de ribombar, o som vibrando o chão sob ela. "Isto cheira a um tipo perigoso de intromissão para mim. Algumas perguntas é melhor deixar sem resposta."

"Não vim aqui para um sermão. Só quero uma resposta simples."

"Quando se trata de éter, não existem respostas simples." Beledros passou por Liliana, dirigindo-se a um recesso mais profundo na lateral da cratera. Virou-se e deitou-se, envolvendo sua forma massiva com a cauda. "Você fala da própria essência da vida. Ela não pode ser comandada como um bicho de estimação. Ressurreição — à parte da necromancia mais básica, você entende — é diabolicamente difícil, mesmo para mim mesma."

Liliana cerrou a mandíbula. "E quanto ao filho da Professora Gladefell?"

O dragão ficou imóvel, cada imenso olho negro um poço sem fundo. "Não. Aquilo foi~algo que não verei repetido. Para o bem de todos nós."

"Não sou uma estudante rebelde, Beledros." Liliana deu um passo em direção ao dragão, a lâmina de Gideon fria em sua mão. "Não preciso do seu mimo, e não preciso da sua proteção."

"Talvez não", disse Beledros. "Mas não é você que eu estaria protegendo."

"O que você se importa com humanos, afinal? Imagino que pareçamos pouco mais que insetos para você. Nenhum dos Fundadores sequer esteve na universidade em anos."

O dragão virou-se na cabeça e fechou seus imensos olhos de pálpebras pesadas. "Os reitores são mais do que capazes de manter a ordem e a paz. Assim como os Guardas-dragão e o Oráculo." Soltou um risinho, agitando a camada de folhas em decomposição e cobertura vegetal sob eles. "Até os Arcaicos fazem sua parte."

As unhas de Liliana enterraram-se em sua palma. O dragão tinha que saber mais do que estava deixando transparecer. E esta era sua última esperança. A última esperança de Gideon. "Por favor. Ele tomou a minha morte. Ajude-me a devolver a ele a vida dele."

Beledros abriu fresta de um olho e olhou para ela por um momento. O vento soprou sobre o topo das paredes da cratera, agitando as árvores escuras que cercavam o covil. Finalmente, fechou o olho novamente. "Eu não posso."

Um solavanco de dor na mão de Liliana disse-lhe que ela apertara o pedaço do sural com força excessiva. Encarou sua palma sangrando, tentando acalmar a tempestade de suas emoções. Aquela não era uma luta que ela pudesse vencer com força ou pura vontade. Liliana guardou a peça da lâmina de volta no bolso e virou-se para partir. Estava na metade da subida da cratera quando Beledros falou.

"A dor pode ser insuportável às vezes. Mas no fim, como honramos os mortos é refletido em como tratamos os vivos."

Liliana olhou para trás, mas o dragão ainda estava enrolado na lateral da cratera, derivando lentamente em direção ao sono.

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Lukka tropeçou conforme movia-se por uma borda pedregosa, cuidando de seu passo ao longo da beira de um precipício íngreme. Lá embaixo, grama curta e árvores raquíticas agarravam-se amargamente à vida. Sua fome apenas piorara, apertando seu estômago mais e mais a cada passo vacilante. O pouco de comida que conseguira caçar acabara há muito tempo, e ele ficara sem água horas atrás.

Arte por: Kieran Yanner

A borda subitamente cedeu sob ele, esfarelando-se em pedra solta. Lukka gritou conforme seu tornozelo torceu. Lançou as mãos, alcançando qualquer coisa para salvá-lo da longa queda, e seus dedos agarraram-se na borda de uma pedra afiada e plana. Rangendo os dentes, puxou-se pela lateral do precipício, pernas esgaratando por apoio, e finalmente lançou-se de volta sobre a prateleira de pedra. Jazio ali pelo que pareceu uma eternidade, seus pulmões queimando conforme sugava golfadas de ar.

Pensamentos de sua quase morte desapareceram conforme seu olhar captou a rocha que o salvara. Flutuava no ar, a extremidade voltada para ele lisa e curva. Lukka levantou-se, encontrando mais das pedras estranhas pairando ao redor da lateral do precipício. Juntas, formavam um semicírculo, como se o restante delas estivesse perdido dentro do próprio precipício.

Um pequeno ruído chamou sua atenção. Lukka retesou-se, pronto para problemas — mas, conforme veio novamente, pareceu um som piedoso, suave e fraco.

Lukka seguiu-o até encontrar uma pilha de pedras. Caiu de joelhos, empurrando uma das pedras. Um par de olhos dourados olhou de volta para ele. A criatura deu um ganido miserável, piscando contra a luz. Conforme Lukka empurrava o restante das pedras para o lado, viu que sua pelagem cinza estava suja, cobrindo as manchas que corriam em um padrão de camuflagem ao longo de suas costas. Um longo talho cruzava o focinho da criatura, e algo arrancara um pedaço de uma de suas orelhas pontiagudas de ponta preta.

Livre agora, a criatura semelhante a uma raposa mancou passando pelas pedras que Lukka movera, colocando mais espaço entre eles. Ele sentou-se com força, a força em suas pernas finalmente cedendo. Sentiu-se desfalecer. "Vá em frente, então. Cai fora."

A raposa virou-se e disparou pela curva do precipício exatamente quando a consciência se esvaiu.

Quando acordou, a primeira coisa que registrou foi a presença dela. Manteve-se imóvel, abrindo lentamente um olho. Ela estava sentada sobre as ancas a alguns passos de distância, encarando-o. Então seus olhos voltaram-se para o chão ao lado dele.

Lukka seguiu o olhar dela. Uma pilha de bagas e nozes jazia ao lado de sua perna. "Obrigado."

A raposa retesou-se, levantando-se.

Lukka começou a erguer uma mão mas deteve-se. Encarou-a, o silêncio estendendo-se conforme o primeiro sol começava a subir ao longe. Finalmente, Lukka respirou fundo e lançou seus sentidos de vinculador.

O toque quente de pelo acariciou sua mente conforme o elo entre eles se fixava. Fazia tempo que ele não usava essa magia mais gentil — não para um servo, mas para uma parceira. Ele nem sequer percebera o quanto sentira falta disso.

Art por: Kieran Yanner

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Liliana impulsionou-se para longe da lateral da imponente tocha de metal e continuou sua jornada de volta a Strixhaven de mãos vazias. Estivera fora por dias àquela altura — dias de aulas que ficaram sem ser dadas, reuniões que ficaram sem ser atendidas, deveres de professora que ficaram por fazer. Após a recusa de Beledros em ajudá-la, seguira rumores de um Arcaico até as ruínas de Caerdoon. Mas não encontrara nenhum gigante massivo e místico repleto de segredos arcanos. Na verdade, não encontrara muita coisa de nada. Fora para nada — e agora seria questionada pelos outros professores. Ou pior, pelos Reitores Valentin e Lisette.

Um guincho animal soou à distância. O grito estrangulado veio de algum lugar adiante, fora da trilha, embora Liliana não conseguisse ver além da copa espessa das árvores. Entrou no sub-bosque, mantendo-se baixa.

Em uma clareira não muito longe da trilha, sete pessoas estavam em círculo. Magia roxa fulgurava ao redor de suas mãos estendidas, da mesma cor da luz que se enrolava em trilhas enfumaçadas ao redor de suas máscaras. Liliana pressionou-se contra o tronco nodoso de uma árvore velha e observou conforme o bando de agentes Oriq cercava um grande cervo branco.

A besta berrou e empinou-se, golpeando um dos agentes com os cascos. Uma figura recuou, mas as outras empurraram para frente, forçando-o em direção ao caixote de metal que jazia aberto atrás dele. Centímetro a centímetro, o cervo recuou para dentro do caixote, seus gritos partindo o ar — então cortados abruptamente conforme a porta da caixa de metal bateu fechando.

Liliana observou, silenciosa e imóvel, conforme carregavam o cervo capturado em uma carroça que esperava por perto. Eventualmente, o ranger das rodas da carroça sumiu à distância.

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À distância, Lukka conseguia distinguir o rastro espiralado de fumaça de uma chaminé em algum lugar além das matas. Em outro mundo, outro plano, teria sentido alívio. Finalmente, algum lugar macio para descansar a cabeça. Algum lugar para conseguir uma refeição decente onde não tivesse que controlar a mente de coelhos para deixá-lo quebrar o pescoço deles. Mas aqui, em Arcavios, sabia que apenas seria tratado com a mesma suspeita que fora em todos os outros lugares. O povo deste plano odiava tudo o que era novo, tudo o que não entendiam. Como aqueles Oriq, os magos mascarados que usavam magia "proibida pelas faculdades de Strixhaven", o que quer que aquilo significasse. Cada aldeão parecia pensar que havia um agente Oriq escondido sob sua cama. De certa forma, lembrava-o de casa, da maneira como o General Kudro olhara para ele quando Lukka mostrara sua magia de vinculador pela primeira vez. Aquele era um lugar governado pelo medo.

O som de vozes elevadas arrancou Lukka de seus pensamentos. Seguiu-as até o outro lado de uma crista. Lá embaixo, conseguia ver uma mulher vestindo roupas impecáveis enfrentando um grupo de indivíduos mascarados. Fumaça roxa e diáfana enrolava-se e dançava pelas feições cobertas deles; todos usavam capuzes, tornando sua silhueta alienígena e inumana.

A mulher não parecia preocupada em estar em desvantagem numérica de quatro para um. Bordado em suas roupas, Lukka conseguia distinguir a forma estilizada de um dragão. Ah, a Guarda-dragão de que tanto ouvi falar. Magos de elite que estudaram ao comando e garra daqueles velhos répteis escamosos.

"Esta é a sua última chance", a mulher dizia. "Renda-se e—"

As figuras mascaradas não esperaram que ela terminasse. Uma disparou uma mão, uma bobina de energia roxa gotejante estalando em direção a ela. A Guarda-dragão girou o pulso sem esforço; houve um clarão brilhante, e subitamente a bobina de magia negra estava voando—

Direto para Lukka.

Ele se abaixou bem a tempo, o feitiço sibilando horrivelmente conforme passava por cima e atingia uma árvore à sua direita. Imediatamente, o tronco começou a enegrecer conforme o apodrecimento espalhava-se a partir do ponto de impacto. Pedaços de folhas mortas choveram sobre a clareira, e o som de madeira estalando sinalizou colapso iminente. Lukka saltou para fora do caminho exatamente quando o topo da árvore partiu-se e pousou onde ele estivera parado.

Aquilo poderia ter me matado. Não conseguia decidir de quem ter mais raiva — de quem lançara o feitiço em primeiro lugar ou de quem o redirecionara em sua direção. Decidi-me por ambos.

Lukka lançou seus sentidos pela floresta, enganchando em um urso com as garras afundadas em um arbusto de bagas. Mais além: seus sentidos agarraram os lobos cochilando enquanto esperavam pelo anoitecer, e ele os despertou bruscamente. Mais além ainda, sentiu o fervor estranho de uma criatura que já estivera rastejando em direção à clareira, atraída pela isca da~magia? Lukka franziu o cenho mas manteve o foco. Conectando-se com as feras próximas, convocou cada uma delas para a clareira.

Os agentes Oriq, enquanto isso, espalharam-se para cercar a Guarda-dragão. Um deles lançou uma bola de chama negra crepitante em direção a ela; com um gesto, ela a transformou em pedra, e ela caiu do ar inofensivamente. Outro conjurou o que parecia uma cobra feita de líquido prateado e cintilante; com uma palavra falada, a Guarda-dragão fez com que um imenso torrão de terra e grama — moldado surpreendentemente como um mangusto — se arrancasse do chão antes de saltar sobre a serpente arcana. Até Lukka viu-se impressionado com a facilidade com que ela parecia responder a quaisquer feitiços que pudessem lançar contra ela.

Atrás dela, um lobo saltou da orla das árvores, dentes à mostra selvagemente. Este quase pareceu pegar a mulher de surpresa — mas antes que pudesse alcançar a garganta dela, ela selou a fera em uma bolha esverdeada. Flutuou no ar, debatendo-se impotente contra sua contenção.

"Então é verdade", disse a Guarda-dragão, virando-se para olhar para ele lá na crista. "Tínhamos ouvido falar de um Oriq com suas habilidades."

"Pela última vez, não sou a droga de um Oriq!" rosnou Lukka.

Como para reforçar seu ponto, o urso irrompeu das árvores pela linha de figuras mascaradas, enviando-as em debandada conforme golpeava selvagemente com aquelas imensas garras matadoras. Um deles lançou um malefício por cima do ombro conforme fugia, murchando o braço do animal e fazendo-o rugir de dor.

O som uniu-se a um som muito menos familiar. Lukka olhou para o lado para ver a estranha criatura com quem ele se conectara irromper da orla das árvores. Deslizou pela clareira sobre seis pernas, perturbadoramente rápida. Gavinhas brilhantes acenavam de sua cabeça como se debaixo d'água. Com foco singular, dirigiu-se direto para a Guarda-dragão.

Este era um inimigo que ela parecia levar a sério. Lukka observou-a firmar os pés e contorcer as mãos em uma posição arcana. Ela falou uma palavra, e raízes tão grossas quanto o braço dele irromperam do chão, envolvendo as pernas quitinosas da criatura. Ouviu o estalo de membros conforme ela era arrastada para baixo para dentro da terra, guinchando o tempo todo, até que o solo cobriu a coisa insectoide com uma finalidade terrível.

Lukka estava tão atraído pelo espetáculo que não notou a raiz rastejando ao redor de seu próprio tornozelo até que ela o puxou para dentro do solo até a cintura. Pressionou ambos os lados de si mesmo, tentando libertar-se, mas sem efeito. A Guarda-dragão caminhou calmamente até ele, claramente sem pressa.

"Belo truque. Mas, no fim das contas, você não passa de um mago de fundo de quintal sem treinamento, como qualquer outro Oriq." Ela estendeu uma palma aberta em direção a ele.

Algo passou como um borrão na borda da visão de Lukka. Um segundo depois, a Guarda-dragão gritou. Houve um florescer de calor e uma lavagem brilhante de chama, e ele desviou o rosto, protegendo-o com uma mão. Quando olhou de volta, uma forma familiar estava sobre o corpo imóvel da Guarda-dragão, sua cauda flamejante contraindo-se conforme cheirava sua oponente caída. Quando ficou satisfeita, a criatura semelhante a uma raposa virou-se e olhou para Lukka, seus grandes olhos estranhamente sabidos.

Lukka sustentou o olhar da fera por um momento antes de olhar ao redor da clareira. Os agentes Oriq tinham sumido. Se ele não estivesse lá, não teriam durado mais que um minuto. Nenhuma disciplina, nenhuma estratégia. Apenas um bando de fantasias assustadoras.

Lukka arrastou-se até ficar de pé e examinou o chão próximo. Obviamente, os agentes Oriq haviam deixado um rastro em sua pressa para fugir; ele localizou facilmente os sinais que os magos mascarados deixaram em seu rastro. Se todos que não seguem as regras aqui são Oriq, talvez eu seja um deles afinal.

Estava prestes a começar a seguir o rastro quando um ganido suave o fez parar. Lukka virou-se para encontrar a criatura semelhante a uma raposa sentada na clareira. Ela piscou e inclinou a cabeça para um lado.

Lukka virou-se e balançou a cabeça, resignado. "Tudo bem."

Fechou os olhos e estendeu a mão com sua mente. A mente da raposa pareceu saltar para encontrar a dele, e o elo deslizou suavemente de volta ao lugar. Lukka permitiu-se reviver a sensação de alívio e gratidão que sentira ao vê-la voar contra a guarda.

Abriu os olhos para encontrar a criatura observando-o, a língua pendendo ao lado de sua bocarra manchada de sangue. Ela trotou até o rastro dos Oriq e cheirou uma das pegadas.

"Bem. Se você vai ficar por perto, então precisarei te chamar de algo. Que tal Mila?" Sentiu o anel agradável de reconhecimento na mente dela e assentiu. "Tudo bem, então. Mila será."

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Extus prendeu a respiração conforme despejava o líquido vermelho cintilante na tigela rasa. Ele rodopiou para dentro da poção brilhante, luz arcana brotando em bolhas estranhas e lançando sombras estranhas pelas paredes da caverna. O vermelho clareou até ficar quase branco — então violeta disparou através da mistura e a poção escureceu até ser nada mais que um lodo inerte e escuro. Ele arremessou a tigela pela sala, e ela estilhaçou-se contra a parede, deixando a poção fracassada lambuzada na pedra. Aquele fora o quarto fracasso.

Um movimento captou seu olhar, e Extus olhou em direção à entrada da caverna. Um de seus agentes Oriq estava lá parado, a magia escura fulgurando ao redor de sua máscara sendo um lembrete desagradável.

"Por que está apenas parado aí? Traga-me mais essência de cervidar!"

O agente saltou como se fisicamente atingido e recuou da caverna, desaparecendo no túnel que levava à caverna principal.

Sozinho, Extus desabou sobre sua mesa de trabalho. Olhou os livros abertos diante de si. Nenhum deles fora de qualquer utilidade. Nenhum deles lhe mostrava como atingir o poder de que precisava. Seu olhar vagou pela borda da mesa para o chão, onde os outros componentes do ritual jaziam imóveis. As pernas do caçador de magos ainda estavam presas, mantidas pelo aperto dos agentes Oriq que agora jaziam mortos ao redor dele. Todas ferramentas valiosas, sacrificadas por nada — cada último bit de vida drenado de seus corpos, e não fora o suficiente.

Alguém entrou na câmara atrás dele, e Extus endireitou-se. "O restante dos meus suprimentos está aqui?"

"Houve um atraso. Toparam com uma Guarda-dragão", disse o agente.

Por trás de sua máscara, Extus rangeu os dentes. Reservava um ódio especial pela Guarda-dragão. De todos os intrometidos que se colocavam em seu caminho, eram de longe os piores. Tão arrogantes, tão autoconfiantes. Estava ansioso para mostrar a eles quão deslocada era toda aquela confiança — a Guarda-dragão, e todo o restante da elite de Strixhaven com eles.

Não passava um dia sem que ele pensasse naquele lugar. Ainda conseguia se lembrar de caminhar pelo Salão dos Oráculos. Ainda conseguia ver o espaço onde sua estátua deveria estar. Exatamente à esquerda de~

A Emanação.

Extus olhou para o lodo, agora seco na parede. Se mais poder era o que precisava, aquele emaranhado sobreposto de poder escondido abaixo da escola ofereceria mais do que o suficiente, embora alcançá-lo não fosse tarefa fácil. Aquele nexo de energias ancestrais não era algum livro empoeirado sentado em uma prateleira no Biblioplex; estaria guardado pelas forças mais formidáveis que Strixhaven conseguisse reunir. Constructos, elementais, professores — Guarda-dragão.

"Havia mais alguém lá", disse o agente, tirando Extus de seus pensamentos. "Alguém interferindo."

Ela contou-lhe sobre o homem que parecia capaz de chamar as feras da floresta para cumprirem suas ordens. No momento em que terminou, Extus estava mais do que intrigado.

"Dizem que ele os está seguindo agora", disse o agente. "Devo dizer a eles para se livrarem dele?"

"Não." Extus limpou a garganta. Olhou para os corpos ao lado de sua mesa, depois ergueu o olhar em direção às sombras acima. A luz das tochas brilhava nos exoesqueletos duros dos caçadores de magos dormentes conforme pendiam do teto rochoso. "Deixe-o vir."

Por trás de sua máscara, Extus sorriu.

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Liliana pousou o tomo que estivera estudando e esfregou os olhos. Outro dia de pesquisa infrutífera. Fizera tudo o que conseguia imaginar, e nada funcionaria. Não havia um livro ou pergaminho ou feitiço em Strixhaven que pudesse trazer Gideon de volta. Além disso, com os Oriq em movimento, havia assuntos mais urgentes em mãos. Ninguém mais parecia estar levando-os a sério.

Confrontar o Passado | Arte de: Kieran Yanner

Lançou um olhar pela janela atrás de sua escrivaninha. À distância, os sóis haviam começado sua descida lenta em direção ao horizonte. A luz brilhava nas pedras flutuantes do Arco da Alvorada. Liliana encarou o arco estelar, seu olhar traçando sua curva em direção aos edifícios do campus principal.

Viera para cá para encontrar um jeito de trazer Gideon de volta. Nada mais e nada menos. Mas se não estivesse aqui, não teria visto aquele agente Oriq no Biblioplex. Liliana odiava a ideia de destino. Sempre pensara nele como alguém lhe dizendo o que fazer; apenas outro mestre sem coração. Gideon, porém, fora um grande crente em estar no lugar certo na hora certa. Talvez fosse hora de ela aprender uma lição com ele. Não tarde demais, espero.

Havia apenas um limite para o que ela podia fazer sozinha, porém. Mesmo que os estudantes de magia passassem seu tempo livre explodindo uns aos outros pelo campus, não estavam preparados para o que estava vindo. Ela precisava de ajuda. Precisava de poder.

Um lampejo de ouro fora de sua janela captou seu olhar. Liliana inclinou-se para frente.

Um grupo de jovens estudantes caminhava por sua janela. Uma delas se destacava, o cabelo loiro brilhando na luz fraca conforme caía sobre os ombros de seu uniforme Prismari. Rowan Kenrith mantinha a atenção de seus amigos Murchasabugo conforme gesticulava selvagemente, sua espada batendo contra sua perna enquanto liderava o grupo mais adiante pela passarela e fora de vista.

Liliana sentou-se de volta em sua cadeira. Talvez seja hora de levar meu papel de Professora um pouco mais a sério.

07/04/2021 | Por Adana Washington

Episódio 3: Atividades Extracurriculares

Olhando pela janela acima de sua escrivaninha, Will conseguia ver os ventos de outono agitando as folhas caídas pelo pátio. Estudantes no azul e vermelho da Prismari passavam, rindo e conversando, bebericando bebidas quentes. Quando seus olhos finalmente voltaram para o trabalho sobre Ética da Manipulação Etérea, as perguntas ainda não haviam se completado por si mesmas. Ele suspirou e pegou seu lápis novamente no exato momento em que a porta de seu dormitório rangeu ao abrir. Rowan entrou, seu cabelo bagunçado pelo vento, sorrindo por sabe-se lá o quê.

Boas-vindas Explosivas | Arte de: Mathias Kollros

"Oi", disse Will, já irritado.

"Ah! Oi."

"Onde você esteve?"

"Com Auvernine e Plink", Rowan respondeu, seu sorriso partindo.

"Suas amigas Murchasabugo?"

"Isso mesmo." Ela cruzou o quarto em direção ao armário deles e começou a vasculhá-lo. Eles compartilhavam aquele armário, claro, mas a metade de Rowan era pouco melhor que um ninho de pássaro de vestimentas sortidas.

Will levantou-se da escrivaninha. "Já terminou seu trabalho de Ética da Manipulação Etérea?"

"Sim", disse Rowan, jogando fora pedaços de seu uniforme de inverno.

"E você está pronta para o fim da semana? Dizem que os exames da Professora Onyx são notoriamente difíceis."

Rowan mexeu em uma fivela. "Os o quê dela?"

"O exame. Sabe, o que é em dois dias?"

"Ah. Certo."

Will jogou as mãos para o alto. "Rowan, você não está levando nada disso a sério! É um privilégio estarmos aqui. Você não entende isso?"

Ela girou para encará-lo, raiva clara em seus olhos. "Ah, você acha que sou burra demais para entender o grande significado de tudo isso, é isso?"

"Rowan, eu não disse—"

"Acho que há palestrantes de sobra em Strixhaven sem você se juntar a eles!"

Não foram as palavras ou a raiva súbita e surpreendente que fizeram Will recuar — foram as bobinas de eletricidade saltando entre fios de cabelo soltos no rosto de sua irmã.

"Rowan", foi tudo o que ele conseguiu dizer.

Ele a observou passar da raiva para a confusão, depois para o embaraço. Ela contraiu as feições e as faíscas sumiram no nada.

"Você está bem?" ele perguntou.

"Estou bem", disse ela amargamente. Antes que ele pudesse dizer outra palavra, ela agarrou o manto de seu uniforme de inverno e saiu furiosa pela porta.

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Dois dias depois, ele não estava nem um pouco mais perto de completar o trabalho da Professora Onyx, apesar de ter se mudado de seu quarto para uma das áreas de estudo comunais do Biblioplex. Will largou-se em sua cadeira, massageando os olhos com as palmas. "Se alguém simplesmente me transformasse em um tritão ou algo assim, provavelmente pouparia a todos nós um bocado de trabalho."

Do outro lado da mesa, Quint olhou para cima de sua própria leitura, as mãos envoltas em uma xícara de chá, seu longo focinho farejando com deleite o vapor que subia. "É sobre o vínculo etéreo?"

Will assentiu fracamente. "Odeio o éter. Odeio vínculos. Odeio a ideia toda."

"Conceito difícil", concordou Quint. "Já tentou consultar o de Il-Samar—"

Will apenas ergueu o livro que estava lendo para que seu amigo pudesse ver o título.

"Tratado sobre Manipulação Corpórea. Hum."

"Obrigado por tentar", disse Will.

"Bem, tenho certeza de que algo vai te ocorrer", disse Quint alegremente.

Por um tempo, o único som entre eles foi o virar de páginas e o bebericar ocasional de chá. "Meu Deus", Quint disse, após algum tempo ter passado. "Isto é — espere, já vi isto antes." Ele pegou outro livro, folheando até encontrar a página que queria, e traçou uma linha de texto, comparando os dois tomos à sua frente. "Eu sabia! Arthelas, o Magnífico, e Bairod, o Busca-Horizonte, eram a mesma pessoa."

Will assentiu absorto, ainda preso no enigma insolúvel da Professora Onyx.

Quint soltou uma risada sem fôlego. "Simplesmente não há como confundir este sigilo arcano! Isto é astucioso — significa que as histórias dos Reinos de Baixo têm que ser reescritas do zero, ou ao menos reordenadas para explicar o — opa!"

Will saltou conforme o chá de Quint respingou de sua xícara e pousou nos livros à frente dele, espalhando-se pelo pergaminho antigo. Seus olhos se arregalaram. "O que vamos fazer? Isabough vai nos meter no Brejo da Detenção por um mês!"

"Não se ela não vir." Quint pousou sua xícara ao lado das páginas manchadas.

"Você não pode levantá-lo", Will disse. "Vai levar a tinta junto."

"Verdade, mas se eu chamar semelhante por semelhante—"

O dedo de Quint começou a brilhar. Ele o mergulhou em sua xícara, então tocou o livro. O chá derramado começou a subir, pequenas gotículas flutuando da página para cair de volta na xícara de Quint. Ele olhou para cima com um sorriso. "É um dos feitiços que usamos para nos ajudar a encontrar peças espalhadas durante nossas escavações."

Quint tomou outro gole de seu chá recuperado enquanto Will dava um risinho e passava a mão pelas páginas, achando-as lisas e secas ao toque. "Impressionante."

Quint apenas deu de ombros. "Sempre existe um feitiço."

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Rowan olhou ao redor do Fim do Arco da mesa que compartilhava com Auvernine e Plink. Vinha se encontrando com as bruxas Murchasabugo ali após as aulas há uma semana, e o lugar estava rapidamente se tornando um de seus favoritos no campus. Tomou um gole da poção efervescente, satisfeita com o gosto frutado e ácido.

"Ouviu sobre o duelo de ontem? O constructo de exame de Dinsley foi destruído", Plink disse entre uma mordida de comida. "Aquela maga Platinapena bem que poderia tê-lo incendiado. Teria doído menos."

"Não se ela fizesse direito", disse Rowan, sorrindo.

"Não entendo por que não podem simplesmente esperar até a partida de Torre dos Magos. Prismari, Platinapena — eles podem se explodir o quanto quiserem, então. Todos esses duelos são apenas posturas inúteis", disse Auvernine.

As outras garotas riram e concordaram, mas o sorriso de Rowan escorregou. Um duelo pareceu exatamente a coisa certa para desopilar. Desde que os reitores haviam interrompido o duelo em que ela e Will tropeçaram no primeiro dia em Strixhaven, ela estivera ansiosa por outra chance de se soltar. Aquela fora a única parte que valera a pena em vir para cá até agora — bem, aquela e suas amigas da Murchasabugo. Will, claro, parecia estar tendo o melhor momento de sua vida.

Como se ela mesma o tivesse invocado, Will passou pela porta. Ele varreu o salão até encontrar o olhar dela, então dirigiu-se direto para a mesa. Rowan suspirou e debruçou-se sobre sua poção. "Ah, ótimo."

"O quê?" Plink olhou para cima exatamente quando Will chegou à mesa. "Ah, é o seu irmão! Olá, Will."

Will assentiu para ela antes de se voltar para Rowan. "A Professora Onyx postou os resultados do exame."

Rowan deu de ombros. "E daí?"

"Você mal passou, Rowan", Will disse, a voz dura. "Achei que tivesse dito que não precisava de ajuda nenhuma."

"Eu passei, não passei?" Rowan balançou a cabeça. "Não que seja da sua conta."

"Tivemos semanas para nos preparar." Will franziu o cenho. "Você deveria saber essa matéria a esta altura. E eu poderia ter te ajudado com o resto, se você não estivesse tão ocupada correndo por aí com suas amigas. Elas sequer sabem sobre como seus poderes—"

"Lá fora. Agora", disse Rowan, interrompendo-o.

Will lançou um olhar para as bruxas Murchasabugo, então girou nos calcanhares e marchou em direção à porta. Quando o alcançou, Rowan agarrou o braço do irmão. "Onde você pensa que está para me envergonhar desse jeito?"

"Então elas não sabem sobre sua magia disparando toda vez que você fica brava." Will balançou a cabeça. "Rowan, estamos aqui para aprender um melhor controle de nossos poderes, não para piorar! E definitivamente não estamos aqui apenas para nos divertir. Somos Kenriths! Isso ainda significa algo aqui."

"Na verdade, Will, não significa", disse Rowan. "Ninguém aqui sequer ouviu falar de Eldraine. Não estou aqui para representar nada nem ninguém a não ser a mim mesma!"

Will mofou. "E você diz que não quer ser como nossa mãe biológica."

Os olhos de Rowan tornaram-se duros como pedra. "O que você disse?"

Will sentiu os pelos de seus braços ficarem em pé enquanto uma carga elétrica percorria o ar ao redor dele. "Calma", disse ele cuidadosamente. "Eu não quis dizer—"

Rowan deu um passo em direção ao irmão. "Não, Will. Diga de novo. Diga como sou parecida com a nossa mãe."

A porta do Fim do Arco abriu, e Auvernine e Plink correram em direção a eles com largos sorrisos. "Descobrimos a conversão! Vamos ao Widdershins buscar suprimentos."

Rowan olhou para elas e estampou um sorriso amigável no rosto. "Esperem aí. Eu vou com vocês."

As bruxas Murchasabugo assentiram e caíram em uma troca frenética conforme partiam. Quando estavam fora do alcance dos ouvidos, Rowan voltou-se para Will, o sorriso sumido. "Deixe-me em paz, Will. Você não pode me dizer o que fazer."

Will fez uma careta. "Eu—"

Antes que pudesse terminar, Rowan passou por ele e foi alcançar as amigas.

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Apesar de compartilharem um quarto, ele mal viu Rowan depois disso. Todo dia, no momento em que Will acordava, sua irmã já teria ido embora, para fazer o que quer que fizesse além de estudar. No momento em que a tão aguardada partida de Torre dos Magos entre os times Prismari e Platinapena chegou, ele não falava com ela há semanas. Conforme os jogadores corriam pelo campo, moldando os elementos nos caminhos uns dos outros, Will deu-se conta de que se perguntava como ela estaria.

Ao seu lado, Quint arquejou e saltou de seu assento. "Irreal! Wickel está usando o quarto conceito de terra lá fora, no meio de todo aquele caos! Ele está fazendo parecer fácil!"

Will observou junto com Quint enquanto o jogador Prismari deslocava grandes montes de terra e grama em formações circulares, empurrando-os no caminho dos oponentes e interceptando feitiços. No fundo do campo, uma jogadora Platinapena subitamente girou e saltou no ar, um arco de chama negra propelindo-a para cima conforme ela pegava o mascote flutuante de seu time, um tintim mutante e semelhante a uma bolha. Gritos de alegria irromperam nas arquibancadas ao redor deles. Will voltou-se para Quint. "E aquele ali?"

Quint franziu o cenho. "Não tenho certeza. Talvez uma variação da Combustão de Arnault?"

Pelo campo, outra onda de feitiços Platinapena enviou a multidão a um frenesi. Memórias do duelo que presenciaram em seu primeiro dia flutuaram pela mente de Will, com pensamentos sobre Rowan inevitavelmente vindo atrás. Ouvira que ela se envolvera em alguns duelos pelo campus desde a briga no Fim do Arco.

Subitamente, Quint ficou tenso ao seu lado, inclinando-se para frente em seu assento.

"Não"—Quint sentou-se ainda mais reto, os olhos colados no campo—"de jeito nenhum isso vai funcionar."

Will seguiu o olhar dele para onde um jogador Prismari avançava em direção ao time oposto, investindo direto contra o jogador que segurava o mascote.

Toda a multidão observou conforme o jogador Prismari lançou uma mão envolta em um círculo de luz carmesim. O tintim começou a brilhar, um halo de luz vermelha aparecendo sobre sua cabeça negra mutante. Subitamente, ele inclinou-se e cravou duas longas presas líquidas na mão da jogadora Platinapena.

"Ai!" ela gritou, soltando o tintim — bem a tempo de o jogador Prismari pegá-lo.

A arena inteira explodiu em aplausos.

Bâmula do Time | Arte de: Anna Fehr

"Interceptação de mascote! Brilhante!" Quint agarrou Will e o envolveu em um abraço enquanto ambos celebravam com o restante da multidão.

"Então ele o hipnotizou?" disse Will, encantado mas confuso.

"Ele tomou o controle dele completamente. É um truque simples, entende — só funciona em criaturas invocadas — mas uau!"

Will virou-se, olhando para os estudantes e professores e até alguns aldeões nas arquibancadas. Absorveu a animação deles, um sorriso cruzando seu rosto — mas ele murchou conforme avistou Rowan no outro lado do corredor, encarando-o diretamente.

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"Vamos sair daqui", disse Rowan.

"Mas o jogo não term—"

Plink resmungou conforme Auvernine a cutucou com o cotovelo para silenciá-la. Ela acenou com a cabeça em direção ao outro lado do corredor, e Plink seguiu o olhar dela. "Ah."

"Você deveria ao menos dizer oi", disse Auvernine.

"Ah, deveria, é?"

Plink deu um tapinha no braço dela. "Ele é seu irmão. Isso não é algo para se desconsiderar."

Rowan fez careta, mas sua determinação ruiu sob a atenção de ambas as suas amigas. "Tá bom."

Ela passou pelos outros sentados em sua fileira e entrou no corredor. Um momento depois, Will a encontrou lá. Ambos ficaram ali parados por um momento, desajeitados, sem saber o que dizer.

"Então", disse Will. "Como estão as coisas?"

"Sabe como é", disse Rowan. "Bem."

"Ainda andando com suas amigas Murchasabugo?" disse Will, apontando para trás dela.

O lábio de Rowan retesou-se. "Isto não é um problema, é?"

"Não. Talvez você apenas tenha escolhido a faculdade errada, só isso."

"O que isso quer dizer?"

"Bem, você claramente não tem interesse em aprender de verdade. E elas são magas da natureza — não é como se elas se importassem que você não consegue controlar seus poderes."

"Eu consigo controlá-los", disse Rowan, de cara amarrada agora. "Está me vendo, agora mesmo, não te explodindo com relâmpagos?"

"Ah, então você não brigou o suficiente pelo campus estas últimas semanas? Então o que exatamente você tem feito, porque sei que 'estudar' não entrou na lista!" Will sabia que não deveria provocá-la assim, mas não conseguia se conter — estava bravo com ela por excluí-lo, por deixá-lo por conta própria nestas últimas semanas. "Se tudo o que você queria era lutar, quem dera você tivesse ficado em Kylem!"

Ele não queria dizer aquilo, mas não importava. Viu, pelos fios de cabelo que começaram a ficar em pé na cabeça de Rowan, tremendo e estalando com energia, que tinha ido longe demais. "Ah, vou te mostrar o que andei aprendendo."

Will sentiu a faísca saltar da mão estendida dela e passar por todo o seu corpo em um instante. Seus músculos deram solavancos e travaram, e ele tombou de lado, colapsando.

"Quem dera eu tivesse ficado em Kylem? Bem~quem dera você tivesse ficado morto!" gritou Rowan.

"Ei!" ele ouviu Quint gritar, em algum lugar atrás dele.

Will mal conseguia mover os braços — mas conseguia alcançar com seus outros sentidos. Rowan arquejou conforme uma crosta de geada subitamente solidificou-se ao redor de suas botas, congelando seus pés no lugar.

Ele murmurou sob a respiração, fumaça saindo ao redor de seu rosto. Rowan estendeu outra mão, estalando com energia, mas antes que pudesse descarregá-la, uma camada de gelo condensou-se ao redor do punho dela. Ela soltou um grito pelo frio e dor repentinos.

"Parem!"

Em um instante, a multidão silenciou. Rowan olhou em direção aos estudantes ao redor, apenas para ver Auvernine e Plink recuarem. Mais estudantes moveram-se, abrindo caminho conforme uma sombra caiu sobre Will. Ele cerrou os olhos enquanto olhora para cima, encontrando o olhar da Professora Onyx.

"Todos vocês retornarão aos seus assentos", disse ela em uma voz de comando. "Vocês dois, porém, virão comigo."

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Will e Rowan seguiram a Professora Onyx pelos corredores escuros de um dos edifícios Murchasabugo. As sombras aqui eram profundas demais para distinguir detalhes, mas algo orgânico crescia da pedra unida do corredor, e um perfume em algum lugar entre floral e podridão os cercava por todos os lados.

Segundo todos os relatos, não se queria acabar do lado errado da Professora Onyx. Todo tipo de histórias de terror sobre ela passavam pelos dormitórios Prismari e, embora Will não achasse provável que acabariam como incubadoras para algum fungo carnívoro morto-vivo, não estava pronto para descartar completamente a ideia. Pior, e se fossem expulsos?

Eles a seguiram para o escritório dela. Com um gesto, a Professora Onyx acendeu algumas velas, que queimavam com chama roxa. "O que foi tudo aquilo?"

Aviso da Professora | Arte de: Kieran Yanner

"Nada", Rowan disse, adotando um tom casual. "Apenas dois irmãos desabafando."

"Até onde eu sei, lançar raios de relâmpago é mais que mera rivalidade entre irmãos", disse a professora. Ela fuzilou Rowan com o olhar. "Discórdia entre irmão e irmã é um tipo especial de dor. E exige um tipo especial de tolo para fomentá-la."

Will viu Rowan eriçar-se com o insulto. Limpou a garganta. "A culpa é minha. Eu comecei a briga."

Sentiu os olhos de Rowan sobre ele mas manteve o olhar para frente.

A Professora Onyx olhou entre eles, então balançou a cabeça. Sentou-se em sua cadeira. Por um momento, Will poderia jurar que ela parecia muito cansada. "Existem aqueles que desejam a este lugar — e a todos que o chamam de lar — grande mal. Se estivermos lutando entre nós, eles acharão essa tarefa muito mais fácil."

"Professora", disse Will. "De quem exatamente a senhora está falando?"

Ela o observou por um momento, prendendo-o com aqueles olhos violetas. "Vocês ouviram falar dos Oriq?"

"Perdedores que não conseguiram passar no exame de admissão", disse Rowan, antes que Will pudesse responder. "Ou que foram reprovados. Certo?"

A Professora Onyx deu um risinho, mas soou longe de ser alegre para Will. "Essa é uma maneira de colocar a coisa. Mas subestimá-los seria tolice. Por mais que pensemos o contrário, Strixhaven não tem o monopólio do poder neste plano."

Aquilo fez Will sentar-se reto em seu assento. Neste plano? Então a Professora Onyx é~

Mas tudo o que ela fez foi sorrir.

Rowan deve ter deixado passar. Ela ainda remoía o comentário sobre os Oriq. "Mas se eles estivessem realmente planejando algum tipo de ataque, os professores fariam algo a respeito. Não fariam?"

"Talvez", disse a Professora Onyx. "E talvez não. A pergunta a considerar é: o que você faria a respeito?"

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O ar fresco atingiu os pulmões de Will, frio e límpido, enquanto seguia Rowan para fora do edifício Murchasabugo. Sua irmã já estava na metade do caminho, dirigida ao café. "Depois."

"O quê? Não ouviu o que a professora acabou de dizer? Temos que fazer algo!"

"Tipo o quê?" Rowan perguntou, virando-se. "A faculdade é deles. Deixe que eles resolvam."

Will balançou a cabeça. "E se isso não for suficiente? Há apenas um número limitado de professores aqui, Rowan. E não podemos contar com eles serem capazes de defender a todos nós. Tem que haver uma maneira de podermos nos proteger — proteger os outros estudantes."

"Pela última vez, Will, isto não é Eldraine. Não somos realeza aqui. Não podemos simplesmente", ela acenou as mãos, "ordenar que os problemas sumam!"

"Ser realeza não impediu que fôssemos quase mortos em casa, também." Will balançou a cabeça. "Ao menos aqui temos o Biblioplex. Todo aquele conhecimento — tem que haver algo que nos ajude. Não quero ser impotente de novo."

Will não deixou passar o estremecimento que percorreu Rowan. Ela aprumou os ombros e cerrou a mandíbula. Ela devia estar lembrando de Oko e de nosso pai. Mesmo agora, não era algo que nenhum dos dois pudesse esquecer completamente.

Rowan olhou de volta para ele, por cima do ombro. "Você escave todos os livros velhos que quiser, Will. Vou preparar o meu próprio caminho para o que quer que esteja vindo."

Will suspirou conforme Rowan girou nos calcanhares e partiu. Por conta própria, então. De novo.

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Kasmina sentava-se imóvel entre as árvores fora do campus enquanto sua coruja lhe mostrava um pequeno pátio logo fora do Biblioplex. Abaixo, conseguia ver a garota Kenrith enviando relâmpagos bifurcados pelo gramado. Por perto, dois estudantes Murchasabugo observavam. Um aplaudiu; a outra disse algo que ela não conseguiu distinguir.

A visão do pátio borrou nas bordas, desvanecendo em uma paisagem vastamente diferente. Kasmina mudou seu foco para uma coruja diferente. Os gêmeos desapareceram conforme sombras e pedra vermelha preenchiam sua visão em vez disso.

Observou conforme Lukka permanecia com um agente Oriq mascarado. O agente moveu-se, puxando algo debaixo de seu manto e estendendo para o planeswalker. A coruja de Kasmina virou a cabeça para ter uma visão melhor.

Era uma máscara de prata, moldada como um crânio humano.

Lukka balançou a cabeça. Seu rosto mudou, sua pele escurecendo e suas orelhas esticando-se em pontas conforme ele assumia as marcações de sua companheira raposa. Observou o agente Oriq partir — então, subitamente, virou-se para encarar diretamente a coruja, fazendo Kasmina recuar por reflexo.

Enviou um comando mental para o pássaro, e ele levantou voo, subindo e saindo das cavernas Oriq. Já vira mais que o suficiente.

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Rowan sentava-se no quarto de Auvernine, observando absorta conforme a garota despejava e mexia uma poção brilhante em sua escrivaninha. Estava exausta; estivera treinando por semanas, trabalhando nas melhores maneiras de canalizar o poder que parecia estar fluindo através dela dia e noite agora. Apesar de tudo aquilo, porém, fizera pouco progresso.

Um guincho agudo arrancou Rowan de seus pensamentos. Franziu o cenho conforme Auvernine erguia uma criatura semelhante a um verme que se contorcia de um frasco de vidro. "O que é isso?"

O foco de Auvernine permaneceu na criatura conforme a colocava em um prato de metal. "Salgueiro-comilão comum. Levei uma hora para encontrar um deste tamanho."

"O que você está—"

As palavras de Rowan morreram conforme Auvernine começou a entoar, suas mãos mantidas sobre a praga.

A criatura ficou imóvel, seus grupos de olhinhos pretos e redondos arregalados. Conforme a voz de Auvernine preenchia o quarto, o verme começou a subir do prato, retorcendo-se e tremendo conforme energia cintilante subia de seu corpo rechonchudo.

A mão de Rowan foi à boca enquanto observava a força vital da criatura fluir pelo ar e para dentro da poção de sua amiga. O líquido brilhou e borbulhou, a cor desvanecendo de um roxo profundo para um vermelho vibrante. Conforme Auvernine terminava o feitiço, o salgueiro-comilão caiu no prato, seu corpo arfando conforme lutava para respirar. Rowan fez uma careta. "Isso é simplesmente sinistro."

"Um pouco", Auvernine disse com um aceno de cabeça. Pegou sua poção e a inspecionou. "A poção exige mais poder do que consigo obter puramente da herbologia. Mas se eu conseguir acertar, isto poderá ajudar muita gente. Alguns sacrifícios são necessários para o bem maior, você não acha?"

Rowan apenas deu de ombros, seu olhar voltando para a praga. Memórias desagradáveis de sua mãe brotaram à superfície; ela as suprimiu imediatamente. Sacrifícios. Certo.

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Rowan encontrou Will no Biblioplex, cercado por uma pilha de tomos e pergaminhos. Will alcançou outro livro, folheando suas páginas enquanto murmurava sob a respiração.

"Isto não é exatamente o que eu chamaria de treinamento."

Ele olhou para ela, claramente surpreso. Após um momento, sua atenção caiu de volta para os textos à sua frente. "Se os Oriq são tão perigosos quanto as pessoas dizem que são, então os feitiços que conhecemos podem não ser suficientes", Will disse, balançando a cabeça. "Deveríamos focar em adicionar mais ao nosso arsenal."

"Ou poderíamos encontrar uma maneira de colocar mais poder por trás do que já temos."

Mas Will apenas virou outra página, seus olhos escaneando o texto.

Ignorando o desdém dele, Rowan olhou ao redor. Do outro lado da sala, ao lado de um estudante Prismari estudando diligentemente, flutuava uma criatura com aparência de água-viva — um elemental, um constructo de água encantada atravessado por veias brilhantes de pura energia arcana. Rowan engoliu parte do desgosto que sentira com o que Auvernine fizera. É apenas um feitiço, como qualquer outro.

"Rowan, o que você está fazendo?" Will perguntou, finalmente olhando para cima de seus livros.

Ela o calou; seu foco estreitou-se no elemental. Eletricidade estalou e saltou por seus dedos conforme ela puxava as veias de poder para fora de sua superfície aquosa, em sua direção. Ele colapsou, finalmente, em uma poça no chão de pedra. A energia acumulou-se em sua palma, faiscando e revolvendo-se, antes de subitamente explodir em um surto de relâmpago que deixou seu cabelo em pé. O estudante Prismari quase caiu da cadeira, recolhendo seus livros e fuzilando Rowan com o olhar conforme fugia.

"Rowan!" siseou Will. "Você não pode simplesmente — puxar a magia de onde bem entender! Além disso, não tivemos nenhuma aula sobre teoria de sifonagem! Você vai se machucar, ou a outra pessoa."

"Will, os Oriq não estão preocupados em seguir currículos, e não vão seguir as diretrizes do campus", disse Rowan. Pela primeira vez em o que parecia uma eternidade, ela falava de forma calma e equilibrada. "Eles vão fazer o que for preciso. Isso significa que temos que fazer o mesmo."

"Ter estes poderes é uma responsabilidade, Rowan. Isso faz parte do que estar aqui significa. Senão poderíamos usá-los para"—Will lutou para colocar seus medos em palavras—"para propósitos egoístas. Para propósitos sombrios. Você não aprendeu nada com a nossa mãe, ou com o Oko?"

"Aprendi", ela rebateu. "Aprendi que quando você não tem medo de quebrar as regras, consegue fazer um bocado de coisas. Boa sorte com seus livros." Ela o deixou lá. Quando um bibliotecário Sapientia passou alguns minutos depois para perguntar sobre o raio de relâmpago que iluminara brevemente as estantes, Will não teve muita resposta.

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Kasmina sentiu sua coruja pousar no topo de seu cajado, mas seu olhar estava fixo no horizonte. Uma figura apareceu na borda do pátio, silhuetada pela luz dos sóis que se punham. Ela reconheceu o porte de seus ombros — a maneira rígida e militar com que ele se portava. Reconheceu a raposa que estava a seus pés, também. "É uma pena ver um homem como você caído tão baixo. O que sua unidade pensaria de seu antigo líder tornando-se um peão no esquema de outra pessoa?"

"Não pensariam muito, imagino", disse Lukka. "Considerando que metade está debaixo da terra e a outra metade me quer morto. Há quanto tempo exatamente você e seus pássaros falsos andam me vigiando?"

"Tempo suficiente para saber que este caminho só levará a mais dor", Kasmina disse. "Para você e muitos outros. Não vou deixar você fazer isso, Lukka." Sua voz, naquele momento, não era sábia nem benevolente — era gélida.

"Cansei de me dizerem como viver", rosnou ele. "E não sou peão de ninguém. Os magos que comandam esta escola acham que são melhores que qualquer outro — e a droga do mundo inteiro apenas assente e concorda com isso. Vou mostrar a eles que estão errados."

"Eu esperava que você pudesse ainda tornar-se um aliado. Que pudesse usar esses seus dons para o bem comum." Kasmina suspirou. "Mas vejo que te superestimei."

Antes que Lukka pudesse responder, a coruja de Kasmina disparou de seu ombro, lançando-se ao ar. Com uma batida de asas, o ar ao redor da raposa de Lukka subitamente condensou-se em uma esfera revolta. Conforme o vento girava e espiralava ao redor do animal, Kasmina enviou uma foice de ar pressurizado direto contra o peito de Lukka.

Ele se abaixou por pouco sob a lâmina invisível, e ela passou direto por ele, cortando um agrupamento de árvores. Lukka olhou para Mila, seu rosto tornando-se mais afilado e magro conforme tentava conectar-se com ela, mas as feições animalescas sumiam quase assim que surgiam.

Com um golpe de braço, Kasmina enviou outra rajada de vento em direção a ele, esta estreita e pontiaguda como uma lança. Lukka rolou para um lado, então levantou-se desembainhando sua lâmina.

Ele investiu contra Kasmina com velocidade bestial. Ela ergueu seu cajado bem a tempo de aparar a espada no cabo de madeira. Seus olhos iluminaram-se em prata, mas antes que pudesse liberar outro feitiço, Lukka girou para longe, arrancando sua lâmina e enviando-a tropeçando para frente.

"Estes dragões", Lukka disse, a voz um rosnado. "Aquela Guarda-dragão. Eles detêm o poder sobre este povo há tempo demais. Eles os tornaram temerosos de cada sombra, de cada rosto desconhecido. O que acontece quando não forem apenas os Oriq que estiverem caçando — quando for qualquer um que pratique magia de um jeito que eles não gostem?"

Kasmina virou-se e lançou a mão conforme Lukka golpeou novamente. Uma parede de luz azul subiu entre eles, curvando-se ao redor dela. "Você não consegue ver além da sua própria dor, Lukka. Você acha que Extus vai mudar tudo isso? Acha que ele vai compartilhar o poder com você? Ele só luta por si mesmo."

Lukka golpeou sua arma contra a parede de luz, o rosto contorcido de raiva. "Francamente? Não dou a mínima para o que ele fizer depois que tudo isto estiver reduzido a cinzas."

Teste de Talentos | Arte de: Lie Setiawan

Ela deu um passo à frente, seu escudo forçando Lukka para trás. Ele golpeou com sua lâmina repetidas vezes, tentando abrir caminho com força bruta, até que Kasmina girou a mão. A luz mudou, feixes disparando e pegando Lukka no estômago. Ele voou para trás e pousou ao lado de sua raposa presa. Antes que pudesse se levantar, Kasmina estava lá, a ponta de seu cajado mantida logo abaixo do queixo dele.

"Renda-se", disse ela. "Acabou."

O rosnado de Lukka irrompeu em uma risada selvagem. "Acabou? Oh, não — está apenas começando."

Kasmina pausou. No calor do combate, parara de acompanhar suas corujas. O que via agora, o que rastejara até a periferia imediata da escola, enviou-lhe choques gelados.

"Não vim aqui para te vencer", disse Lukka, sorrindo presunçosamente. "Não sou burro o suficiente para acreditar que conseguiria fazer isso ainda. Mas eles com certeza conseguem."

O chão tremeu sob eles. O horizonte começou a rastejar e mudar com movimento conforme um enxame de formas quitinosas e ruidosas deslizava entre as árvores. De seus corpos segmentados subia um brilho roxo doentio — era como se a floresta inteira ardesse com fogo não natural.

"Caçadores de magos", sussurrou Kasmina. "O que você fez?"

"Fiz? Eu te disse", Lukka virou a cabeça e cuspiu sangue da boca. Ele sorriu, mostrando seus dentes manchados. "Estamos apenas começando."

O brilho dos caçadores de magos estava ainda mais forte agora conforme se fechavam ao redor. Kasmina fechou os olhos e concentrou-se em outro plano, outro lugar; uma nuvem de penas brancas chicoteou sobre ela, e ela se fora.

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Lukka levantou-se e limpou a poeira. Passos leves aproximaram-se, e logo Extus estava ao seu lado.

"Tem certeza de que está no controle?" perguntou o líder Oriq. "Nenhum Oriq jamais tentou controlar tantos de uma vez."

Lukka assentiu. "Não sou como seus outros magos."

Houve movimento atrás dele: o restante dos Oriq, parando na borda do pátio. Os agentes estavam prontos, aguardando o comando de Extus. Extus aprumou os ombros e assentiu. "Comecem o ataque."

31/03/2021 | Por Reinhardt Suarez

As Correntes que Prendem

"Não sei por que estou aqui", disse Maraff, tomando outro gole de chá. "Não preciso de tutoria, e definitivamente não de outro estudante — sem ofensa."

"Nenhuma", disse Dina, seus olhos fixos nas notas deixadas pelo Professor Tivash: Apesar de ser um candidato à Quandrix, Maraff mostra uma afinidade incomum com a invocação. Pena que sua má atitude o torne propenso a erros. Ela olhou para cima ao som da xícara vazia de Maraff batendo no pires e alcançou seu bule, aquecendo-se nas brasas minguantes do fogo. Normalmente, fogueiras não seriam possíveis no pântano de Sedgemoor devido à umidade, mas a Professora Willowdusk encantara este espaço para ser um escritório improvisado para os deveres de tutora de Dina. Agradava a Dina. Ela preferia o zumbido e o borbulhar do pântano a um salão de aulas enfadonho em Widdershins.

Dina, Infusora de Almas | Arte de: Chris Rahn

"Mais chá?" Dina ofereceu.

Maraff estendeu sua xícara. "Obrigado", disse ele, tomando um gole generoso depois de cheia. "É possível que o Professor Tivash tenha uma vendeta contra mim. Sou definitivamente o melhor aluno dele. Por que mais ele não me colocou em suas classes avançadas? Lidar com outros calouros é como estar em uma sala cheia de bebês."

Precisa de foco, dizia a nota final de Tivash. Requer motivação adequada para maximizar o potencial.

Dina encheu a xícara de Maraff novamente.

"Você tem um talento real como conselheira", disse Maraff, bebendo ansiosamente a infusão de âmbar. "A magia não é para todos, e meus instintos aguçados me dizem que você faria melhor seguindo outros caminhos."

Dina completou a xícara de Maraff uma última vez.

Tudo bem, pensou ela.

Aproximadamente três minutos e meio depois, Maraff estava no chão não mostrando sinais de sua bravata anterior. "Estou morrendo!" ele lamentava.

"Não seja bobo", disse Dina, parada sobre ele enquanto ele buscava ingredientes. "Aranhas saindo pelas suas orelhas mal é algo mortal." Ela pensou por um segundo. "A menos que sejam venenosas. Elas são venenosas?"

"Não é você quem deveria saber?!" Maraff guinchou.

"Tenho quase certeza de que não são", disse ela. "Quase~de qualquer forma, você se lembra do que está procurando?"

"Losna e raiz de samambaia lanny?"

"Muito bem!" disse Dina. Ela recuou para dar algum espaço a Maraff. Apesar de seus soluços infantis, ela tinha certeza de que, no mínimo, ele não esqueceria o antídoto para o feitiço de attercop tão cedo. "Enquanto você faz isso, vou agendar nossa próxima sessão. Próxima semana, mesmo horário?"

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Dina passava as mãos pelas paredes lisas do Salão de Widdershins enquanto caminhava por seus corredores. O salão principal de cada faculdade de Strixhaven esforçava-se para personificar a missão da faculdade, e nisto, Widdershins era um sucesso total. Ao menos, é nisso que a maioria dos estudantes da Faculdade Murchasabugo era levada a acreditar. Vida e morte. Crescimento, apodrecimento e renascimento. Dina imaginava quantos estudantes Murchasabugo sabiam que as árvores que abrigavam suas salas de aula e dormitórios não eram apenas vivas, mas também ouvintes.

Dina entrou no laboratório onde os reitores da Faculdade Murchasabugo, Professores Lisette e Valentin, encaravam um cadinho sendo aquecido por uma chama azul flutuante.

"Não está funcionando como você disse que funcionaria", cuspiu Valentin. Ele girou em seu bufo característico e caminhou para o fundo da sala.

"Dê tempo ao tempo", disse Lisette. Sua voz fluía lentamente, como mel.

Valentin estalou as pontas afiadas de seus dedos. "Quanto tempo se espera que eu dê?"

"Tempo suficiente — ah, olá, Dina."

"Minha sessão com Maraff terminou. O Professor Tivash está?"

"Reunião intercolegial", disse Lisette. "Por que ele insiste em frequentar aquelas reuniões está além da minha compreensão."

Valentin girou nos calcanhares, voltou ao cadinho e resmungou após olhar para dentro dele novamente. Olhou de soslaio para Dina mas não se dirigiu a ela. "Tivash gosta dos refrescos, Lisette. Bolos de lima, tortas de sabugueiro."

"Tenho certeza de que Gyome pode providenciar para fazer qualquer coisa que ele queira na cozinha."

"Sim, mas veja bem, Tivash adora ser paparicado", explicou Valentin. "Essas guloseimas ficam lá esperando por ele, como que pela graça de um universo benevolente. Coisas pequenas calam mentes pequenas."

"Você pode deixar o caderno dele conosco", disse Lisette. "Nós o devolveremos para ele."

Dina colocou o livro de Tivash na mesa central, espiando o líquido prateado que se agitava e espumava no cadinho. Lisette adicionou uma pitada de cinza vulcânica, fazendo a mistura sibilar e mudar de cor para um laranja profundo. Em outras circunstâncias, Dina teria pedido para explicarem o feitiço que estavam lançando. Mas não naquele momento.

Ela tinha outros negócios naquele momento.

"Ok", disse Dina, "eu já vou indo."

"Para a festa da Prismari?" Lisette chamou. "Todos os professores vão também. Se não estiver com pressa, podemos ir juntas."

"Hmph", disse Valentin.

"A maioria dos professores", disse Lisette.

Dina olhou pela janela para o pátio abaixo. Estudantes reuniam-se sob os arcos formados pelas raízes massivas do salão, vestidos em suas vestes Murchasabugo mais berrantes: alguns mascarados atrás de véus diáfanos que balançavam como teias de aranha quando falavam, outros festunados com bolsas e cintos segurando componentes de feitiços.

Destacavam-se os dríades, que tinham um amor especial por essa pompa. Em seu lar nas Vastidões, não tinham necessidade de roupas e, em Strixhaven, permaneciam vestidos apenas por uma questão de propriedade. No entanto, esses tipos de assuntos sociais davam-lhes licença para se entregarem à novidade da moda. Era costume ver dríades perambulando e saltitando, adornados com têxteis exóticos prestando tributo aos bosques e vales onde nasceram.

Dina puxou seu simples manto marrom sobre os ombros.

"Não, obrigada", disse ela. "Tenho trabalho a fazer."

"Trabalho? Tão tarde?" disse Lisette, franzindo o cenho. "Você deveria passar tempo com seus amigos."

Desde que trouxera Dina para Strixhaven dois anos atrás, Lisette estivera em uma busca ininterrupta para fazer apresentações a qualquer um que minimamente compartilhasse os interesses de Dina em coletar esporos, mofos e fungos (não havia muitos, e a maioria deles queria ficar sozinho também). Essa missão se expandira para qualquer um que respirasse e pudesse falar.

"Você dá conselhos tão horríveis a todos os seus pupilos?" interrompeu Valentin. "A jovem Dina mostra determinação, ao contrário de alguns dos membros mais infelizes do nosso corpo estudantil."

"Ter amigos é um conselho horrível?" disse Lisette. "Até você tem amigos!"

"Ah é? Quem?"

"Eu!"

Valentin franziu a testa e inclinou a cabeça em pensamento. "Bem, sinto muito por ter te dado a ideia errada. Peço seu perdão."

Lisette balançou a cabeça. "Dina, vá se divertir um pouco."

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Dina considerou que marchar penosamente por Sedgemoor para dentro do desolado Brejo da Detenção provavelmente não contaria como "diversão" para a Reitora Lisette. Por outro lado, não havia nada em participar de uma festa na Faculdade Prismari que parecesse agradável para Dina. Lisette parecia não entender que todas as oportunidades estavam lá se Dina de fato quisesse confraternizar com outros estudantes. Noites cheias de libações no Fim do Arco estavam sempre disponíveis para aqueles que não se importavam em acordar pela manhã com as consequências de tomadas de decisão questionáveis. E para sessões de estudo de última hora, havia varadouros no Café Faíscajato com outros esforçados.

Dina entendia que Lisette sentia-se responsável por ela. Dissera isso sempre que sentavam para seu chá semanal. Mas talvez Dina simplesmente não quisesse fazer aquelas coisas. E talvez houvesse tarefas que tivessem mais importância.

"Boa noite", disse Dina, pousando a mão na árvore Asenath. Fazia um mês desde que descobrira pela primeira vez esta árvore em particular, um mês desde que começara seu próprio projeto secreto. Seus galhos finos davam para um riacho preguiçoso, e seu tronco largo e oco abria-se para formar uma oficina perfeita, se bem que apertada. A localização da árvore nas profundezas do brejo garantia que seu trabalho permaneceria secreto pelo máximo de tempo possível. Toda a área fora encantada para bloquear a vidência para dentro ou fora dela — melhor para impedir que os estudantes usassem o tempo para conversar com amigos em vez de pensarem em seus erros. Mesmo assim, Dina foi rápida em entrar e redefinir o glamer que obscurecia sua abertura.

"O que você faz para se divertir?" ela disse para a árvore enquanto se sentava.

A árvore não respondeu. Elas raramente respondem.

Dina lançou um feitiço simples de luz fantasmagórica, iluminando os reagentes de feitiço dispostos em um círculo ao seu redor. No centro estava um tomo antigo, sua capa feita de placas metálicas finas e recortadas como a espaldeira de um cavaleiro. Correntes delicadas prendiam as páginas de pergaminho flexíveis em uma obra cuja manufatura era inigualável por qualquer par de mãos em Arcavios.

Dizem que o Biblioplex de Strixhaven é o arquivo de magia mais completo do Multiverso. Todo tipo de feitiços, desde o encantamento anti-coceira do mago de quintal mais humilde até o ritual de um demônio para aproveitar o poder de um sol moribundo, são registrados e armazenados em algum lugar sob os arcos abobadados da biblioteca. Ninguém, exceto os Dragões Fundadores de Strixhaven, e talvez a própria Oráculo de Arcavios, sabia exatamente como o Biblioplex exercia sua função. No entanto, a maioria dos frequentadores entendia que um grimório procurado tinha mais probabilidade de caçá-los do que o contrário.

No dia em que Dina descobriu este livro em particular na prateleira, ele pareceu acenar para ela, implorando que lesse seu conteúdo. Ela o fez, atraída no início por sua curiosidade e depois pela gravidade do que encontrara. Parte manual, parte diário, capturava as meditações de um mago inominado fascinado pela vida, morte e pelos reinos trancados entre elas.

Ela abriu o livro na última página.

Pisei sobre os crânios de senhores poderosos; comandei exércitos ilimitados que obedecem sem falhar. No entanto, nenhuma conquista pode virar a maré contra o meu próprio desejo pelo que eu quero — o que eu sempre quis. Não o mero escape da morte, nem o mero fac-símile, mas a verdadeira vida a partir da ausência dela. Essa é a prova suprema de poder, o testamento mais definitivo da divindade. Fui informado por aqueles que se consideravam sábios que os fins mais antecipados são doces apenas enquanto permanecem inatingíveis.

Provarei que estão errados.

Estas palavras prefaciavam um encantamento destinado a criar uma ponte na transição entre os reinos vivos e o vazio, um lugar de trevas inefáveis onde, de acordo com o livro, residiam as almas dos desesperançados.

Um a um, Dina leu os componentes do feitiço, puxando o ingrediente correspondente do círculo e colocando-o em uma tigela. Alguns, como o musgo-da-lua, haviam sido fáceis de obter no pântano. Outros, como um osso do nó do dedo de um sloar lanoso, exigiram que Dina acessasse os laboratórios pessoais dos professores da Murchasabugo. Aquilo não foi difícil, especialmente com Lisette e Valentin tão envoltos em seus próprios projetos. Nunca notavam seus ingredientes sendo surrupiados. Uma pitada disto, uma fatia daquilo.

Arte de: Randy Vargas

"A raiz da árvore esis", sussurrou ela, com o dedo no final da lista de ingredientes. Nenhuma planta em Arcavios portava o nome esis, nem qualquer folha que ela conhecesse assemelhava-se à forma delicada e parecida com uma pena desenhada na página.

Por semanas, Dina procurou infrutiferamente. Talvez esis fosse um nome arcaico para outra espécie de planta. Ou o desenho não era tão preciso quanto poderia ser. Essas averiguações todas levaram a becos sem saída, forçando-a a conceder que não havia árvores esis em Arcavios. E quanto a obtê-la de lugares fora de Arcavios? Dina mudou sua pesquisa para rituais arcanos que teoricamente poderiam permitir a viagem de um plano a outro — de Arcavios a um lugar onde bosques de esis fossem abundantes. Sem falta, esses feitiços eram quase impossíveis de entender, muito acima de sua habilidade de realizar, e prometiam destinos dolorosos piores que a morte.

Sua busca estagnara, e permanecera assim até aquele exato dia, em sua aula de poções pouco antes de sua sessão com Maraff. Enquanto a Professora Onyx falava monotonamente sobre as distinções entre elixires atramentosos e acrômicos, o olhar de Dina captou algo notável sobre o terrário no fundo da sala. Fosse por um aspecto da luz ou por um instinto preternatural, Dina foi atraída para o agrupamento de pequenas samambaias no canto distante. Entre elas estava uma única muda cujas folhas brancas fantasmagóricas combinavam com as da árvore esis. Quando a aula terminou, ela voou para a ação, extraindo uma lasca de raiz em meio ao burburinho de estudantes fofocando sobre as reuniões sociais daquela noite.

Sentada em sua oficina, Dina encarou o pedaço de raiz de esis em sua palma. Era mal maior que uma unha humana, branco pálido, e ainda flexível. Uma coisa tão pequena, pensou ela, então a deixou cair na tigela com o resto dos ingredientes. Tudo o que restava era vincular o feitiço. Pegando sua faca, picou a ponta do dedo e espremeu uma única gota de sangue na mistura. Alguns minutos gastos pulverizando os ingredientes produziram uma cataplasma que brilhava como luz do luar fraca.

Carregando o livro em uma mão e a tigela na outra, Dina emergiu e dirigiu-se ao seu próximo destino, seu feitiço de luz fantasmagórica iluminando fielmente o caminho. A noite trouxera o brejo à vida. O cheiro acre de casca encharcada ficara forte. Coisas, logo fora de vista, deslizavam por poças de lama. O tremor das folhas molhadas acima dizia-lhe que estava sendo observada dos galhos no alto.

Recordou-se de noites como esta quando era mais jovem — silenciosamente gloriosas mas tingidas por uma sensação de destruição iminente. Quando a Fragilidade Letal chegou para o seu bosque, como fizera por muitos em Arcavios, poucos notaram seus efeitos. Aqueles que faziam do bosque seu lar começaram a cair presas de uma melancolia sutil porém persistente. Ao longo de anos, seu aperto apertou-se silenciosamente, roubando sonhos e substituindo-os por desespero. Conforme as mentes eram tomadas pela miséria, os corpos seguiam. Animais deitavam-se e nunca mais se levantavam. Dríades tornavam-se frágeis e decaíam em cascas.

No primeiríssimo fim, não havia grama.

Nem flores.

Os pássaros não traziam suas canções doces.

Insetos haviam parado de esgueirar-se.

Toda a cor tornara-se cinza; tudo estava silencioso.

Apesar dos esforços de estudiosos em Arcavios, ninguém sabia a gênese da doença ou como ela encontrava o caminho para um habitat. Lisette era um desses estudiosos, e fora ela quem chegara ao bosque de Dina para resgatá-la antes que a doença pudesse fixar-se permanentemente. Mas mesmo a perícia formidável de Lisette não pudera salvar o bosque em si. Agora Dina potencialmente tinha a habilidade de mudar aquilo, embora não fosse fácil.

Dina seguiu o riacho até uma toca de gravetos e lama onde uma família de pragas fazia seu lar. A maioria dos estudantes Murchasabugo meramente tolerava as pragas. Não podiam evitá-las completamente — pragas eram uma fonte incrível de energia mágica. Mas as criaturinhas cheias de verrugas não eram as mais agradáveis de se ter por perto. Eram frias e viscosas e violavam flagrantemente o decoro em relação a boas maneiras e higiene pessoal. Dina não se importava com nada disso.

"Olá Bastion, Vedredi, Kiara e Nenioc", ela disse, cumprimentando as pragas que rolavam na lama ao longo da beira da água. "Como estão hoje?" As pragas, muito como as árvores, raramente respondiam a perguntas diretas. Mas elas se debatiam, respingando lama no manto de Dina. "Estou aqui para pedir um favor", disse ela. "Preciso que façam uma pequena viagem para mim." Houve um puxão de ansiedade conforme ela aplicava sua cataplasma às pragas — dez ao todo — que se reuniram ao seu redor. Confiavam nela, talvez a amassem do seu próprio jeito. Ela acariciou Nenioc, batizada em homenagem à sua irmã de bosque que falecera anos antes. A praga arrotou e lambeu a mão de Dina. "Se eu tiver sucesso, vocês estarão de volta aqui. Como se nunca tivessem partido."

Arte de: Randy Vargas

Ela colocou o livro de feitiços no chão e, em cada praga, traçou uma espiral, o símbolo de toda a vida irradiando de um ponto unificado. Então começou a recitar as palavras. As primeiras poucas sílabas foram fáceis de pronunciar. As palavras subsequentes, porém, trouxeram consigo uma sensação como a de um martelo surdo batendo no interior do seu crânio. Dina persistiu, focando em uma sensação que lhe trazia alegria — o toque da casca áspera de sua árvore pai, o primeiro ser que a saúda depois que nasceu.

Se seu experimento provasse ser um sucesso, ela seria capaz de voltar para onde seu bosque estivera e trazê-lo de volta. Trazê-los de volta. Todas as plantas, animais e dríades, exatamente como se lembrava. Vida a partir da ausência de vida.

Um estalo quebrou sua concentração. Do outro lado da clareira, uma árvore morta caiu com um estrondo, seu tronco cortado de forma limpa por~alguma coisa. Dina fechou o tomo, apagou sua luz e abaixou-se na lama perto da beira da água. Não havia lua naquela noite, e a luz das estrelas só conseguia penetrar a névoa do brejo com dificuldade.

Nenhuma criatura do pântano poderia ter causado aquele dano preciso ao tronco da árvore. Tinha que ser alguém de Strixhaven.

"Insatisfeito?" gritou uma voz. "Você sequer sabe o significado dessa palavra?" Um segundo depois, um projétil preto e elegante atingiu o chão à frente dela. Magia de tinta? pensou ela. Outro dardo sombrio veio da noite e respingou na lama precariamente perto da beira da água onde as pragas estavam brincando alegremente. Era absolutamente magia de tinta, o estilo de feitiço de assinatura da Faculdade Platinapena. Mas o que alguém da Platinapena estaria fazendo no Brejo da Detenção? A resposta era óbvia: era um estudante, um que estava sendo punido.

"Você nem estava lá! Onde diabos você estava?"

Espirais de tinta estenderam-se da escuridão como garras gêmeas, agarrando um par de galhos altos de árvore e arrancando-os para o chão. Desta vez as árvores de fato falaram. Seus uivos preencheram a mente de Dina. O que nós fizemos? Por que isto está acontecendo? Seus lamentos de dor a impulsionaram à ação. Ela saiu do esconderijo e conjurou sua luz fantasmagórica esperando que a visão de outra estudante desse pausa ao intruso.

Infelizmente, sua aparição súbita teve o efeito oposto.

"Quem está aí?" gritou a voz, e um momento depois, uma onda de força de tinta estava rolando em direção a Dina. Instintivamente, ela entoou as sílabas do amuleto de verão, um feitiço que se originara com as dríades, mas que todos os magos orientados à natureza incluíram desde então em seus repertórios. Foi o suficiente para protegê-la do impacto da onda, mas sua força pura ainda a derrubou de costas. Passos apressaram-se em direção ao ponto onde Dina jazia. Um momento depois, um par de mãos a puxou de volta para ficar de pé. Um jovem vestido nas vestes pretas e brancas de um estudante Platinapena estava diante dela, com um olhar de choque no rosto.

"Eu~eu não te vi."

"Isso é porque está escuro", disse Dina. "Olhos humanos não se ajustam bem à falta de luz."

"Não, quero dizer~"

Sua voz sumiu, e seus olhos desviaram de Dina para um ponto atrás dela.

As pragas! O coração de Dina caiu. Se elas estiverem feridas~Dina preparou-se para a cena macabra e virou-se para olhar. Mas em vez de pragas mortas, sentada no chão estava uma esfera negro-azeviche de magia de tinta tremendo como se estivesse viva. Proeminências de névoa verde saltavam de ponto a ponto em sua superfície.

"Que magia é esta?" o jovem perguntou em um sussurro.

Dina não respondeu. Observou conforme a esfera estremecia e então brotava gavinhas que se enterravam no solo macio do brejo. A terra sob seus pés começou a se deslocar e rolar como dedos em miniatura arranhando as solas de suas botas.

"Não podemos ficar aqui", disse ela.

"Você não respondeu à minha pergunta!"

Sem outra palavra, ela pegou o pulso do jovem, puxou o mais forte que pôde e correu para longe do local, arrastando-o atrás dela. As respostas dele poderiam esperar para depois, não que ela tivesse alguma. O ritual tinha que ser realizado delicadamente e com precisão, e agora fora corrompido. As árvores berravam com gritos estrondosos. O vazio! Para onde você nos enviou? Tanta dor. . .

A angústia delas trouxe Dina aos joelhos. Desta vez, foi o jovem quem a pegou e a puxou até chegarem a um bosque onde se refugiaram.

Ao redor deles estava o som de galhos de árvores se debatendo.

"Agora responda à minha pergunta", disse ele.

De perto, Dina reconheceu o jovem como o filho da Reitora Lu, o mais vocal e carismático dos reitores da Platinapena. Tinham a mesma fisionomia decidida e resoluta quando falavam. Dina a vira muitas vezes (das fileiras de trás, é claro) quando a Reitora Lu fazia seus discursos ardentes sobre compromisso e dever nas assembleias de toda a faculdade.

"Seu nome é Killian", disse ela. "Sua mãe—"

"Não fale da minha mãe", disparou ele, então suavizou a expressão. "Temos outras coisas com que lidar agora, começando pela verdade. O que foi aquilo lá atrás?"

Não havia utilidade em esconder as coisas. Dina produziu o livro de feitiços de sua bolsa.

Killian abriu o livro e folheou suas páginas. "Magia proibida", disse ele.

"Eu sei", disse Dina. "É por isso que eu estava escondendo aqui, onde ninguém deveria estar."

"Isso não muda nada."

"Exceto por você destruir minha única chance—"

"De quê?" disse ele. "O que você estava tentando fazer?"

Dina parou logo antes de dizer: De salvar tudo o que já amei neste mundo. Era o tipo de afirmação que soava ou como megalomania ou ao menos profundamente ridícula, mesmo que fosse a verdade. Então ela desviou da pergunta dele.

"Espere, você ouve isso?" disse Dina.

Killian parou e escutou. "Não."

"Exatamente. Deveríamos voltar e olhar."

Emergindo das árvores, Dina e Killian refizeram seus passos até onde a toca das pragas estivera, desta vez usando um orbe radiante conjurado por Killian como fonte de luz. Embora tivesse passado apenas pouco tempo, o efeito do feitiço de Dina estava claro. Talhos profundos marcavam troncos de árvores e o solo macio, como se uma grande besta tivesse arrastado seus talões pela paisagem. As árvores ao redor da área haviam sido decepadas rente ao toco ou arrancadas inteiramente. Não havia sinais das pragas, e os únicos restos de sua toca eram farpas flutuando na superfície do riacho.

"Temos que ir", disse Dina. "O Reitor Valentin está em Widdershins. Ele pode nos ajudar."

Killian balançou a cabeça. "Estou preso aqui a noite toda." Virou o braço direito para mostrar a Dina o sigilo Platinapena em seu pulso. Era uma marca de detenção, uma marca que impedia estudantes de simplesmente esquivarem-se de suas estadias obrigatórias no Brejo da Detenção. Se tentassem escapar, a marca reagiria com a paisagem para forçar o estudante de volta ao centro do brejo. "Isso é o que ganho por deixar um jogador Prismari roubar meu tintim bem debaixo do meu nariz. Custei à minha equipe aquele ponto, e a Platinapena perdeu a partida de Torre dos Magos. Essa é a minha mãe para você."

"Ela te deu detenção por um jogo?"

"Não, ela me deu detenção por não me aplicar", disse ele. "Você deveria voltar. Eu me viro sozinho."

"Não vou te deixar aqui sozinho."

"Então me ajude a consertar o seu erro."

"Nosso erro", disse Dina. "Lembra da parte com a gritaria e a conjuração descuidada?"

"Tá bom", Killian disse. Apontou para uma mancha de solo na outra extremidade da clareira. Uma trilha fresca juncada de galhos surrados fora aberta pelo brejo. "Está se movendo. Eu lidero o caminho."

"Você sabe que se algo nos atacar de frente, você provavelmente será atingido primeiro", disse Dina.

"Claro, mas—"

"Então, não é do seu melhor interesse estar na minha frente, nem é do meu melhor interesse ter a fonte de luz tão à frente. E se eu for emboscada por trás?" Ela apontou para a largura da trilha. "Podemos caminhar lado a lado. Não faz mais sentido?"

"Eu só estava tentando~esquece."

Com o livro de feitiços na mão, Dina passava os olhos pelas páginas enquanto caminhava. O ritual era claro em seu intento. Como as pragas eram repositórios de energia mágica, seus professores conjeturavam que suas essências eram tão primordiais quanto elementais, que poderiam estar relacionadas a cada ser vivo em Arcavios. Um dos feitiços mais simples ensinados a todos os estudantes Murchasabugo extraía a essência mágica de uma praga, convertendo-a, corpo e alma, em magia pura. O ritual do livro prometia um conduto para aproveitar esta magia e convertê-la de volta ao seu estado vivo original.

De volta aqui. Como se nunca tivessem partido.

"Encontrou algo?" perguntou Killian.

"Não", disse Dina. Não havia desvinculações, nem contrafeitiços incluídos em nenhum dos feitiços lá dentro. "É quase como se o mago estivesse tentando fazer a mesma coisa repetidas vezes."

"Ressuscitar os mortos?"

"Restaurar os vivos."

"Pergunto-me quem eles perderam", disse Killian.

"Quem você perdeu?"

"Como você~sou realmente tão transparente?" Killian baixou a cabeça e sorriu para ela por trás de longas mechas de cabelo. "Minha mãe morreu quando eu era muito jovem. Mas não consigo nem dizer que a perdi. Mal me lembro dela." Ele jogou o cabelo para trás e continuou a caminhar pela trilha.

Dina sabia que era melhor não aceitar sua indiferença pelo valor aparente. Ela sabia o que era perder aqueles que amava e, mais do que isso, ter aquela dor do nunca saber. Era uma consciência profunda de quão vazio você sempre estaria, como um redemoinho drenando para um abismo sem fundo. Nenhuma largura de sorriso ou profundidade de riso poderia esconder aquela ferida daqueles que também a portavam.

"Eu também não conheci minha mãe", disse Dina, alcançando-o. "Todos do meu bosque se foram."

"Sua família inteira?"

"Dríades não têm famílias", Dina explicou. "No fim de sua vida, uma dríade encontra uma árvore que esteja similarmente perto do fim. Ela repousa aos seus pés, permitindo que a terra reclame seu corpo, e, eventualmente, uma nova dríade emerge da árvore sabendo nada a não ser seu nome — o mesmo que o de sua mãe. Não temos pais como você, mas ainda temos comunidade — nossas irmãs de bosque e todas as plantas e animais."

"But they're all gone."

"Sim. Quando a praga chega, poucos são poupados."

Continuaram a seguir a trilha conforme ela se alargava em outra clareira. Assim que pisaram nela, um rosnado baixo emanou de um agrupamento de arbustos a uma curta distância.

"É aquilo?" disse Killian, com as mãos prontas para direcionar um dardo de tinta contra uma ameaça.

"Não", disse Dina. Ela farejou o ar. "É um prende-vinhas."

"O quê? Como você sabe?"

"Limão almiscarado. É o que eles comem. Dá a eles o cheiro deles."

Killian inspirou. "É esse o fedor então?"

Saindo pesadamente dos arbustos estava uma criatura corpulenta cujas feições, além de seus braços poderosos e grandes garras pretas, eram obscurecidas por tufos de pelo longo e fibroso. Assim que os avistou, tentou rugir, mas seu bramido saiu como um gurgle dolorido.

"Está ferido", disse Dina, apontando para manchas de sangue em seu pelo. "Precisamos ajudá-lo."

"Aquele é um animal selvagem!"

"Eu sei." Embora quisesse se aproximar do prende-vinhas em paz, Killian tinha razão. Seu andar era instável, e seus movimentos eram lentos. Quaisquer movimentos súbitos o assustariam. Até mesmo um prende-vinhas enfraquecido poderia quebrar cada osso dela ou de Killian com um único golpe. "Me dá cobertura?"

Killian assentiu.

"Está tudo bem", Dina sussurrou, caminhando para frente lentamente. "Deixe-me ajudar." Ela colocou a palma da mão no animal e entoou um encantamento para debelar a magia que invadia o corpo do prende-vinhas. Mas a corrupção era forte demais para ela arrancar. Dina dobrou seu esforço para expulsar a infecção, mas isso apenas fez o braço maciço do prende-vinhas retesar-se, provocando um uivo de dor. Ele atacou Dina com as garras estendidas.

Agindo rápido, Killian puxou-a para longe com um braço e com o outro atingiu o rosto do prende-vinhas com farpas de magia de tinta. Ele lamentou, tropeçou para trás e caiu de lado, jazendo imóvel exceto por suas respirações laboriosas. Killian ajudou Dina a levantar e, juntos, aproximaram-se da fera. Wisps negros da magia de Killian emanavam do corpo do prende-vinhas.

Dina ajoelhou-se e afastou tufos de pelo sangrentos do rosto do prende-vinhas. Ele ganido e moveu os olhos para seguir os movimentos dela. "Preciso saber o que você viu", disse ela para a besta.

"Ele está~?" Killian começou a perguntar.

"Minha magia não é forte o suficiente para curá-lo", disse Dina baixinho. Ela colocou as costas da mão na testa do prende-vinhas. Comungar com a flora vinha naturalmente para as dríades — é por isso que eram magos da natureza perfeitos. Mas estabelecer um elo com animais era muito mais difícil. Dina começou a se concentrar imaginando que estava flutuando por um túnel longo e escuro. Ao chegar ao fim, encontrou-se olhando para baixo para a clareira do topo das árvores — o mundo através dos olhos do prende-vinhas. Um estalo abrupto de um graveto fez sua visão focar novamente em uma criatura rastejando para dentro da clareira abaixo. Movia-se como um grande verme, abrindo uma trilha no solo macio. Conforme se movia, absorvia terra, vegetação podre e carniça meio devorada para crescer em tamanho, força e velocidade.

Dina só pôde assistir enquanto o prende-vinhas saltava de galho em galho para enfrentar a criatura. Uma vez no chão, o prende-vinhas correu em direção a ela e cravou dentes e talões em seu corpo. Dina sentiu o gosto da terra em sua língua, sentiu fragmentos de osso estalarem entre seus dentes.

O contra-ataque do intruso foi rápido. De seu corpo, longas gavinhas pretas emergiram para empalar o prende-vinhas e batê-lo contra as árvores. Dina experimentou cada pedaço de dor física que o prende-vinhas suportara, sua confusão ao ser arremessado como uma folha em um vendaval. Por fim, a criatura descartou o prende-vinhas no mato, contente em seguir seu caminho.

Dina soltou o prende-vinhas, seu corpo inteiro doendo de fraturas e lacerações fantasmas. "Está indo para nordeste", disse ela, recompondo-se. "Em direção a Sedgemoor."

"Em direção à escola? Talvez seja atraído por energia mágica?"

"Ou está procurando um propósito", disse Dina. "Acabou de nascer, e não sabe por que está aqui ou o que tem que fazer."

"Tipo um bebê assassino gigante?"

"Nosso bebê assassino gigante."

Killian enviou seu orbe radiante mais adiante na trilha, e eles seguiram. Dina não conseguia tirar as memórias do prende-vinhas de sua cabeça. Se aquela coisa escapasse do brejo, inúmeros estudantes estariam em perigo, sem mencionar a vida selvagem que já fora posta em perigo. No entanto, o experimento fora um sucesso de certa forma. Não era aquela criatura uma nova vida a partir do éter? Poderia ser algo senão um sinal de que essas magias prometiam uma ressurreição verdadeira? Quanto bem as dríades de seu bosque poderiam trazer de volta a Arcavios? Quanta sabedoria poderiam reclamar do abismo e trazer de volta para o povo?

E quem ela estaria disposta a sacrificar para vê-los retornar?

A mão de Killian agarrou a dela, quebrando seu transe. "Vem! Acho que estou vendo!"

Dina olhou para frente. Na distância distante, o orbe de Killian de fato iluminara uma forma colossal que se envolvera em um agrupamento de árvores Sylvatica ancestrais e altas. Embora estivesse escuro, ela poderia jurar que sua silhueta parecia ter o dobro do tamanho que tinha quando lutou com o prende-vinhas. Por que parara e se assentara nesta parte do brejo? Sabia que eles estavam vindo atrás dela?

Estaria esperando por eles?

Killian apagou seu feitiço de luz e puxou Dina para fora da trilha e para trás de uma pilha de árvores derrubadas. "Não podemos simplesmente entrar correndo lá", disse ele. "Espere — aquele orbe preto que vimos primeiro. O corpo daquela coisa é feito do pântano, mas o seu coração—"

"Sua magia", disse Dina.

"E a sua também", disse Killian. "Se pudermos apenas acessar o coração dela de novo, poderíamos quebrar o feitiço, neutralizar uma parte dele, fazendo a coisa toda desmoronar!" Ele pensou por mais um momento. "Acho que eu conseguiria cancelar a magia de tinta, mas teria que estar bem ao lado do orbe para funcionar. Poderíamos queimar o corpo?"

"Não, o brejo é úmido demais", disse Dina. "But I have a plan."

Killian sorriu. "Care to share?"

"Com você?" perguntou Dina. "Ah. Aquilo provavelmente seria uma boa ideia, né?"

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A penúltima coisa que Dina disse antes de ela e Killian se separarem foi "Coma estas", conforme pressionava um punhado de folhas de chá secas na palma dele. "Você será capaz de ver melhor no escuro."

Killian mastigou-as na boca e engoliu. Um momento depois, seus olhos assumiram uma tonalidade azul pálida. Ele piscou e olhou ao seu redor em assombro.

"Isto é incrível! Por que não usamos isto antes?"

"Pata-de-leão tem efeitos colaterais em humanos", disse Dina.

"Tipo o quê?"

"Você deve ficar perto da latrina amanhã."

"Ah."

"No dia seguinte, também."

E então veio a última coisa que ela diria a ele antes de encenarem suas respectivas partes do plano.

"Não morra, ok?" Dina disse a Killian.

"Não vou morrer. Gosto das minhas chances."

Coisas como "as chances" não pareciam atrasar Killian nem um pouco. Ele era impulsivo e imprudente, traços que Dina sempre considerara negativos. Ao mesmo tempo, perguntava-se como era ser capaz de dizer algo com aquele tipo de confiança. Fosse cega, tola ou merecida, aquela pose era um traço que Dina nunca possuíra mas sempre quisera — para nada mais que convencer a si mesma de que estava fazendo a coisa certa.

Agora estava sozinha mais uma vez, passando por manchas de cardo para circular a abominação. Em algum lugar no outro lado do bosque, Killian estava se assentando em um bom ponto de observação para esperar até que fosse hora de desempenhar sua parte. O fedor de podridão enchia as narinas de Dina. Estar tão perto do corpo do monstro era como estar enterrada sob camadas e camadas de vegetação morta. Ela não ousava tocá-lo diretamente. Provocá-lo prematuramente de seu estado lento poderia provar-se fatal. Em vez disso, Dina enterrou a mão na terra a alguns passos da criatura e começou a recitar um dos primeiros feitiços que aprendera em Strixhaven.

A natureza, Lisette explicara, é atraída pelo equilíbrio. Magia é simplesmente uma maneira de alterar ligeiramente este equilíbrio sem destruir os elementos com que se está trabalhando. A chave é começar pequeno. Uma montanha pode repousar em um único seixo. Um oceano começa como uma gota de chuva.

Dina inspirou e, a cada respiração, imaginava sua mente estendendo-se para fora para os menores elementos de água e terra, planta e osso — todas as coisas de que o corpo da criatura era feito. Imaginava farpas enrolando-se umas nas outras e apertando-se tensas, pedaços de terra aglutinando-se uns aos outros e segurando-se firmes como granito.

Cuidado para não assumir demais, avisara Lisette. Nada é sem custo.

Na aula, Dina fora capaz de transformar um punhado de terra em uma escultura de sua flor favorita, a orquídea louva-a-deus. Aquele feito exigira várias pragas para fortalecer seu feitiço. Mas agora estava sem aquele suprimento extra de energia mágica, forçando-a a usar a próxima melhor fonte de poder — ela mesma. Continuou entoando, forçando as palavras através de dentes cerrados. Cada parte de seu corpo explodiu em uma torrente de picadas como milhares de ferroadas de urtiga sob sua pele.

A criatura começou a se mover. Tentou desatrelar-se das árvores, apenas para seções de seu corpo se romperem e estilhaçarem ao atingirem o chão. Tentáculos pretos brotaram desses talhos profundos, mas eram notavelmente lentos, soltando pedaços de vegetação podre a cada movimento. Enquanto Dina conseguisse manter seu feitiço, a criatura seria lenta e quebradiça, um alvo perfeito para a parte de Killian no plano. Espiou além da massa escura à sua frente para localizar seu companheiro. Nenhum sinal dele ainda. Subitamente, um par de apêndices irregulares brotou do corpo da coisa e começou a sondar os vãos entre as árvores. Com tempo suficiente, acabaria por encontrá-la. Isso se seu próprio feitiço não a matasse primeiro.

"Eu não me aplico, hein?" Com o grito de Killian vieram duas lâminas em forma de foice de pura magia de tinta cortando o corpo da criatura. Detritos respingaram de seu corpo. "Talvez você simplesmente não consiga aceitar quem eu sou!" Mais dois dardos voaram da escuridão para decepar mais da criatura. O plano deles estava funcionando! Tudo o que ele tinha que fazer era abrir caminho até o cerne do monstro. Mas ele tinha que ser rápido. O peito de Dina pareceu estar sendo perfurado por mil espadas flamejantes.

"Você é tão hipócrita!" Killian saltou sobre um tronco caído e liberou outro dardo de magia de tinta, este tomando a forma de um martelo que ele arremessou diretamente contra o monstro. Mais de seu corpo rompeu-se e estilhaçou-se. "Você está sempre disposta a dizer aos outros que eles não são dignos, não servem para a sua escola!" Ele saltou do tronco. "Esta não é a sua escola! Esta é a nossa escola!" Killian girou, conjurando uma lâmina de tinta estendendo-se de seu braço e descendo-a sobre a criatura.

Dina nunca estivera em um jogo de Torre dos Magos. Todos os jogadores se moviam tão fluidamente quanto Killian? Suas ações formavam um padrão requintado, uma dança tão deslumbrante quanto impositiva. Infelizmente, a manobra final de Killian o trouxera perto demais da criatura, perto o suficiente para ela deslocar sua massa e arranhá-lo pelo peito com um par de garras sombrias.

"Killian!" gritou Dina conforme o via desabar no chão. Quebrou seu feitiço e correu para o lado de Killian, desviando de uma enxurrada de golpes do monstro. Dina arrastou-o para longe da criatura até o pé da árvore mais próxima e proferiu um encantamento de supercrescimento para compelir as raízes da árvore a envolverem-no. Então levantou-se e virou-se para enfrentar este adversário criado por ela mesma. O corpo da criatura estremeceu conforme sacudia os efeitos do amuleto de petrificação de Dina. Ergueu-se alto acima dela, exibindo uma bocarra imensa de osso estilhaçado em sua parte inferior.

And then, like a great tidal wave, the creature crashed down upon her.

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Dina stood amidst the tall reeds that tickled her nose. Water caressed her feet up to her ankles, and the cool mud snuggled her toes. The scent of sweet citrus permeated the air, prompting her to take a deep breath.

Home.

"You've always loved strawberry season," she heard someone say. To Dina's left, from beyond the treeline, stepped forth a figure that was both alien and intimately familiar all at once—a tall beautiful dryad who almost seemed to flow through the air. The tips of the branches crowning her head were black and cracked. Her skin had turned from green to a lurid assortment of russets, ambers, and mottled grays. "You recognize this place," she said, stroking the tree next to her.

Não havia como Dina não reconhecê-lo. Aquele era o seu bosque, e mais especificamente, a árvore de onde ela rastejara ao nascer. Todos os detalhes eram como ela lembrava. Perfeitamente.

Perfeitos demais.

"Estamos realmente aqui?" disse Dina.

"Isso importa, amor?" disse a dríade. "Isto é o que você desejou, não é?"

"É", disse Dina. "Tudo como era antes da Fragilidade Letal. Eu quero~"

"Eu", disse a dríade, sentando-se ao pé da árvore. "Uma vez que você começa a pedir pelo improvável, o impossível não parece tão fora de questão."

"Você sabe há quanto tempo eu quero falar com você?" disse Dina. "Há quanto tempo procurei?"

"Sim. Nos lugares errados, e por respostas que você já conhece."

"Isso não é verdade! Quero saber por que sou a única que restou! Por que eu e não todos os outros? Precisa haver uma razão!"

"Uma razão?" disse a dríade. "Você quer dizer prova de que você desempenha algum papel fundamental nos esquemas de um arquiteto invisível? Eu gostaria de ter uma resposta fácil, se apenas para te dar paz."

"Mas por que mais estou viva se não para trazer os outros de volta?" disse Dina. "Eu encontrei um jeito!"

"Encontrou?" a dríade disse. "E como você sabe que eles querem isso?"

"Eu~"

Dina buscou uma refutação mas viu-se sem palavras. Por tanto tempo, ela se apegara às suas memórias desbotadas do lar e depois as unira à determinação de resgatar tudo o que perdera. Apegar-se àquele desejo fora o suficiente para ajudar a salvar sua própria vida. Com o tempo, definira o que ela defendia, quem ela era. Mas e se estivesse errado — uma violação não apenas contra a própria natureza, mas também contra os próprios que ela queria salvar? "Então o que eu deveria fazer?"

"Você pode ajudar aqueles que precisam agora mesmo." A dríade olhou para sua esquerda, e Dina seguiu o exemplo. Ali, emaranhado em uma gaiola de raízes, estava Killian, seu rosto contorcido de dor. "Ele significa algo para você?"

"Acabamos de nos conhecer", disse Dina. "Ele é~meu amigo."

"Um bom lugar para começar. É claro, há o assunto da sua situação atual." A dríade encostou a cabeça no tronco da árvore e fechou os olhos. "É hora de ser inteira novamente, meu amor."

Dina entendeu. Fechou seus próprios olhos e projetou sua mente para fora o mais longe que pôde, passando as fronteiras desta memória e para dentro do coração negro da criatura que ela parira no mundo. Imaginando seu próprio corpo flutuando neste vazio, Dina focou na única gota de seu próprio sangue que vinculara o feitiço. Deixou-se ser puxada em direção a ela até que a gota estivesse à sua frente, suspensa no ar. Estendeu a mão e tocou-a com a ponta do dedo, a sensação de dentes afiados subindo por sua mão. Subitamente, seu braço inteiro pareceu ter sido mergulhado em um mar de gelo. O calafrio correu pelo seu pescoço até seu rosto e para dentro do seu nariz, olhos e boca.

Então ela estava caindo. Caindo infinitamente. Caindo para sempre.

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Dina arquejou em busca de ar e agitou os braços em direção às formas escuras projetadas na parede. Agarrando as cobertas da cama, tomou nota de seus arredores. Sumiram os arredores do Brejo da Detenção, substituídos pela luz dourada suave irradiando de uma lanterna colocada em uma mesa de cabeceira. Dina reconheceu esta sala longa como a enfermaria no Salão de Widdershins. Ao lado de Lisette, ela atendera a estudantes acamados como parte de suas lições sobre cura avançada. Sentado em uma cadeira a uma curta distância da cama estava o Reitor Valentin, que encarava Dina debaixo do capuz de seu hábito.

"Fui apressado demais em te elogiar mais cedo", disse ele.

"Onde~Killian—"

"Está se recuperando em seu próprio quarto", disse Valentin.

"Como cheguei aqui?"

"O garoto é tenaz, arrastando você por todo o caminho do brejo com uma ferida supurante. Sem mencionar um caso particularmente desagradável de envenenamento por pata-de-leão."

"E quanto ao brejo?"

"Você se refere às forças com que andou se metendo?" disse ele. "Fique tranquila, se ainda houvesse uma ameaça aos estudantes lá, você não estaria aqui agora. Você estaria morta, assim como o jovem Senhor Lu."

Valentin sabia de tudo. E certamente Killian fora obrigado a contar aos reitores da Platinapena tudo o que se passara no brejo do seu ponto de vista. Dina, por outro lado, tinha certeza de que seu tempo em Strixhaven chegara ao fim. Ela sabia por que tomara as decisões que tomara. Só desejava que tivesse havido um resultado diferente. Por outro lado, talvez aquela fora a única maneira de ela ter aprendido a deixar o passado descansar. Um custo pago.

"Sei que o senhor está desapontado", disse Dina. "Eu não tive a intenção—"

Valentin suspirou. "Desapontado? Na verdade, estou muito pouco surpreso. Nenhum de vocês, estudantes, jamais tem a intenção de que as coisas corram mal, especialmente quando correm."

"Assim que eu for capaz, pegarei minhas coisas e partirei." Dina inclinou-se na mesa lateral para sair da cama, mas a dor disparou por seu corpo, forçando-a de volta para baixo.

"Você sabe que esta é uma instituição de ensino, hein?" disse Valentin. "Confio que você tenha aprendido algo esta noite — que você é a estudante, e nós somos os instrutores. Nós montamos lições meticulosamente, e você as segue à risca. Aventurar-se fora dessa dinâmica é~problemático. Tal lição será valiosa em seu futuro trabalho escolar."

"So~can I stay?"

"Hmph", ele resmungou. "Acima de tudo, Strixhaven é um lugar para novos começos. Frequentemente isso vem na forma de segundas chances. Nenhum de nós é isento de falhas, Senhorita Dina." Ele pausou e estalou os dedos. "E eu sou um dos últimos que merece castigar outros por seus tropeços."

Arte de: Andrey Kuzinskiy

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A Professora Serafina Onyx soprou a chama, fazendo-a dançar. No início da noite, a vela em sua escrivaninha estivera alta e sólida. Mas no momento em que derretera até tornar-se um toco, ela havia corrigido apenas um punhado dos exames de seus estudantes. Há quanto tempo ela mesma não era sujeita ao julgamento de um instrutor? Lady Ana fora uma mentora rigorosa, amplamente reconhecida por sua perícia nas artes da cura. E o que aquilo lhe rendera? Um marido que a deixou. Filhos que a evitaram. Um fim rápido pelas mãos de um paciente entregue aos seus cuidados. E pior de tudo, ser totalmente esquecida por todos exceto pela pessoa que mais a odiava. Onyx mergulhou sua pena em um frasco de tinta e procedeu a riscar uma página inteira do exame à sua frente. Na margem, escreveu uma palavra: Patético.

Irrompendo pela porta de sua sala de aula veio Lisette, colega professora de Strixhaven e reitora da Faculdade Murchasabugo. Marchou até a escrivaninha de Onyx e deixou cair um tomo pesado sobre sua superfície.

"Acredito que isto pertença à senhora", disse Lisette, seus olhos acesos de fúria.

Onyx arquejou com o que via diante de si. Não que pensasse que o volume a iludiria para sempre. Tinha todo o tempo do Multiverso para vasculhar as prateleiras do Biblioplex. Em vez disso, não esperava que chegasse à sua posse de uma maneira tão conveniente. No entanto, ali estava ele — uma das razões pelas quais ela estava em Strixhaven desperdiçando esforço com pirralhos ingratos que já se achavam magos de reputação estimada.

Ela não queria alertar Lisette sobre sua empolgação. Era, afinal, melhor permanecer calma e composta, especialmente diante de um inimigo em potencial. Qualquer um — um amigo, um membro da família — poderia rapidamente tornar-se um adversário. Onyx aprendera aquilo muito bem e com muita frequência.

"Sua colegialidade é apreciada", disse Onyx, com um leve sorriso no rosto.

"Eu sei quem você é — o que você é", Lisette ameaçou. "E eu morrerei antes de parar de tentar te levar o mais longe possível desta escola."

A Professora Onyx recostou-se e tamborilou os dedos sobre a capa do livro. "Isso pode ser providenciado, Professora."

Sem mais uma palavra, Lisette saiu furiosa, deixando Onyx sozinha com seu prêmio. Ela folheou o livro, ocasionalmente parando e lendo o conteúdo para recordar. Lembrava-se dos nomes daqueles que se voluntariaram como seus sujeitos de teste — se não em vida, então certamente na morte.

Onyx parou na última página e leu o feitiço. Ele, como todos os outros, fora um fracasso. Vida a partir da ausência de vida. Com a ponta do dedo, traçou o contorno da folha esis, acariciando suas bordas como a bochecha de um amor há muito perdido. Um apodrecimento negro espalhou-se para fora de onde ela o tocou, consumindo todas as páginas do livro, deixando nada além das correntes que as prendiam.

14/04/2021 | Por Adana Washington

Episódio 4: Postos à Prova

Will acordou de sobressalto. Levou um momento para perceber que estava em seu quarto, que as figuras sombrias espreitando nos cantos eram restos de qualquer sonho do qual despertara. Ainda estava em seu uniforme, agora amassado. Seu último trabalho, na escrivaninha à sua frente, permanecia inacabado. Lá fora, conseguia ver a noite de Arcavios, um talho de escuridão pontuado pelos brilhos estranhos habituais por todo o campus. Não havia sinal de Rowan. O lado dela do quarto ainda estava no mesmo estado de desordem de semanas. Ele levantou-se, fazendo uma careta com uma torcicolo no pescoço, exatamente quando um grito veio do corredor.

"—ortão sul!"

"Quantos ela—?"

"Todo mundo está—"

Na multidão de estudantes correndo, Will avistou alguém do time de Torre dos Magos da Prismari — Arlo Wickel, o armador que impressionara Quint com sua magia de terra.

"Ei! O que está acontecendo?"

Wickel apontou pelo corredor. "Ei, calouro! Siga a multidão — a Reitora Uvilda está esperando para levar vocês a um abrigo designado."

"Mas o que está acontecendo?"

"Os Oriq estão aqui", disse ele curtamente, antes de virar e correr atrás da multidão de estudantes mais jovens. Will ficou ali parado por um momento, atônito, uma sensação de enjoo crescendo em seu estômago. A Professora Onyx estava certa.

Lá fora, Will tropeçou em uma cena de caos total. A multidão, acompanhada por mais e mais estudantes fluindo dos dormitórios, congelara em uma extremidade do pátio. No outro lado, passado suas expressões horrorizadas e atônitas, Will conseguia ver uma parede de formas escuras avançando.

Não — não formas. Criaturas.

Ataque dos Caçadores de Magos | Arte de: Lie Setiawan

Deslizavam pelo gramado bem cuidado sobre pernas estreitas e pontiagudas, placas insectoides cobrindo carne cor de vinho tinto. Espigões roxos brilhantes corriam ao longo de suas costas e subiam até cabeças sem olhos, totalmente sem feições exceto por uma bocarra denteada e escancarada. Gritos terríveis rasgavam o ar.

Soavam famintos.

A princípio, Will apenas pensou que seus joelhos estavam ficando fracos — mas o chão inteiro estava tremendo. Viu Wickel dar um passo para fora da multidão, seu corpo inteiro vibrando com energia, e enfiar ambas as mãos na terra sob ele. Um semicírculo de solo revolto ondulou de onde ele estava, erguendo-se em uma parede de terra densa entre as criaturas e os estudantes. Ele virou-se de volta para os calouros de olhos arregalados. "Corram! Eu disse corram!"

Mesmo enquanto apressava-se a obedecer, Will conseguia ver a primeira das horríveis criaturas vindo por cima da parede de terra, escalando-a sem esforço. Ele precisava encontrar sua irmã. Onde estava Rowan?

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Pelo campus de Strixhaven, Rowan uivou e balançou sua espada. Ela mordeu uma junta entre as placas da armadura da criatura, enviando um jato de sangue escuro espirrando por seu uniforme e sobre o jardim coberto de mato que cercava os dormitórios Murchasabugo. Atrás dela, Plink recuava de uma das coisas, guinchando de medo; com um encantamento gritado, Auvernine chamou raízes espinhosas do solo para envolverem as pernas da criatura e arrastá-la para baixo para dentro da terra.

"Eles estão por toda parte!" gritou Plink, quase tropeçando na forma enterrada da criatura. "Estamos cercados! Abandonar navio! Rendição!"

Rowan varreu com o olhar o campo que se estendia diante da faculdade Murchasabugo. Sua amiga estava certa. As criaturas avançavam em uma parede de quitina misteriosamente brilhante, empurrando os estudantes de volta em direção aos dormitórios.

"Se apenas esperarmos pelos professores—" começou Auvernine.

"Não. Se apenas esperarmos, seremos sobrepujados. Temos que passar por eles. Temos que sair", disse Rowan.

"E ir para onde?" perguntou Auvernine desesperadamente.

Rowan olhou em direção ao Biblioplex, seus pensamentos voltando-se para Will. Se ela conhecia seu irmão, é lá que ele estaria. "Ali", disse ela, apontando para sua vasta silhueta na noite.

"Ah, agora você quer estudar?" disse Plink, tropeçando em direção às amigas, quase histérica.

Não era apenas Will que a atraía para lá, porém. Era no centro do campus; se os reitores e professores escolhessem qualquer lugar para resistir, seria ali — e seu irmão nunca parara de falar sobre todos os feitiços poderosos guardados naqueles velhos tomos empoeirados. Vamos torcer para que você esteja certo, Will.

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"Professora Onyx, cuidado!"

Liliana girou ao grito de seu estudante no exato momento em que um agente Oriq enviou uma espiral sibilante de energia contra ela. Era um feitiço vicioso, algo destinado a sugar-lhe a vida — mas ela era bem experiente em magia como aquela. Parou o feitiço a centímetros de sua palma estendida e o observou friamente. Atrás dela, a multidão de estudantes que estivera em seu salão de palestras momentos antes encarava, boquiaberta e aterrorizada. Ele poderia ter atingido eles, pensou ela. Bem. Justo é justo. Com um gesto, Liliana enviou-o correndo de volta para o conjurador, duas vezes mais faminto que antes. Ele tentou recuar, mas a magia voraz o devorou antes que ele tivesse chance de sequer gritar.

Os Reitores Kianne e Imbraham vieram juntar-se a ela, trotando pela trilha que levava à Faculdade Quandrix atrás de outra onda de estudantes. "Professora Onyx", disse Imbraham naquela voz alta e estranha dele. "Estamos sendo perseguidos por um inimigo muito curioso. Sugiro que nos reagrupemos com o restante da faculdade no—"

Ele foi cortado por um grito; um estudante ficara para trás. "Vão!" Imbraham latiu. "Vou vigiar este grupo."

Partiram imediatamente, Kianne e Liliana emparelhando o passo. Outro grito seguiu; desta vez, podiam ver o estudante, desabado no chão e encolhido conforme um monstro semelhante a um inseto assomava sobre ele. "Caçadores de magos", Kianne siseou sob a respiração. Liliana conseguia ver mais deles fervilhando das sombras, suas pernas pontiagudas clicando contra os paralelepípedos de pedra.

A criatura empinou-se, os segmentos de seu corpo brilhando, e Kianne enviou uma lança geométrica de força perfurando-a. Liliana agarrou o estudante aterrorizado e o empurrou para trás dela. "Saia daqui."

Algo mais captara sua atenção, porém — em meio à escuridão rastejante de todos os lados, parecia haver uma figura humana, um homem em um estranho uniforme vermelho. Ao menos ela pensou que fosse humano ao primeiro olhar; havia algo errado com seu rosto, um afunilamento e alongamento das maçãs do rosto que a lembravam de mandíbulas. Ele travou os olhos com ela e, com uma coordenação misteriosa, todos os outros caçadores de magos surgiram em direção a elas.

"Quem é aquele?" disse Kianne.

"Não sei", Liliana disse. "Mas parece que ele está controlando estas criaturas de algum modo."

O rosto da Reitora Kianne retorceu-se em horror. "Todas elas? Nunca vi magia como essa antes."

"Sempre existe um feitiço", murmurou Liliana. Ela estendeu a mão e fios negros de magia dispararam das pontas de seus dedos, mas antes que pudessem fazer contato com ele, uma das criaturas lançou-se no caminho. O feitiço enterrou-se em sua casca, fazendo sua quitina rachar e esfarelar em pó.

Defenda o Campus | Arte de: Izzy

Ao seu lado, a Reitora Kianne ergueu as mãos, luz brilhando ao seu redor. Em segundos, uma horda de fractais angulares e semelhantes a gatos se reunira. Os constructos saltaram para frente sob sua direção, colidindo com a onda de caçadores de magos que se aproximavam. O homem no casaco vermelho desapareceu de volta na multidão de corpos espinhosos e revoltos, e Liliana estava se inclinando para frente para persegui-lo quando algo a parou.

Todo esse caos. Um ataque por todo o campus, sem nenhum objetivo aparente a não ser destruição e desordem. Por quê?

Porque, como Liliana percebeu com um pavor crescente, não era um ataque — era uma distração.

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Will correu. Correu o mais rápido que pôde, tentando não pensar na criatura horripilante atrás dele e em suas muitas pernas, ou na queimação em seus pulmões conforme se esforçava mais, ou na grama úmida sob seus pés que seria tão fácil de escorregar—

Espere. Sem parar, Will baixou a mão em direção ao chão e aplicou um pouco de foco. Atrás dele, o orvalho da noite condensou-se em gelo duro. Ele virou-se, olhando por cima do ombro bem a tempo de ver uma das longas pernas do monstro derrapar para o lado, colapsando sob ele.

"Isso!" gritou Will, pouco antes de trombar em algo espinhoso e imenso.

Ele ricocheteou na casca da segunda criatura conforme ela chicoteou uma garra contra ele, arranhando seu uniforme mas errando qualquer coisa importante. Caindo ao chão, rolou para um lado conforme outra garra enterrou-se na terra onde sua cabeça estivera um momento antes. Will estendeu os braços cegamente, fazendo contato com sua seção média blindada, e drenou o calor dela tão rápido que um racha abriu-se no meio da casca. A criatura recuou, guinchando, mas àquela altura a outra já se levantara e estava deslizando em sua direção.

Caçador de Magos | Arte de: Mathias Kollros

Subitamente, um rugido preencheu o ar, o som rolando pelo céu. Mais rugidos responderam até que o chão tremeu com a cacofonia. A criatura saltou para longe de Will e quase galopou em suas muitas pernas, movendo-se rápido — mas não rápido o suficiente.

Uma coluna de fogo disparou do céu e varreu o chão. Ao redor, Will ouvia os gritos das criaturas invasoras, sentia o cheiro de carbono no ar conforme suas cascas queimavam, estalavam e enegreciam. Em um momento, não passavam de cinzas, espalhadas pelo vento pelo bater de asas gigantes.

Will jogou os braços sobre a cabeça, convocando placas de gelo ao seu redor conforme outra rajada de chama rasgou o pátio. Foi mal e mal o suficiente para protegê-lo do calor escaldante, mas Will não conseguiu conter o grito de alegria que irrompeu dele. Os dragões tinham vindo.

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Rowan virou-se ao som de seu nome, deixando suas amigas correrem em direção ao campus principal. Lá, com uma espada de gelo na mão e um talho de aparência boba cruzando a frente de seu uniforme, estava seu irmão. "Will!"

Correram um em direção ao outro e caíram em um abraço, apertando-se com força. Quando Rowan se afastou, franziu o cenho para a arma improvisada na mão dele. "Onde está sua espada?"

"No nosso quarto", Will disse entre respirações ofegantes. "Vim o mais rápido que pude."

"Cuidado!" alguém gritou atrás deles. Rowan mal teve tempo de registrar o agente Oriq saindo de trás da cerca viva; conforme ele estendeu a mão, espinhos de energia letal vermelho-sangue lincando em direção a eles, ela derrubou Will no chão.

Houve um som de gurgle, depois silêncio; Rowan levou um momento para perceber que fechara os olhos. Quando os abriu, viu o Oriq estirado no chão. Perto estava a familiar presença severa da Professora Onyx, que girou sobre eles com aqueles olhos violetas frios. "Vocês dois. Por que não estão se abrigando?"

"Fomos atacados", disseram — quase ao mesmo tempo.

"Nos dormitórios Prismari", disse Will.

"E nos Murchasabugo", disse Rowan. "Eles estavam nos cercando — quase como se estivessem tentando nos manter em um lugar só."

"Isso é porque estavam", disse a Professora Onyx. "Isto é parte de alguma distração."

"Distraindo-nos de quê?" perguntou Will.

"Não tenho a resposta para isso", disse ela. "Ainda não. Mas sei de uma coisa — os caçadores de magos não estão apenas encurralando os estudantes. Formaram um perímetro ao redor do Biblioplex."

Um perímetro. Rowan não gostou do som daquilo. Uma parede viva de espinhos, daquelas gavinhas roxas brilhantes, de dentes estalantes. "O que deveríamos fazer?"

A Professora Onyx voltou aqueles olhos violetas para ela, então. "Se eu fosse uma professora responsável, levaria vocês dois para algum lugar seguro. Manteria vocês bem longe de tudo isso."

"Mas a senhora não vai fazer isso", disse Rowan. "Vai?"

O canto da boca da professora contraiu-se — Rowan quase chamaria aquilo de um sorriso. "Não. Não sou tão responsável assim. E preciso de ajuda."

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"Então este é o nosso caminho para dentro?" disse Will, colocando a mão no círculo de pedra. Parecia incrustado em uma das colinas ondulantes na seção mais selvagem do campus Murchasabugo.

"Sim. É uma antiga passagem de manutenção que encontrei quando era estudante." A professora pousou a mão na porta e murmurou algo sob a respiração. Com um ranger lento que pareceu alarmantemente alto para Will, o círculo de pedra afastou-se, recuando para dentro da lateral da colina. No outro lado havia um longo túnel escuro.

"Deixam estudantes virem aqui embaixo?" perguntou ele.

Rowan e a Professora Onyx ambas arquearam uma sobrancelha.

"Não", disse Will. "Não, imagino que não."

Rowan convocou uma bola de luz estalante em sua mão e deu alguns passos cautelosos túnel abaixo, a professora e Will seguindo logo atrás.

"Vai haver, hum", começou Will, "alguma coisa esperando por nós lá embaixo?"

"Não sei", disse a Professora Onyx. "É possível. Ninguém em Strixhaven usa estes túneis há muito tempo, mas dificilmente sou a única que sabe sobre eles. Acredito que Extus tem enviado seu povo por eles há meses agora."

"Extus?"

"O homem responsável por tudo isto. O líder dos Oriq."

Will sentiu algo prender em sua garganta. "Ah. Então a única coisa com que precisamos nos preocupar é um bando de magos assassinos empunhando magia negra."

"Se emproe, Will", disse Rowan. "Não é nada que já não tenhamos visto antes."

"É mesmo?" a Professora Onyx pareceu divertida. "Vocês dois dificilmente são os heróis mais prováveis em tudo isto. Mas suponho que não sou eu quem deve falar."

O que aquilo significava, Will não fazia ideia.

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Extus marchava pelos corredores curvos do Biblioplex, passando uma mão pelas finas prateleiras de madeira. Tanta sabedoria naqueles livros velhos — e no entanto nem uma gota dela parecia estar ajudando-os agora. Era estranho ouvir o silêncio habitual deste lugar mais uma vez, apenas que agora o silêncio era ocasionalmente quebrado pelos gritos de um estudante pego lá dentro.

"Extus!"

Ele virou-se ao som de seu nome. Um de seus agentes aproximou-se, carregando um livro pesado com páginas amareladas e desfiadas. Tavver, se julgava a voz corretamente — um membro mais jovem, e bem dedicado à causa. Já estivera em várias missões nas profundezas da escola.

"Encontrei na Ala Leste, exatamente como o senhor disse, senhor."

"Belo trabalho." Extus pegou o livro e limpou uma camada de poeira. Letras douradas brilhavam na luz baixa.

"O que é, senhor? Se não se importa que eu pergunte", disse Tavver.

"A obra de outra mente brilhante ignorada e deixada para apodrecer. Eles são tão rápidos em nos descartar se não servirmos ao seu propósito." Ele estendeu uma mão, sentindo-se benevolente. "Você será recompensado por tudo o que fez hoje."

Exatamente quando o agente pegou sua mão, Extus avistou a estudante em vestes Platinapena por cima do ombro dele. Ela sangrava muito, um braço pendendo inerte ao seu lado, mas ela os fuzilava com o olhar com uma expressão de fúria total. Ele sentia o ódio irradiando do feitiço que ela estava tecendo, um orbe de escuridão perfeita, que ela chicoteou direto em sua direção.

Sem hesitação, Extus apertou o aperto no braço de Tavver e o puxou para perto, girando-o para o caminho do feitiço. O corpo do agente curvou-se sob o impacto, um grito ricocheteando dentro de sua máscara conforme ele amoleceu e caiu no chão. A estudante ergueu os braços, tentando reunir mais energia, mas estava exausta. Extus lançou um dardo de energia crepitante voando pelo ar que atingiu a estudante em cheio. Conforme ela desabou, a biblioteca ficou silenciosa mais uma vez.

Ele olhou para baixo para o corpo de seu agente mascarado, agora imóvel. Sem um segundo olhar, Extus prosseguiu.

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"A senhora encontrou isto como estudante?" maravilhou-se Will, sua voz ricocheteando misteriosamente pelas paredes do túnel de pedra.

"Há quanto tempo foi isso?" perguntou Rowan. Ela segurava a única luz deles, um pedacinho de magia de centelha saltitante que fazia coisas estranhas com suas sombras.

"Há muito, muito tempo", a Professora Onyx disse. "Era uma época muito diferente, e eu era uma pessoa muito diferente naquela época."

Emergiram no que parecia uma câmara de caverna. Acima, o teto de pedra cinza desaparecia na escuridão. Um abismo separava a borda onde estavam de outro túnel, que ele mal conseguia distinguir na luz baixa; uma ponte de madeira cruzava o abismo.

"Hum, há algum outro jeito de atravessar?" Will perguntou, observando a corda desfiada e as tábuas de aparência ancestral.

"Sabe, nunca descobri." A Professora Onyx pisou levemente na borda da ponte. Rowan seguiu-a, pisando com velocidade alarmante sobre as pranchas podres.

"Vá devagar", Will disse, seu passo constante e lento atrás dela.

"Cada minuto que desperdiçamos aqui é um que os Oriq passam ferindo as pessoas", Rowan disse por cima do ombro. Cada passada para frente enviava pedaços de madeira caindo no abismo abaixo.

Um estalo partiu o ar, ricocheteando nas paredes. Pedras caíram conforme nuvens de poeira floresceram ao redor deles. Rowan deu mais um passo e a madeira quebrou sob ela.

Will mergulhou conforme Rowan caía, travando uma mão no pulso dela. Derrubando mais pranchas, ele puxou e içou, levantando Rowan de volta através da ponte. Caíram em um monte, então rastejaram o restante do caminho.

"Valeu", disse Rowan, com a voz trêmula.

"Você faria o mesmo por mim."

"Venham", disse a Professora Onyx, no outro lado. Mal parecia ter notado sua experiência de quase morte. "Depressa."

"O que ele quer?" disse Will. "Extus, quero dizer. Para que ele está aqui?"

"Há inúmeras coisas que ele poderia estar buscando. Tomos de grande valor, artefatos mágicos — o Biblioplex está cheio de coisas que um aspirante a megalomaníaco poderia querer."

"Então para onde a senhora está nos levando?"

"Estou levando vocês para onde eu iria, se quisesse causar o maior dano possível."

Will apenas ficou olhando conforme ela continuava túnel abaixo.

"Precisamos continuar nos movendo", disse Rowan, cutucando-o para frente.

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Extus pousou uma mão na madeira lisa e fria das portas duplas que levavam ao Salão dos Oráculos. Estavam trancadas, mas felizmente o ataque Oriq acontecera rápido demais para que quaisquer proteções fossem ativadas e postas no lugar. Com uma breve exaustão de vontade, ele explodiu as portas de seus gonzos e entrou.

Salão dos Oráculos | Arte de: Piotr Dura

Cercando a sala estavam faces severas e enrugadas esculpidas em pedra — oráculos, mortos há muito mas não esquecidos. Extus achou notar certo desprezo em seus olhos de pedra, como se mesmo do túmulo eles não aprovassem o que ele estava fazendo aqui. Como se não achassem que ele pertencia às suas fileiras.

Não importava. Estavam mortos. E quando ele terminasse, ficariam gratos por estarem.

Seu olhar voltou-se para o teto, e mesmo com sua máscara, teve que cerrar os olhos contra sua luz. A Emanação de Strixhaven pairava no ar, gavinhas de energia chicoteando e estalando ao redor do salão. Mana das origens primordiais deste mundo, ainda revolvendo-se em um turbilhão de poder. Abaixo dela sentava-se uma série de anéis de pedra, quase tão velhos quanto o próprio vórtice — círculos de contenção, Extus sabia. Sua luz banhava a sala inteira em um brilho azul suave, enviando sombras dançando pelo chão.

Sim, pensou ele. Isto servirá.

Abrindo o livro em sua mão, folheou as páginas amareladas até encontrar o que buscava.

Passos soaram do corredor conforme agentes Oriq entravam na sala. Cada um carregava um livro ou pergaminho. Extus assentiu, grato por sua máscara esconder o sorriso vertiginoso estampado em seu rosto. "Bom. Disponham-nos como discutimos. É a hora."

Um a um, os agentes colocaram os livros e pergaminhos cuidadosamente na frente de seu líder até que os textos ancestrais formassem um semicírculo aberto diante dele. Pausando por apenas um momento para saborear a ocasião, Extus começou a ler.

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Liliana esperava ter que lutar seu caminho até a Emanação — não havia como os Oriq deixarem seu prêmio supremo sem guarda, afinal — mas não esperava que seus protegidos fossem tão entusiastas sobre esta parte de sua "aventura". Mal teve que matar ninguém; ao primeiro sinal de um dos Oriq mascarados, Rowan o atingia com uma corrente de energia que o deixava se contorcendo no chão. Até Will fora bem útil, formando cascas de gelo ao redor dos agentes Oriq caídos para que, quando seus músculos parassem de ter espasmos, não conseguissem fazer muito mais que tremer. Quando alcançaram o Salão dos Oráculos, porém, as portas já estavam destroçadas. Lá dentro, ela conseguia distinguir um grupo de figuras mascaradas silhuetadas pela luz ondulante do vórtice em seu interior. No centro deles, um deles entoava algo de um grande e pesado tomo.

Conseguia sentir as correntes arcanas no ar mudando, ouvindo, de um jeito que sentira vezes demais antes. Magia negra poderosa estava em ação aqui; até os gêmeos Kenrith pareciam notar algo, ambos ficando bem imóveis ao lado dela.

"Chegamos tarde demais", Liliana disse. "Ele já se vinculou à Emanação."

"Ainda não chegamos não." Rowan foi a primeira a quebrar o transe que parecia prender a todos, correndo para dentro da sala.

"Espere!" chamou Will, correndo atrás dela antes que Liliana pudesse impedi-lo. Tolinhos — não podem enfrentá-lo com tanto poder à disposição dele! pensou ela.

Já os magos mascarados estavam se virando, as mãos acesas com fogo brilhante e veneno borbulhante e outros feitiços crus e viciosos. Rowan gritou com uma mistura de fúria e um deleite assustador conforme relâmpagos rastejavam por sua pele e saltavam para um grupo de Oriq, poder desenfreado liberado. Fumaça subia de baixo de seus capuzes conforme colapsavam. Essa garota já é uma força a ser reconhecida, pensou Liliana. Mais alguns anos, e ela será verdadeiramente aterrorizante.

Mas Rowan ainda era inexperiente demais para sentir o agente Oriq estendendo a mão atrás dela, dedos estalando com poder matador. Liliana concentrou-se, e o tempo pareceu desacelerar por um momento conforme ela sentia, através das energias arcanas revolvendo-se no ar, a pequena luz da alma do homem. Com um empuxo selvagem de vontade, ela a empurrou para fora de seu corpo, que caiu em um monte no chão.

Foi quando o feitiço respingou sobre ela. O quê? pensou Liliana, a cabeça girando para a origem do ataque. Extus, o homem segurando aquele livro pesado, tinha uma mão estendida. Ela não sentira o acúmulo de nenhuma magia ofensiva, porém — nem o calor do fogo nem a sensação doentia da magia da morte. Com o que ele a atingira?

Subitamente a sala pareceu dobrar-se e balançar sob seus pés. Tudo girou desconfortavelmente; uma sensação de vertigem surgiu em seu estômago. Era uma sensação não muito diferente de transplanar, embora doentia e distorcida. A última coisa que viu foi o rapaz Kenrith — olhando não para ela, mas para a irmã. Aterrorizado, embora se fosse por ela ou dela, Liliana não sabia dizer. Então sua visão escureceu.

Quando abriu os olhos, a luz da Emanação sumira.

Liliana piscou conforme seus olhos ajustavam-se à escuridão. Moveu-se para sentar, sua mão arrastando-se por terra e folhas, e olhou ao redor, sua mente finalmente clareando o suficiente para reconhecer as formas da floresta ao seu redor. Magia de translocação forçada. Nunca fora atingida por aquilo antes.

Levantou-se aos tropeços. À frente, conseguia distinguir apenas uma das tochas que guiavam o caminho para Strixhaven. O campus em si estava em algum lugar na distância distante, além da vista.

Tentem não morrer, vocês dois. Estou indo — mas vai ser uma longa caminhada.

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Rowan encarou o ponto onde a Professora Onyx estivera, então voltou-se para Extus. "O que você fez com ela?"

A figura mascarada não respondeu. Com um rosnado de frustração, Rowan estendeu uma mão em direção a ele. O ar partiu-se com um rugido conforme um raio de relâmpago correu na direção dele, mas o líder Oriq apenas gesticulou em direção a ela. O relâmpago simplesmente parou, então caiu do ar, estilhaçando-se no chão como se feito de vidro. Ele acenou casualmente, como se espantasse uma mosca, e Rowan viu o ar dobrar e distorcer-se conforme uma onda de força correu em sua direção. Ela fechou os olhos e ergueu as mãos — mas em vez de ser despedaçada pelo feitiço, foi apenas atingida por estilhaços de gelo conforme a parede que Will erguera foi estilhaçada.

"Rowan, me escuta!" gritou Will, agarrando o ombro dela. "Precisamos sincronizar nossa magia, como costumávamos fazer."

"Você mesmo disse — não consigo mais controlar meus poderes!" cuspiu Rowan. "Há algo diferente agora. Nossa magia está mudando."

"É", disse Will. "Você ficou mais forte. Mas eu fiquei mais controlado. Juntos, conseguimos. Não há outro jeito!"

Mas aquilo não era verdade. Rowan olhou de volta para Extus e a tempestade de magia bruta surgindo e brilhando atrás dele. A Emanação, a Professora Onyx chamara. Conseguia sentir o poder irradiando dela, mais poder do que qualquer mago sozinho poderia usar. Conseguia pegá-lo, extraí-lo, exatamente como extraíra o poder daquele elemental de água do estudante Prismari. "Podemos fazer o que ele está fazendo — podemos extrair da Emanação. Usar o mesmo truque sujo!"

"Isso é perigoso demais!" disse Will. "É poder demais — você vai se matar! Vai destruir toda Strix—"

Ele foi interrompido por outra onda de força rugindo de onde Extus estava. Will lançou outro escudo de gelo, mas desta vez o feitiço foi forte o suficiente para atravessar e lançar ambos através da sala.

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Rowan empurrou-se até ficar sentada, a cabeça zumbindo. Não longe dali, via Will fazendo o mesmo. Algo estava se acumulando aos seus pés, percebeu ela, encharcando suas botas. Com alarme, viu que era sangue.

Não o sangue dela, porém, e não o de Will. Filetes da coisa pareciam estar se espalhando por toda a sala. Traçou o caminho deles, seu olhar derivando em direção à Emanação pendurada acima de Extus. Onde brilhara azul antes, agora brilhava um vermelho profundo.

Um rugido de abalar os ossos sacudiu o salão, enviando rachaduras estilhaçando pelas paredes e sacudindo poeira de séculos das vigas. Outra rachadura rasgou a sala e um pedaço do teto despencou em direção a eles.

Rowan mergulhou em direção a Will, e ambos tombaram para longe exatamente quando a pedra colidiu com o chão. Outro pedregulho caiu, esmagando o corpo inerte de um agente Oriq próximo e fazendo Rowan encolher-se.

Mais sangue fluiu dos círculos de pedra concêntricos no chão à frente de Extus, borbulhando como se de uma fonte. O que começara como um filete cresceu até tornar-se um dilúvio. O cheiro doce de ferro encheu seu nariz.

Sob a Emanação, Extus abriu os braços. "Erga-se, Grande! Eu o convoco, Avatar de Sangue! Descarregue sua ira sobre este mundo injusto!"

Daquele borbulhante chafariz de sangue naquele círculo de pedra, duas pontas começaram a tomar forma, esticando-se e curvando-se no formato de chifres. Algo estava se arrastando para fora.

Rowan empurrou-se para trás até atingir a parede. Não chifres, mas um elmo de bronze ancestral. O que surgiu, ensopado em sangue, era massivo e apenas vagamente humanoide. Em cada um de seus quatro braços musculosos, agarrava uma arma cruel, as bordas e espinhos muitos demais para Rowan absorver de uma vez. Era uma criatura de guerra, aquilo estava claro. Um ser cujo único propósito era desfazer o que se mantivera por séculos.

Aquele fora o plano de Extus o tempo todo. Era aquilo que vinham tentando impedir. E agora, sua falha poderia significar a morte de todos eles.

16/04/2021 | Por Reinhardt Suarez

O Mentor

Cinco minutos depois do seu primeiro encontro com Asterion, Quintorius decidiu que já ouvira o bastante de seu mentor espiritual. Aquilo não era uma revelação confortável, nem era algo que ele estivesse preparado para lidar. Tinha ficado com a impressão de que um relacionamento profundo de mentor-pupilo seria a chave para uma experiência bem-sucedida em Strixhaven. Afinal, quão frequentemente o filho pobre de um pastor tinha a chance de falar com um personagem de renome histórico sobre eventos momentâneos vivenciados em primeira mão?

Quintorius, Historiador de Campo | Arte de: Bryan Sola

Então, quando Quint finalmente recebeu sua combinação de mentor, ele correu para a Fileira de Efígies — reconhecidamente a seção mais importante da Faculdade Sapientia. Durante todo o primeiro ano e meio de seus estudos, Quint criara o hábito de caminhar pelos caminhos de pedra da Fileira de Efígies, parando para maravilhar-se com as estátuas de professores reverenciados, ex-estudantes proeminentes e heróis lendários de eras passadas. Imagine ter um deles como mentor! Que tipo de história ele poderia aprender com Golwanda, a Derramadora de Sangue, e Xandril, o Executor? Em vida, esses dois senhores da guerra haviam sido inimigos ferrenhos: Golwanda com seus Cavaleiros do Trovão, destemida cavalaria orca que unira os povos das estepes sob o selo da Glaive Carmesim; e Xandril, o herói de guerra kor que reunira os feudos sofridos da Hordelândia. Suas forças colidiram em campos de batalha encharcados de sangue três mil anos antes de qualquer estudante atual de Strixhaven ter nascido. No entanto, ali estavam eles no dia de hoje, esperando para legar séculos de sabedoria a um estudante sortudo.

Quint nunca se considerou muito sortudo. Ainda assim, quando conjurou o espírito de seu mentor em sua estátua pela primeira vez, nem ele poderia ter antecipado que o grosso daquela conversa inicial seria sobre scones. Mas foi. Extensivamente. Com geleia de amora e creme de leite coalhado. A segunda e terceira sessões não foram melhores, com tópicos oscilando entre a implementação eficiente de faixas abdominais e a higiene adequada para certas raças de cães — pequenos, encontrados com mais frequência nas bolsas de mulheres nobres e possuindo um grau incomum de rabugice que desmentia sua estatura. Não foi surpresa que o entusiasmo de Quint por seu projeto de final de período tivesse mais ou menos desmoronado ao chegar na quarta sessão.

Infelizmente, uma nota era uma nota, e notas altas eram importantes para estudantes bolsistas. Quint pensara em abordar o Reitor Plargg sobre uma mudança de mentor, mas sabia que era uma causa perdida. Fora ideia de Plargg emparelhar estudantes com estátuas recentemente escavadas. "Estudantes da Sapientia deveriam querer ser a vanguarda da história!" Além disso, Plargg não via com bons olhos estudantes que ele considerava "desistentes".

Com um suspiro, Quint encarou a estátua de seu mentor. Ela retratava um jovem trajado com o que seria a melhor armadura de placas que um ferreiro poderia fazer e ostentando o semblante gélido de um tático perspicaz. Estava com a mão no punho da espada, pronto para golpear seus inimigos. Se uma pessoa passasse por ali, não seria absurdo pensar em Asterion como um feroz comandante de cavaleiros.

Essa pessoa estaria errada.

Erguendo as mãos à sua frente, Quint desenhou os sigilos sagrados de "O Despertar" no ar. Este era o feitiço mais importante da Sapientia, a peça fundamental para qualquer compreensão construtiva da arqueomancia. Os sigilos eram um foco para a mente, permitindo que o conjurador projetasse sua vontade para trás ao longo das correntes do tempo que constantemente rodopiam ao redor de toda Arcavios. Uma vez sintonizado com essas correntes, o arqueomante simplesmente tinha que pinçar um nome ou rosto ou evento, prender-se a ele e puxá-lo para o presente.

Melhor acabar logo com isso, disse a si mesmo. Quanto antes eu completar este projeto, melhor.

O estômago de Quint apertou-se e torceu-se para dentro conforme ele alcançava o crescendo do feitiço — uma explosão brilhante de chama sem calor envolveu a estátua, preenchendo as rachaduras na pedra com incandescência dourada. Não importa quantas vezes Quint realizasse este feitiço, ele vinha sempre acompanhado por uma sensação não muito diferente de beber leite de ovelha depois de comer um pouco demais de melão da pradaria, embora ele tivesse que se perguntar se seu enjoo atual poderia ser atribuído à perspectiva de mais uma vez engajar-se com seu mentor.

Mentor Preso à Pedra | Arte de: Svetlin Velinov

"Quint, meu bom loxodonte!" disse Asterion, descendo do seu pedestal. "Estive pensando na sua pergunta da nossa última discussão, e minha resposta é eu absolutamente adoraria!"

Quint puxou um diário de sua mochila e folheou suas notas. A última coisa que escrevera eram as ruminações de Asterion sobre os prós e contras do uso de guarda-sóis. "Não sei do que você está falando."

"Eu adoraria acompanhá-lo em um grande tour pelo seu belo campus!" Asterion apontou pelo caminho em direção ao imponente pináculo do Salão de Kollema. Dezenas de estudantes do segundo ano, alguns que Quint conhecia tangencialmente, estavam ocupados fazendo a mesma coisa que ele estava fazendo, apenas com figuras históricas mais significativas. "Achei que você nunca perguntaria."

"Não perguntei", disse Quint, sentando-se no chão. "Que tal apenas conversarmos?"

"Cada vez que nos encontramos, não fizemos nada além de conversar. Certamente, isso não é tudo o que o seu projeto envolve. Que tal nos conhecermos?"

"Acho que nos conhecemos bem o suficiente", disse Quint. Pressionou uma caneta na página do seu diário.

Asterion começou a andar de um lado para o outro. "Pois bem. Imagino que você queira saber sobre minha vida, onde vivi, minha genealogia, então?"

"Na verdade, eu já tenho toda essa informação."

"Você~tem?"

"A escola tem registros extensos. Após nossa última reunião, imaginei que pouparia a nós dois o trabalho de lembrar detalhes menores." Quint voltou algumas páginas para os resumos que escrevera no dia anterior após vasculhar o Registro de Contas no Salão de Kollema. Ficara claro pela poeira e pela condição relativamente boa dos pergaminhos relativos a Asterion e sua família que ele fora a única pessoa em várias centenas de anos a olhá-los. "Seu pai era Lorde Teutamos de Pallad Reach, uma província nas Vastidões centrais. Sua mãe era Lady Crethea."

"Olha só você! O estudante fazendo seu dever de casa."

"Você tinha duas primas de primeiro grau por parte de mãe, Pasiphaë e Deianira."

"Nunca gostei daquelas duas. Bem mimadas."

"E por parte de pai, apenas um primo, Achelous. O pai dele, seu Tio Arboron, era um general razoavelmente bem conhecido, anteriormente a serviço do último monarca Jetelothiano. Também era chamado de 'A Besta'."

"Por causa de seu cheiro mais do que por sua proeza de combate." Asterion parou de andar e cruzou os braços diante de Quint. "Já que você sabe tanto, não consigo conceber o que mais precisa me perguntar."

"É sobre o fim."

"Ah."

"Uma série de relatórios indica que você foi visto pela última vez deixando os terrenos da escola viajando em direção à Gota do Pilar. Um mês depois, um grupo de busca chegou, mas uma semana de investigação deu em nada. Sua mãe comissionou a ereção de um monumento ao lado da entrada de uma caverna. Foi lá que a estátua foi encontrada há dois meses." Quint olhou para cima da página. "Isso concorda com o que você lembra?"

"Não vejo por que minhas memórias são importantes. Você tem seus arquivos."

"Exatidão em relatos históricos é extremamente importante."

"Ah. Imagino que também contribuiria positivamente para sua nota final?"

"Eu~sim."

"Você acreditaria em mim se eu lhe dissesse que não consigo bem recordar? Lembro-me até um ponto, e depois~flashes. Fragmentos, como vultos borrados iluminados por chama de tocha."

Quint fechou seu diário e o colocou de volta em sua mochila. "Então, imagino que seja isso. Acho que tenho o que preciso de você. Obrigado por sua paciência."

"Espere!" disse Asterion. "Pode me levar a este lugar — onde a estátua foi encontrada?"

Quint levantou-se e balançou a cabeça enquanto içava sua mochila às costas. "Estátuas espirituais não têm permissão para deixar a Fileira de Efígies."

"Diz quem?"

"Dizem as regras. Nenhuma estátua fora da Fileira de Efígies sem permissão de um reitor da Sapientia."

"Lembro-me de regras. Existiam no meu tempo, e sabe quem as seguia? Covardes e tolos."

Quint fuzilou seu mentor com o olhar. "É importante seguir as regras."

"Então qual foi o ponto de me trazer aqui? Para me provocar com todas as possibilidades e depois dizer 'não permitido' ou 'não possível'?" Um casal de estudantes lançou olhares de escárnio ao passarem.

"Se eu for pego, perderia meu emprego, talvez até fosse expulso da escola completamente."

"Emprego", disse Asterion, divertido. "O que é que você faz nesse emprego?"

"Ajudo uma equipe de pesquisadores em um local de escavação. Ajuda a pagar a mensalidade."

"Hum. Respeito isso. Conte-me mais sobre esse local de escavação."

"Se você precisa saber, é a caverna onde encontraram sua estátua enterrada sob um deslizamento de rochas ancestral. Temos quase certeza de que encontraremos evidências de que esta escola foi construída no topo da antiga cidade de Moragitzu-Kesh."

O rosto de Asterion retorceu-se em uma careta e, um segundo depois, ele estava estirado no chão rindo histericamente. "Você acha que Moragitzu-Kesh está em qualquer lugar a cem léguas deste lugar? Você enlouqueceu?"

"Não sou só eu. Muitos especialistas pensam a mesma coisa."

Asterion riu mais forte. "Especialistas? Mais para vigaristas."

Quint observou seu mentor. Não era o melhor em ler rostos, mas mesmo o mago da mente mais excepcional teria dificuldade em escrutinar o semblante de pedra de uma estátua espiritual. "Você não sabe do que está falando."

"Sei o suficiente para não confundir Zantafar com Moragitzu-Kesh. Você já ouviu falar de Zantafar, não ouviu? Desça os degraus, ó peregrino, ó andarilho?"

Claro que Quint conhecia Zantafar. Todos os loxodontes em Arcavios conheciam a história da famosa cidade perdida. Crianças nômades pobres contavam umas às outras as versões de suas famílias sobre o conto ao redor de fogueiras noturnas. Caçadores de tesouros de todas as convicções buscavam a cidade por suas promessas de fortuna e glória. Não surpreendeu Quint que Asterion estivesse ciente de Zantafar. O que lhe deu pausa foi a linha de poesia que seu mentor recitara.

"Como você conhece o Cântico de Jed?" perguntou Quint. Sua autoria mais frequentemente atribuída a Xyrun-Jed, o último imperador loxodonte, o Cântico de Jed persistira através das eras como uma oração em tempos de aflição, uma meditação para loxodontes em circunstâncias terríveis.

"Um passarinho loxodonte me contou", Asterion disse com um sorriso. "Bem, ele era bem grande — Vis Svokunol, meu cuidador de infância. Conheço muitos dos contos — incluindo o da sua cidade perdida. O que você acha que eu estava fazendo aqui fora há tanto tempo? Não se aventura em cavernas desoladas pela saúde. Provavelmente o oposto, na verdade."

"Zantafar? Na Gota do Pilar?"

"Sim, meu amigo de nariz preênsil. Há uma cidade perdida para descobrir. E você é exatamente o loxodonte para fazê-lo. Pense nisso como sua responsabilidade."

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Enquanto os estudantes que auxiliavam os pesquisadores na escavação iam para casa à noite, os próprios pesquisadores permaneciam no local em um pequeno acampamento a alguns metros da entrada da caverna. Isso permitia que continuassem seus esforços de limpeza e identificação de artefatos, bem como deliberassem sobre a importância das descobertas, o que promovia a camaradagem e garantia que o conhecimento fosse devidamente disseminado entre os especialistas responsáveis por documentar achados significativos para os repositórios da Sapientia.

Felizmente para Quint e seu acompanhante não autorizado, esta escavação não era a que haviam partido para explorar. Infelizmente, teriam que passar pelo acampamento no caminho para seu destino. Observaram de trás de um afloramento conforme o acampamento fervilhava de atividade. Quint avistou o Professor Hofri Forja-espíritos, o líder do projeto, aquecendo-se junto ao fogo e encarando a extensão de céu salpicada de estrelas enquanto trançava a barba.

"Há!" disse Asterion. "Os tolos não encontrarão nada naquele buraco."

"Não são tolos", disse Quint. "Foi lá que encontraram você — bem, sua estátua — sob várias toneladas de rocha."

"Minha mãe nunca foi boa em geografia. Além disso, estive naquela caverna, e garanto-lhe que não há nada mais de interesse nela."

"Isso foi há seiscentos anos."

"Isso prova o meu ponto. Com certeza, você encontrará alguns fragmentos de cerâmica, uma ou outra arma enferrujada, provavelmente deixada por viajantes como uma piada de mau gosto com fanfarrões como seus professores." Ele apontou para uma área escura fora da luz da fogueira e ao lado de uma parede de precipício. "Podemos nos esconder no mato e dar a volta."

Quint pensou pela terceira vez, tendo já pensado pela segunda no caminho para a Gota do Pilar. Apesar do escárnio de Asterion, as regras de Strixhaven eram claras, como todas as boas regras eram. Se fosse pego esgueirando Asterion para fora do campus, estaria em uma posição similar à de dois anos antes, quando o Comandante Huerty Kostambul da Academia Militar de Rundlestrom lançara toda ameaça que pudera imaginar contra a saúde física de Quint, a saúde de sua família, a honra de seu pai e as incontáveis gerações de loxodontes que emanariam de sua linhagem.

"Como um nanico insignificante como você superou três dos meus melhores cadetes?" Kostambul gritara através de uma escrivaninha juncada de todo tipo de armamento de corte. Por sua parte, Quint ficara em silêncio. Nada que dissesse naquela sala, para aquele indivíduo — um companheiro loxodonte apesar de tudo — o teria salvado. A verdade era que Quint não tinha esperança de se defender dos três brutos que decidiram que era o dia dele de sofrer trote — nenhuma esperança física, ao menos. Felizmente, ele sempre soubera que podia fazer as coisas se moverem, torcerem e girarem, caírem subitamente em momentos oportunos. Em casa, usara esses dons mágicos para impedir ovelhas fujonas de se afastarem do rebanho. Uma vez, impedira seu pai de cair em um poço fazendo a tampa fechar bruscamente. Fora uma questão razoavelmente simples alcançar e deixar cair um estandarte de parede na cabeça de um agressor, subitamente desamarrar os cadarços das botas de outro e fazer o último tropeçar, cair e quebrar o braço. Gostava de pensar naquilo como estender sua própria desajeitação aos outros. Os talentos de Quint (e sua magnanimidade) não o tornaram querido por seus instrutores.

Expulso, dizia o pedaço de papel que lhe deram antes de ser posto para fora.

Expulsar | Arte de: Billy Christian

"Quint, você está pronto?" Asterion perguntou.

"E se formos pegos?" Quint não pôde deixar de imaginar os rostos de seus pais se retornasse para casa em vergonha~de novo. Da última vez, custara-lhes uma armadura e armas inúteis. Desta vez, seria reconhecidamente pior. Perderiam qualquer noção de que Quint tinha um destino além de pastorear ovelhas.

"Não pense desse jeito", disse Asterion. "A vida é sobre riscos! Vamos!"

Asterion liderou o caminho, e Quint não teve escolha senão segui-lo. Esgueiraram-se pelas sombras e lentamente contornaram o acampamento. Ao chegarem na metade do caminho para a trilha que descia e contornava um precipício mais baixo, o dedo do pé de Quint prendeu em uma raiz projetando-se do chão. Antes que pudesse agarrar um galho, tropeçou para frente e bateu com força no chão. Pior foi sua mochila, que virou, espalhando seus papéis e ferramentas pelo terreno rochoso.

"Quem está aí?" uma voz chamou do grupo amontoado ao redor do fogo.

Quint fez uma careta. Qual era aquele comentário no seu relatório de expulsão? Ah, sim: Quintorius Kand tem a coordenação de uma besta de carga idosa, cega de ambos os olhos e crivada de bexiga. Embora ele não tivesse colocado a coisa de forma tão dura, Quint tinha que admitir que não era exatamente o mais ágil nos pés, mesmo para um loxodonte. Olhou para onde Asterion estava, apenas para encontrá-lo sumido. Virando a cabeça, avistou um membro da equipe de pesquisa aproximando-se de sua localização, tocha em punho. No momento em que se levantou, Quint viu que era o próprio Professor Forja-espíritos.

"Quintorius?" disse ele, erguendo sua tocha. "Por que você não está no campus?"

Pensando rápido, Quint ajoelhou-se e começou a jogar suas posses de volta na mochila de forma desordenada. "Uh, sim~eu deveria estar no campus, senhor."

"Explique-se." Seu professor o observou de um jeito que fez Quint sentir-se desconfortável. Hofri ganhara renome em Strixhaven por despertar espíritos dos mortos mesmo sem um foco material como uma estátua. De que outro modo ele poderia realizar aquilo sem ter uma visão aguçada sobre os outros — inclusive sabendo quando as pessoas estavam esquivando-se desajeitadamente de perguntas diretas?

"Eu, hum, esqueci algumas ferramentas no local."

Hofri olhou para baixo e tocou com o pé a bagunça de picaretas e pincéis que Quint enfiava na mochila. "Você quer dizer aquelas?"

"Não~quero dizer meu outro conjunto. O bom. Não que eu ache que alguém roubaria—"

"Por que você não se junta a nós junto ao fogo?" disse Hofri. "Fique um pouco, tome um chá. Depois você pode pegar seu kit de ferramentas e voltar para casa."

Quint abriu a boca para recusar, mas depois reconsiderou. Uma noite tranquila com alguns dos estudiosos mais doutos de Strixhaven? A maioria dos estudantes mataria (ou ao menos mutilaria seriamente) para ter esse tipo de oportunidade. Esses professores eram praticantes ativos, não como os generais aposentados e gordos em Rundlestrom treinando cadetes em manobras de campo de batalha que eles próprios não executavam há décadas. Ter qualquer tempo com eles fora de uma capacidade oficial era raro e valioso. Ele queria aproveitá-lo, para aprender como era ser um arqueomante bem-sucedido, uma pessoa bem-sucedida no mundo.

Por outro lado, se houvesse a possibilidade de Zantafar estar bem sob seus pés, Quint queria ser aquele a encontrá-la. Pensou em como Kostambul o dispensara e então imaginou o rosto dele se descobrisse que Quintorius Kand fora o responsável por devolver Zantafar ao povo loxodonte. Pensou no orgulho que sua mãe e seu pai sentiriam, como os outros reverenciariam sua família.

Era isso o que ele queria.

"Eu deveria estar voltando", disse Quint. "Eu agradeço—"

"Isto não é sobre suas ferramentas, é?" disse Hofri. "Como estão as coisas com o seu mentor? Ainda um desapontamento?"

"Bem, o senhor sabe~"

"Você se lembra de Siulogma, certo?" Siulogma de Valdrasheen não era um nome que qualquer estudante da Sapientia pudesse esquecer. Em vida, fora uma celebrada estudiosa responsável por algumas das histórias iluminadas mais reverenciadas, incluindo Ichor e Ferro: Diálogos da Era do Sangue (um texto obrigatório no curso do Reitor Plargg sobre táticas militares). Na morte ela fora, entre outras coisas, a mentora designada de Hofri quando ele era um jovem estudante da Sapientia recém-transferido da Faculdade Prismari. "Nós nunca concordamos. O que foi que ela disse sobre mim? Ah, sim. 'Fui informada de que você tinha experiência artística! Mas o que recebi foi um estúpido sem esperança que mancha toda a busca pela criatividade! Desejo nada além de destinos ruins para você e seus parentes distantes.' Tudo porque eu não conseguia distinguir lilás de turquesa."

"Essas são cores bem diferentes."

"De fato", disse Hofri, sorrindo. "Você ficará bem voltando para o campus?"

"Acho que sim."

"Você sabe que pode falar comigo a qualquer momento. Tantos acham que estão sozinhos. Eu sei que eu achei."

"Falarei", disse Quint. "Ficarei bem."

Hofri assentiu e procedeu de volta para o fogo. Se Quint tinha algum mentor convencional em Strixhaven, Hofri seria ele. Como era possível que alguém não muito mais velho que Quint tivesse mais sabedoria que um espírito que existira por centenas de anos? Quint terminou de recolher suas posses, apenas para virar-se e ver Asterion acenando a mão de trás de um agrupamento de arbustos. Apressou-se de volta para a escuridão onde seu mentor estava agachado rente ao chão.

"Conversa hábil ali, Quint", disse Asterion. "Agora, rumo a coisas maiores e melhores, hein?"

"Coisas maiores e melhores", Quint repetiu.

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A caverna para a qual Asterion levou Quint não portava nenhuma característica de uma localização notável. Não havia sinais — ao menos de início — de uma cidade, fosse perdida, achada ou meramente extraviada, nem havia indicações de que a própria caverna fosse algo além de uma formação natural. No caminho para lá, ele e Asterion contornaram alguns fossos irregulares que Quint conjeturou serem pedreiras antigas de onde fora extraída a pedra destinada a Strixhaven.

"Chegamos", disse Asterion, que liderava o caminho segurando a tocha sempre-acesa de Quint. O chão da caverna descia suavemente, mas não uniformemente; em vez disso, o solo descendia como um conjunto de degraus naturais até achatar-se em uma grande câmara com uma única coluna de pedra no centro e nenhuma outra saída. Asterion caminhou ao redor da coluna, segurando a tocha perto da rocha para inspecioná-la enquanto Quint permanecia ao lado com os braços cruzados. "Lembro-me distintamente desta formação."

"E então?"

Asterion pousou a mão na superfície da coluna e encarou-a, como se apenas naquele momento tivesse percebido que seu corpo não era de carne e sangue mas de pedra fria. "E então" — ele empertigou-se e tirou a mão da coluna — "descobriremos juntos, não é?"

Juntos, inspecionaram a câmara em busca de qualquer sinal ou sigilo, qualquer leve traço de algo fora do comum. "Algo não faz sentido", ele disse.

Asterion olhou para cima da análise da base da coluna de pedra. "Como o quê?"

"Ninguém se deparou com esta caverna entre quando você esteve aqui e agora? Milhares de pessoas estiveram por toda a Gota do Pilar ao longo dos séculos. Sua descoberta deveria ter sido inevitável."

"Possível não é o mesmo que inevitável, Quint."

"Mas ao longo de todo esse tempo—"

Quint pousou sua mochila e vasculhou-a até puxar um pergaminho cor de bronze, que desenrolou sobre o chão. Asterion aproximou-se e inclinou-se, segurando o fogo silencioso da tocha perto do papel.

"Em branco", disse Asterion. "Um tanto anticlimático, não acha?"

"É magia", disse Quint, irritado tanto com a teimosia de Asterion quanto com seu próprio descuido óbvio. Tanto a pesquisa quanto operações militares possuíam o mesmo primeiro princípio — saiba o que você sabe antes de procurar o que você não sabe. Imaginou o Comandante Kostambul rindo de sua tolice por não ter contabilizado seus recursos até aquele momento.

Pairou as mãos sobre o papel e sussurrou, "Radiância, lembrança." Um único ponto de energia dourada brilhou na página. Dali, vários raios espalharam-se como linhas controladas de eletricidade desenhadas por um cartógrafo invisível mapeando toda a paisagem da Gota do Pilar. Quint apontou para um local ao lado de uma marcação de entrada de caverna. "É aqui que fica a localização do sítio de escavação." Então traçou o dedo por uma trilha passando pelo acampamento — a trilha que ele e Asterion presumivelmente seguiram — notando as pedreiras e o leito do rio. "E aqui estamos nós", disse ele, tocando outra marcação na extremidade norte da serra.

"Não vejo como isso muda as coisas."

"Estes são marcos mapeados por outros exploradores no passado de Strixhaven", disse Quint. "Outros já estiveram aqui."

"Este é o lugar, Quint."

"Então não sei o que dizer", disse Quint, enrolando o pergaminho e sentando-se com as costas contra a parede de pedra fria. "Não tem nada."

Asterion sentou-se ao lado de Quint. Nenhum dos dois falou. Pensamentos corriam pela cabeça de Quint. Por que acreditara em Asterion sem nenhuma evidência? Por que não usara o mapa quando estavam de volta ao campus para provar que ele estava errado? O que o possuíra a mentir para o único professor que lhe mostrara qualquer tipo de empatia?

Voltou sua raiva para seu mentor. "Você tinha tanta certeza!" gritou ele, sua voz ecoando pela caverna. "Isto foi uma perda de tempo, e você~você é~"

Asterion deu um tapinha no joelho de Quint. "Acredito que o termo preciso seja 'um desapontamento'." Ele sorriu conforme a expressão de Quint mudava de raiva para surpresa e culpa. "Em vida, eu era parcialmente surdo do ouvido esquerdo. Isso me treinou para ser altamente atento."

Quint não percebera que seu mentor ouvira sua conversa com Hofri. "Por que você não disse nada lá no sítio de escavação?"

"Eu esperava provar que você estava errado", disse Asterion. "Eu tenho sido um desapontamento, não tenho? Aqui está você, buscando orientação de um ancião, e tudo o que recebe é um bufão bradando sobre creme de limão e seus contos inflados de conquista romântica."

"Inflados?"

"Alguns, não todos", disse ele. "Mas você deve acreditar em mim que Zantafar é algo sobre o qual não estou exagerando. Essa é a verdade."

"Não acredito que você esteja mentindo", disse Quint. "Só acho que você está enganado."

"Vis não estava enganado", Asterion disse com uma gravidade silenciosa.

"Você deve ter sido próximo dele."

Um ser humano ser amigo próximo de um loxodonte não era nada muito notável no dia de hoje. Quint só precisava caminhar pelo campus para ver vampiros, kor e goblins engajados no cotidiano juntos. Mas no tempo de Asterion, um nobre como ele tornar-se amigo de um veterano loxodonte grisalho das guerras não era uma vitória pequena. Sua reputação só tinha a perder ao associar-se com um caipira rústico que não poderia possivelmente entender as nuances da sociedade refinada — ao menos era como os contemporâneos de Asterion teriam percebido a coisa. Aquela amizade fora uma explosão silenciosa, que fornecera a base para Strixhaven tornar-se um refúgio para todos.

"Vis era um bom homem", Asterion começou. "Mas todos têm um passado. Alguns celebram o seu. Outros fogem. Vis cuidou de mim até eu assumir os deveres senhoriais de meu pai quando ele ficou enfermo demais para viajar. Eu visitava cidades, administrava conselhos de aldeias. Esse tipo de coisa. Eu não era muito talhado para isso. Digamos que era difícil para mim na época empatizar com aqueles que tinham tão pouco. Mas desempenhei meu papel porque tinha que fazê-lo. Um dia, quando eu estava em uma aldeia de fronteira, recebi um comunicado da minha mãe me dizendo que Vis fora preso."

"Preso por quê?"

"Um mercador viajando por Tarangrad identificou Vis como um infame mercenário loxodonte conhecido em línguas humanas como 'O Açougueiro'. Alegadamente, ele incendiara aldeias em nome do Império Kathorrano, depois dera meia-volta e fizera o mesmo pelos seus vários inimigos. Quando alcancei Tarangrad, era tarde demais. Vis fora colocado no pelourinho na praça da cidade. Por três dias inteiros, deixaram-no despido e humilhado. Sem comida, sem água. O povo seguia com seus negócios, ignorando seus gritos. Conversavam com seus amigos, compravam mercadorias no mercado central, discorriam sobre o clima enquanto ele lentamente ficava cada vez mais quieto, até ficar em silêncio. Depois, seu corpo foi jogado em uma cova comum de indigente."

"Por que seu pai não interveio?"

"Ele interveio. Os aldeões exigiram que um homem velho e manco cumprisse seus deveres senhoriais e pronunciasse uma sentença. Longe de um homem do povo recusar, certo? Quando o confrontei, ele não me deu uma resposta sobre por que condenara Vis à morte — apenas que estava vinculado à lei. 'Estas são as regras', ele insistiu."

Histórias como esta não entravam em grandes épicos históricos — nobres menores e armas de aluguel existiam há tanto tempo quanto as pessoas vinham disputando o poder. A maioria nunca justificava uma entrada em uma enciclopédia de historiador. Certamente alguém como Siulogma não desperdiçaria tinta escrevendo os nomes de Asterion ou de sua família, muito menos de um servo que fora piloriado. Estudantes da Sapientia não aprenderiam sobre a história de Asterion em nenhuma aula que fizessem, não importa quão avançada.

"Não sei se Vis fez aquelas coisas", disse Asterion. "Gostaria de acreditar que não. Mas mesmo que tenha feito, ele merecia sua palavra em vez de um julgamento sumário. Quando as regras são injustas, Quint, elas nos transformam em tiranos. Deixei aquele lugar naquele dia para nunca mais voltar. De um jeito ou de outro, eu ia compensar o crime de meu pai. Encontrar Zantafar em nome de Vis pareceu um bom primeiro passo."

Quint levantou-se e estendeu a mão para seu mentor. "Talvez estejamos negligenciando algo."

Asterion pegou a mão de Quint e levantou-se. "Você acredita em mim?"

"Acredito na possibilidade", disse Quint, incapaz de conter um sorriso que se espalhava pelo seu rosto. "E já chegamos até aqui, então por que não ter certeza absoluta de que checamos tudo?"

"Esse é o espírito! Então por onde começamos?"

"A legenda", Quint começou. "A maioria das versões começa com uma descrição da cidade."

"É como eu lembro."

"E então a queda. Às vezes os elfos são os culpados, outras vezes trolls ou anões."

"Correto. Sempre uma traição", disse Asterion. "Testemunhando a destruição de seu povo, Xyrun-Jed decidiu que preferia ver a cidade cair a vê-la ser saqueada e tomada."

"Alguns disseram que os deuses da antiguidade enviaram um grande terremoto por justiça. Outros narradores falam de um exército espectral de ancestrais loxodontes puxando a cidade para o abismo. E no entanto outros conjeturaram que o próprio Jed era um mago secreto e usara sua magia para selar a cidade em um reino onde seus inimigos não pudessem entrar e reivindicar seus segredos. O resultado final foi o mesmo não importa o quê: os loxodontes foram espalhados pelos cantos distantes das Vastidões, para nunca mais serem reunidos até que a cidade de Zantafar não estivesse mais perdida."

"E então o Cântico de Jed."

"Não", disse Quint. "Ele referencia Zantafar mas não faz parte da lenda."

"Vis sempre o incluía quando contava a história", disse Asterion. "Ele dizia que era a parte mais importante — o coração dela. Foi o que o pai dele lhe dissera e o pai dele antes dele."

"Por que seria" — uma ideia invadiu a mente de Quint que era tão absurda que tinha o toque da verdade — "se Zantafar tivesse sido engolida por um cataclismo ou uma maldição de espíritos ancestrais, ela estaria verdadeiramente perdida para sempre. No entanto, se Zantafar tivesse sido escondida, aqueles que a esconderam teriam garantido que apenas as pessoas certas pudessem ter acesso."

"Um loxodonte", disse Asterion.

"Ou alguém que conhecesse as histórias do povo loxodonte." Quint aproximou-se da coluna de pedra e falou as linhas do Cântico de Jed em voz alta:

Desça os degraus, ó peregrino, ó andarilho.

Para encontrar Zantafar, você deve buscá-la,

Para buscar Zantafar, você deve abraçá-la,

Para abraçar Zantafar, você deve aceitá-la,

Para aceitar Zantafar, você deve conhecer seu coração.

Um estrondo baixo sacudiu a caverna e, com um som de moagem, a coluna recuou para dentro do chão, deixando um buraco que levava à escuridão total.

"Lembro-me", Asterion começou a dizer conforme ele e Quint aproximavam-se do buraco. Seu corpo inteiro sentindo-se revivificado, Quint cavocou em sua bolsa até pescar um martelo, pítons e corda. Martelou um píton na pedra e amarrou uma extremidade da corda nele, puxando o nó bem firme.

"Vou descer", disse ele, segurando sua tocha com a tromba. Quint arrastou-se para a borda do buraco e apertou o aperto na corda. Não vinha som nenhum de baixo — nem vento, nem água, nem evidência de movimento. "Quando eu gritar, você pode seguir, ok?"

"Espere", disse Asterion. "Você percebe que se eu cheguei até aqui, eu não retornei."

"Eu percebo. Mas isto é importante demais para recuar agora."

"Como seu mentor, gostaria de aconselhá-lo a ser mais prudente."

"Agora, de todas as horas?"

"Você sabe como é estar morto?" perguntou Asterion. "É estar em um lugar de névoa e silêncio, vagando por corredores que terminam abruptamente ou se voltam sobre si mesmos infinitamente. Escadas que não levam a lugar nenhum e colinas que descem ao infinito. É existir em um lugar de esquecimento, de vagar sem fim sem propósito. Cada grande porta leva a um armário de vassouras encardido. Cada persiana abre-se para uma janela obscurecida por sujeira implacável. É para onde vou quando não estou com você. Não sei se é a minha penitência ou se este é o destino de todos que morrem, mas eu te pouparia disso se pudesse. Gostaria de não ter mais morte em minha consciência."

"Eu entendo. Mas não estou aqui sozinho, como você esteve. Se algo acontecer, puxe-me para cima."

Quint dobrou os joelhos e aprumou os ombros enquanto inclinava-se de volta sobre o buraco. Asterion ajoelhou-se junto ao píton e deu-lhe um aceno. Com um empuxo das pernas, Quint baixou-se na escuridão. No primeiro minuto, tudo o que conseguia ver era a parede de rocha. Mas logo a abertura alargou-se em uma grande câmara. A princípio, pensou que o reflexo na parede da câmara fosse algum tipo de depósito mineral. Mas conforme descia, o brilho provou vir de uma enorme estátua dourada de um loxodonte em repouso, carregada de pedras preciosas incrustadas e jade que ofuscaram seus olhos. Apequenava facilmente a estátua de Kollema, um dos primeiros professores da Sapientia, no centro do salão que levava seu nome.

Descoberta Emocionante | Arte de: Campbell White

Quint alcançou o chão e gritou para Asterion descer enquanto via de perto a estátua. Nenhuma placa de identificação presente, mas não pôde evitar pensar que este era um monumento ao próprio Xyrun-Jed. Se fosse feita de ouro puro, como Quint suspeitava ser, seu valor poderia exceder os tesouros de algumas das maiores nações das Vastidões. Este tesouro era nada, porém, comparado ao que jazia além dele.

"Quint", ouviu ele vindo de trás. Era Asterion, parado sobre o que Quint pensara ser um monte de terra no chão.

Quint aproximou-se e viu um corpo humano, ou o que restava de um após seiscentos anos. Pedaços de metal presos a retalhos de pano cobriam o cinza-azulado da carne mumificada. Em uma inspeção mais próxima, Quint avistou quebras e fraturas em alguns dos ossos expostos. A perna esquerda estava dobrada de um jeito não natural, oposto ao joelho, e o braço esquerdo parecia ter sido quebrado em vários lugares.

"Eu caí", disse Asterion. "Não achei que fosse tão fundo. Que erro estúpido e impetuoso. Achei que tinha feito algo tremendo quando era apenas um tolo cuja vida não deu em nada e cuja morte foi sem sentido."

Quint colocou a mão no ombro de seu mentor. "Isso não é verdade. Você encontrou algo significativo para cada loxodonte em Arcavios." Estendeu sua tocha e dirigiu o olhar de Asterion para a caverna além. "Você encontrou aquilo." Aninhada na rocha muito abaixo, uma metrópole fantasma extensa erguia-se da pedra, iluminada em um crepúsculo eterno por fungos luminescentes no alto. O pináculo de um palácio distante erguia-se sobre os telhados, convidando os primeiros hóspedes em milênios a entrarem e explorarem seus segredos. "Que tal darmos uma olhada ao redor?"

"Quint, meu amigo, estive esperando por séculos. Nem mais um momento."

21/04/2021 | Por Adana Washington

Episódio 5: Exame Final

O bramido daquela coisa na Emanação era como nada que Will já tivesse ouvido antes. O rugido alcançava o fundo de seu coração, prometendo todo tipo de violência e morte. A cada momento que passava, a criatura arrastava-se um pouco mais para fora do vórtice de poder. Acima de Will e Rowan, uma viga despencou para o chão, colidindo com um som fenomenal a centímetros de seus pés.

Despertar do Avatar de Sangue | Arte de: Kekai Kotaki

"Eles pensaram que eu nunca seria nada — que eu não pertencia aqui, com todos os seus oráculos altos e poderosos." Extus cacarejou. Ele girou, gesticulando descontroladamente para as estátuas ao seu redor. "Mas onde estão eles agora? Quem os ajudará em sua hora de necessidade?"

O riso de Extus tornou-se mais enlouquecido conforme o machado do Avatar de Sangue atingiu uma das estátuas, partindo a semelhança de um antigo oráculo ao meio. A cabeça e os braços erguidos tombaram, estilhaçando-se no chão.

Will ajudou Rowan a levantar-se, as túnicas de ambos ensopadas com o sangue que enchia a sala — mais sangue do que poderia ter sido derramado em cem batalhas. "Vai destruir a escola", disse Will, tentando evitar que sua voz tremesse.

De algum modo, porém, Rowan não parecia assustada. Havia um foco em seus olhos que ele nunca vira em aula, no salão de estudos, em seu dormitório. Ele entendeu algo sobre sua irmã pela primeira vez, então — que era ali que residiam os talentos dela. Correndo para dentro da tempestade.

"Não se pudermos evitar", disse ela, e ele assentiu.

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Lá fora, por todo o campus de Strixhaven, aquele rugido terrível ecoou. Encontrou a Reitora Uvilda selando um bando de estudantes Prismari fugitivos em uma dimensão que deveria ser usada apenas para emergências; ela virou a cabeça ao som, estremeceu e acelerou o passo em seu feitiço. Encontrou Plink e Auvernine, rastejando por um túnel escuro de raízes e terra enquanto o fogo de dragão no alto reduzia tudo na superfície a cinzas. Encontrou Lukka, mesmo através da concentração que exigia dele manter todos os caçadores de magos lutando em várias frentes. Então, está feito, pensou ele.

Lukka sorriu para Mila. "Parece que Extus conseguiu o que queria."

Ela não olhou para ele, porém, apenas encarou o céu, de olhos arregalados, pelos eriçados. Um momento depois, saltou para baixo de um toldo colapsado. Lukka não viu o que ela viu — não até que fosse tarde demais — mas confiou nela o suficiente para mergulhar logo atrás.

O fogo de dragão varreu os paralelepípedos onde ele estivera parado um momento antes, chamuscando o caminho de preto. A faixa de caçadores de magos próxima incendiou-se quase instantaneamente, guinchando e sibilando conforme morriam. Flashes de dor lancinante inundaram sua mente de uma só vez, e ele cortou o elo antes que pudesse ser sobrepujado.

Intervenção Dracônica | Arte de: Johan Grenier

Os caçadores de magos que conseguiram escapar do ataque dos dragões estremeceram e se contorceram conforme suas mentes tornaram-se mais uma vez suas. Bateram seus muitos dentes, espalharam aquelas gavinhas brilhantes e voltaram-se contra a fonte mais próxima de sustento mágico: agentes Oriq. Novos gritos encheram o ar conforme as criaturas davam o bote.

Os olhos de Lukka arregalaram-se ao absorver a carnificina. Mila deu um passo à frente, mas Lukka a parou com um rápido comando mental.

Aquela não era mais a sua luta.

Chamando Mila para o seu lado, Lukka virou-se e correu para a escuridão.

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Will esquivou-se conforme mais destroços choviam ao redor deles. Exatamente quando outra estátua caiu estrondando no chão, ele viu: uma abertura no caos. Respirou trêmulo e tentou lembrar os detalhes do feitiço de condensação iterada. Com uma exaustão de foco, criou um vórtice rodopiante de estilhaços de gelo afiados como navalhas e enviou-os zunindo em direção a Extus, que ainda estava parado diante do Avatar de Sangue. Os braços do Oriq estavam abertos; ele parecia alheio a tudo exceto à sua própria vitória.

Antes que o gelo pudesse alcançá-lo, um raio de relâmpago partiu os estilhaços, detonando-os e enviando o relâmpago ricocheteando em direções aleatórias. Rowan vira a abertura também. "Fique fora do caminho!" gritou ela.

"Precisamos trabalhar juntos!" ele gritou de volta. "Tudo o que precisamos fazer é—"

Ele foi interrompido por um pedaço de entulho cadente, que o atingiu no ombro e o enviou caindo.

"Will!" gritou Rowan, correndo em direção a ele.

Era impossível ver se seu irmão estava ferido — havia sangue por toda parte, cobrindo o chão, suas túnicas, respingando pelas paredes e sobre as estátuas.

Ela quase o alcançara quando a espada imensa da criatura cravou-se na pedra à sua frente. Estava perto o suficiente para que ela pudesse ver a ferrugem nela, o ferro marcado de batalhas travadas há eras. Com um grito furioso de sua parte, ela pressionou as mãos contra ela, enviando uma carga pela espada acima como um para-raios e para dentro da mão da coisa. O monstro apenas arrancou a espada, arremessando-a para trás.

Arrastando-se de volta contra a parede, o olhar de Rowan oscilava entre Extus, a criatura que ele convocara, e Will, que agora jazia imóvel demais no chão. Era demais. Piscando contra as lágrimas que brotavam em seus olhos, Rowan sentiu uma raiva fria subindo de algum lugar dentro de si — fúria, sobrepujando o medo e a dor. Ela não podia vencer, mas podia ferir quem fizera aquilo.

Mas antes que pudesse enviar um raio de relâmpago nas costas do líder Oriq, seu olhar mudou. A Emanação pairava no ar, ainda brilhante, mesmo em carmesim. Ainda ondulando com poder.

Rowan respirou fundo, fechou os olhos e estendeu a mão.

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O edifício tremia ao redor dele, o Avatar de Sangue do mundo antigo rugia com fúria inigualável e, para Extus, tudo estava finalmente certo com o mundo. Virou-se lentamente, absorvendo a visão do Salão dos Oráculos desmoronando. Tinham sido tolos em ignorá-lo. Pode ter levado anos para provar, mas conforme outra estátua tombava ao solo e estilhaçava-se em mil pedaços, ele disse a si mesmo que a espera valera a pena.

Seu sorriso vacilou conforme a voz do Avatar de Sangue falhou, o rugido furioso subitamente interrompido. Extus girou nos calcanhares e congelou. A criatura movia-se aos solavancos e espasmos, a luz vermelha da Emanação tremeluzindo descontroladamente atrás dela. Ele vira aquele efeito antes, em seus muitos fracassos. Não pode ser.

Ele checara os cálculos. Aquilo tinha que funcionar — havia energia mágica suficiente em uma das Emanações de Arcavios para alimentar qualquer feitiço conhecido na criação. Como poderia não ser suficiente? Então ele avistou: uma espiral de carmesim fantasmagórico derivando do nexo, como se estivesse sendo extraída. Uma garentilha de poder errante.

Ele a seguiu de volta, de volta até a jovem loira no canto da sala, encarando-o agora com olhos arregalados e odiosos. Relâmpagos começaram a faiscar e estalar sobre o cabelo e a pele da garota conforme a energia da Emanação jorrava para dentro dela.

Extus encontrou o olhar dela, chocado demais para se mover.

Não havia como uma caloura patética ser aquela que arruinaria todos os seus planos.

Havia?

Estalar de Poder | Arte de: Micah Epstein

Rowan lutava para respirar conforme o ar ao seu redor faiscava e sibilava com energia. Sentia o poder correndo por ela, poder como nunca sonhara. Parecia, naquele momento, que ela poderia fazer qualquer coisa; montanhas desmoronariam diante dela, cidades queimariam, oceanos ferveriam. Abriu os olhos e arquejou ao absorver a sala através de uma névoa vermelha. Seu olhar caiu para Will, que ainda jazia no chão, imóvel. Uma nova onda de fúria e luto a inundou conforme ela se voltou para Extus.

O líder dos Oriq estava diante do Avatar de Sangue espasmódico, observando-a. Esperando.

Rowan deixou a energia da Emanação percorrer seu corpo, incendiando cada veia com poder. Mal notou conforme seus pés deixaram o chão, o vento girando como se o próprio ar a temesse. E deveria, pensou Rowan. Tudo deveria. Ela respirou fundo, transformando o ar em seus pulmões em fogo branco-incandescente, então abriu a boca e gritou. O fogo correu em direção a Extus como uma estrela, como um dardo dos céus. Ele estendeu uma mão, murmurou algumas palavras, mas o que quer que tenha feito não foi suficiente; o feitiço colidiu com ele, enviando-o voando pelo ar, as túnicas espiralando com fumaça. Ele chocou-se contra a parede distante e deslizou para baixo, imóvel e silencioso.

Rowan voltou sua atenção para o Avatar de Sangue a seguir. A criatura ainda dava solavancos no lugar, furiosa por seu massacre ter sido interrompido. Centímetro a centímetro, uma de suas espadas ergueu-se em direção a ela, mas não importava. Com o poder na ponta de seus dedos, ela poderia destruí-lo, e Extus junto com ele, e qualquer um que viesse depois. Qualquer um que tentasse feri-la, todos os que haviam ferido Will — eles todos queimariam.

Ela extraiu do poder da Emanação novamente, e foi como beber água fresca e limpa. Arcos de eletricidade chamuscaram seus braços e rosto, enviando solavancos de dor por seu corpo, mas ela não se importava. Por que se importaria? Ela era a coisa mais poderosa na sala, na escola, talvez em todo o plano. Estendeu a mão em direção ao Avatar de Sangue, buscando o choque familiar do relâmpago, e uma onda de agonia subitamente rasgou através dela.

Seus arquejos foram recebidos com risos. Através de olhos cerrados contra a dor, observou Extus de algum modo puxar-se para ficar de pé.

"Você realmente achou que era forte o suficiente para conter todo esse poder?" Extus desdenhou. "Achou que era digna?"

Rowan ignorou o Oriq. Na verdade, mal conseguia ouvi-lo — toda ela estava focada em controlar o poder que enfurecia-se dentro dela agora. O ar ao seu redor sibilava e retorcia-se como um ninho de víboras.

"Treinei nas artes arcanas a minha vida inteira", murmurou Extus. "Você não passa de uma criança. Uma tola arrogante. E agora, uma mariposa atraída pela chama."

A garentilha de poder que ela extraíra da Emanação ondulou novamente, e a visão de Rowan explodiu em branco com agonia. Toda a força deixou abruptamente seus membros e ela desabou inerte do ar, aterrissando com um baque no chão de pedra sangrento.

Extus riu. "Sua ambição é admirável. Mas cheguei longe demais para ser parado por gente como você." Virou-se, nem se dando ao trabalho de terminar o serviço, e pegou o pesado tomo que carregava antes.

O tempo alongou-se ao redor de Rowan; sentia-se rachada, oca, esvaziada. O poder da Emanação ainda ondulava por ela, fazendo seus membros dançarem e darem solavancos enquanto jazia ali. Sua consciência parecia pairar logo fora de seu corpo — perto de seu irmão, que rastejava em sua direção, arrastando-se pelo chão sangrento. Will estava vivo.

"Rowan", ele siseou entre dentes cerrados. "Levante."

Ela tentou lembrar como falar, mas só conseguiu soltar um pouco de ar.

"Por favor", disse ele, estendendo a mão para tocá-la. Retirou a mão bruscamente conforme uma faísca errante subiu de sua pele. "Você tem que levantar."

Rowan tossiu e abriu os olhos. "Sinto muito."

"Está tudo bem, Rowan. Só levante." Will rastejou para mais perto, colocando um dos braços dela sobre seu pescoço. Fez uma careta conforme faíscas saltavam e o picavam mas não soltou. "Vamos ficar bem."

"Sinto muito pela briga. Na partida de Torre dos Magos. E no Fim do Arco. Sinto muito mesmo."

"Eu também sinto muito", disse Will. Com um grunhido, ele a puxou para ficar de pé e partiu em direção à porta. Atrás de seu irmão, Rowan viu o líder Oriq erguer um pesado tomo manchado de sangue e começar a entoar.

Juntos, caminharam aos tropeços em direção às portas, apenas para Will desacelerar até parar. Ele virou-se bruscamente para ela. "É como um mascote."

"Do que você está falando?" O cenho de Rowan franziu-se mais.

Mas Will balançou a cabeça ao olhar para Rowan. "É como um mascote! Só temos que — interceptá-lo."

"Como na Torre dos Magos?" Talvez a Emanação ainda estivesse embaralhando seu cérebro, mas ela não tinha ideia do que ele estava falando.

"Como na Torre dos Magos", Will disse. "Só confia em mim nisso."

Rowan começou a responder, mas as palavras sumiram quando o rosto de Garruk lampejou em sua mente. Ela não fora capaz de ver o que Will vira, naquela época. E fora Will quem finalmente encontrara uma maneira de libertar Garruk e ganhá-lo como aliado. Will, o seu Will — seu irmão quieto, cerebral e ranzinza. Ele estava certo tão frequentemente. Talvez estivesse certo desta vez também.

"Rowan?"

Fazendo careta diante das novas pontadas de dor, Rowan buscou as últimas faíscas de magia dentro de si. "É. Tudo bem. Mostre-me o que todo esse estudo consegue fazer."

Will sorriu e virou-se em direção a Extus e ao Avatar de Sangue, luz vermelha rodopiando ao redor de suas mãos. Não era magia de gelo o que ele estava operando — ela sabia disso, ao menos — mas o ar ao seu redor caiu alguns graus de qualquer jeito. A luz vermelha moldou-se entre suas mãos em um círculo vibrante de poder e, com um último esforço, ele liberou o feitiço.

Subitamente, um halo vermelho de luz encaixou-se no lugar ao redor da cabeça elmada do Avatar de Sangue.

Culminação dos Estudos | Arte de: Bryan Sola

"Pode ser grande", disse Will entre dentes cerrados, mãos tremendo com o esforço. "Mas é uma criatura convocada. O que significa que com este feitiço, podemos controlá-lo!"

Mas a criatura não parecia muito controlada. Bramiu novamente, forçando as mãos de Rowan aos ouvidos. Abaixo do Avatar de Sangue, Extus contorceu as mãos em garras, sua própria magia saindo dele em fiapos como névoa negra. O halo vermelho ao redor da cabeça do Avatar de Sangue parecia oscilar. Era Will contra Extus, Rowan percebeu. Cada um despejava seu poder no feitiço, e Will estava perdendo. Mas seu irmão não estava sozinho.

Ela colocou uma mão no ombro dele, e ele olhou para cima, surpreso. "Rowan, o que você está—?"

"Você se concentra no feitiço. Acerte todos os detalhes. Eu faço o resto."

Talvez a magia deles fosse diferente demais agora para fundir-se perfeitamente, como costumava ser. Mas se Will ficara mais preciso, mais controlado — bem, ela ficara muito mais forte. Rowan despejou o restante de sua energia mágica no irmão, faíscas saltando e pulando por sua mão conforme seu poder fluía para ele. Ele arquejou, mas apenas por um segundo. Então, Extus soltou um grito estrangulado, e o halo vermelho encaixou-se no lugar ao redor da criatura, totalmente formado.

"Seus pirralhos!" gritou Extus. "Como ousam—"

Ele foi cortado quando uma das mãos massivas do Avatar de Sangue fechou-se ao seu redor com um som horrível de esmagamento. Depois disso, Extus silenciou.

"Funcionou!" gritou Will. "Rowan, funcionou!"

Rowan estava balançando no lugar, porém. Estava achando difícil permanecer em pé; a sala inteira parecia estar girando. Estava esgotada, totalmente vazia de poder. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta — o halo vermelho oscilou até sumir. O Avatar de Sangue rugiu furiosamente conforme uma mão era puxada de volta para a Emanação, seu corpo ensopado de sangue esticando-se e inchando de forma não natural, a convocação chegando a um fim violento. Com mais um bramido aterrorizante, ele balançou aquela espada de ferro massiva. Os olhos de Will arregalaram-se, e Rowan estava fraca demais para impedi-lo de empurrá-la para fora do caminho.

A espada chocou-se contra o chão com força aterrorizante, enviando um tremor através da câmara. Com um som como trovão, o Avatar de Sangue foi arrancado de volta para dentro da Emanação, a espada arrastando-se de volta pela pedra — e do outro lado estava seu irmão, jazendo inerte e atordoado. A alegria de Rowan por seu irmão estar vivo, não esmagado até virar pasta ou partido em dois, subitamente deu um solavanco e esvaiu-se em choque: abaixo do joelho, sua perna direita sumira.

Como se a presença daquela monstruosidade tivesse sido a última coisa mantendo a câmara unida, tudo começou a desmoronar. Vigas balançaram para o chão como clavas, o teto de pedra que sustentavam desabando no solo em blocos denteados. O chão sob eles tremeu e inclinou-se violentamente conforme Rowan tentava alcançar o irmão. Estava tão perto — conseguia ver seus olhos vítreos e distantes — quando o chão colapsou completamente. Rowan e Will tombaram e inclinaram-se para frente, caindo pelo espaço, até que subitamente um toque leve e gentil os pegou. Rowan girou descontroladamente; de algum modo, uma nuvem de névoa parecia estar mantendo ambos no ar.

"Ali", disse Will fracamente, apontando para cima para o portal da sala. Rowan olhou em direção à fonte da magia, onde os Reitores Nassari e Lisette estavam na entrada destruída. Com as sobrancelhas franzidas em concentração, enviavam golfadas de magia pelo ar, explodindo rochas e detritos cadentes. A névoa carregou-os para cima, para cima em direção à mão estendida da Reitora Lisette. Rowan buscou-a, segurando Will envolvido em seu outro braço, mas não conseguia alcançar — até que uma vinha serpenteou para fora da manga de Lisette, prendendo-se firmemente ao redor do pulso de Rowan.

Grunhindo, ela içou ambos para dentro da entrada. Todos os quatro conseguiram cair para fora da entrada exatamente quando a sala colapsou completamente, enchendo-se com uma nuvem de pedra, poeira e entulho.

"Conseguimos", murmurou Will. "Conseguimos, Ro." Seus olhos pesaram fechando. Parecia terrivelmente pálido.

"Fique parado", disse Lisette, agachando-se sobre ele. "Você está em choque."

"Ele vai ficar bem?" Rowan perguntou.

A reitora não pareceu estar ouvindo. Mordeu um pedaço de algum tipo de raiz, cuspindo-o em uma pequena concha e pressionando-o com o polegar. Quase imediatamente começou a brilhar em uma cor verde estranha.

"Ele viverá", disse Nassari, colocando uma mão no ombro de Rowan. "Depois do que vocês dois passaram, deveriam ser gratos."

O que eles passaram. Rowan olhou para trás, através da parede de detritos que agora preenchia as portas para o Salão dos Oráculos. Não havia sinal do brilho da Emanação, mas ela poderia jurar que ainda a sentia chamando por ela.

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Cinco semanas depois, conforme o sino dobrou pelo campus para sinalizar o fim do primeiro período, Will quase sentiu como se as coisas estivessem voltando ao normal. Estava se acostumando a navegar pelos corredores da escola um pouco mais devagar entre sua bengala e a treliça de gelo e aço que agora se estendia desde logo abaixo de sua rótula envolta em pano. Recusara as ofertas da Reitora Lisette de um substituto de madeira viva. Sua perna nunca voltaria, e aquilo parecia mais uma parte dele. Era um bom treino; o dia todo, uma parte de sua mente tinha que estar focada em moldar e recongelar o gelo ao redor da estrutura metálica. Uma boa distração, também, das pontadas que ainda pareciam rastejar pelo seu coto.

A notícia da luta dele e de Rowan contra Extus e o Avatar de Sangue espalhara-se pelo campus e, subitamente, Will estava recebendo muito mais atenção. Os outros estudantes pressionavam-se contra a parede conforme ele passava, seus sussurros e olhares seguindo-o. Quase o lembrava de casa — ele frequentemente via-se sentindo falta do anonimato de seus primeiros dias na escola.

Finalmente, alcançou seu dormitório. A porta abriu-se conforme ele alcançou a maçaneta, e Rowan parou bruscamente, quase colidindo com ele. Recuou para deixar Will entrar.

Will limpou a garganta. "Como você está se sentindo?"

Rowan deu de ombros. "Não exatamente de volta à força total, mas melhor. E você?"

Will bateu o dedo no cabo de sua bengala. Brevemente, as runas que Quint o ajudara a colocar — as básicas, para estabilidade e força, em oposição à variedade mais elaborada que seu amigo insistira — brilharam brevemente, correndo por todo o caminho até o pé aberto na base. "Estou me ajustando", disse ele, sorrindo.

"Como está a dor?"

"Um pouco melhor a cada dia." Embora as dores fantasmas, aparentemente vindas de músculos que não estavam mais lá, ainda o atingissem como sinistras.

"Pergunto-me o que dirão sobre isto em casa. Consegue imaginar?"

"Não realmente. Mas talvez devêssemos visitar quando o semestre terminar."

"Por que esperar? Poderíamos ir agora."

"Ainda temos aulas."

"Derrubamos um Avatar de Sangue", Rowan disse. "O que mais poderiam nos ensinar aqui?"

"Derrubamos um Avatar de Sangue com um feitiço que aprendemos aqui", Will rebateu. "E ainda não sabemos por que nossos feitiços não estão sincronizando. Ou por que só conseguimos transplanar juntos. Tem muito mais que podem nos ensinar."

Rowan revirou os olhos e sorriu. "Tudo bem. Acho que seria bom não ter que te arrastar pelo resto da minha vida. Agora, se me der licença~"

"Sim, sim", disse Will. "Dê um oi para Plink e Auvernine por mim."

Ela deslizou por ele, então parou no corredor e virou-se para ele. Atingiu Will, então, quão mais magra ela parecia; como o encovado de suas bochechas parecia muito mais escuro que antes, como se algo vital tivesse sido sugado de sua irmã. Mas o sorriso que ela lhe deu foi caloroso e verdadeiro. "Você sabe que eu te amo, né?"

"É", disse ele. "Eu também te amo."

Conforme ela se afastava às pressas, Will fechou a porta atrás de si e sentou-se na cama. Estava cansado. Fazia tempo que não tinha uma boa noite de sono. Outro semestre aqui? Outro ano? Quem sabia o que mais o futuro reservava? Fechou os olhos e estendeu seus sentidos mágicos, rastreando as gotículas de umidade formando-se em sua prótese de gelo. Primeiro princípio — redirecionamento termodinâmico. Encontre o calor e redistribua. . .

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A coruja de Kasmina voou para longe da janela e pairou sobre Strixhaven. O dano do ataque estava quase todo apagado; paralelepípedos substituídos, cercas vivas crescidas de novo. O único sinal de que sequer acontecera era o Salão dos Oráculos, que ainda era uma ruína, e o pequeno monumento que agora ficava no patamar do Biblioplex, uma estátua de pedra que mudava de rosto a cada hora. Abaixo dela havia uma inscrição: O conhecimento nunca se perde em Strixhaven. Eles não serão esquecidos. Este lugar sobrevivera a coisas piores antes. Sobreviveria a coisas piores no futuro, Kasmina não tinha dúvida.

A coruja encontrou-a na borda do campus. Ela olhou para a natureza selvagem além, sua mente fluindo para o pássaro que seguira Lukka. O vinculador andara vagando pela terra com Mila e alguns dos Oriq restantes, sem dúvida tramando mesmo enquanto buscavam comida e abrigo.

Mas ele não valia mais a pena ser observado. Era Rowan — ou, talvez, ambos os gêmeos — que agora exigia sua atenção.

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Liliana terminou de se vestir em seu escritório. Levara dias para ela voltar a Strixhaven do que se revelara ser uma floresta perto da borda do continente, mas conseguira, e depois que os reitores admitiram que deveriam ter ouvido seus avisos, convidaram-na para permanecer como professora na universidade indefinidamente — sem mais reuniões de faculdade malditas, também.

Ela concordara, mas com uma pequena ressalva.

Agora, conforme se olhava no espelho e ajustava seu uniforme, achava difícil de acreditar. Exames. Estudantes. Chega de demônios, chega de tramas sombrias, chega de morte. Seu olhar desviou para sua escrivaninha onde seus diários de pesquisa jaziam abertos. "Parece que é aqui que finalmente nos separamos, velho amigo."

Liliana fechou os diários e os colocou na prateleira ao longo da parede. Tudo considerado, ele teria ficado orgulhoso. O pensamento fê-la sorrir apesar de si mesma.

Quando finalmente chegou à sua primeira aula, Liliana tirou um momento para se recompor antes de entrar. Estudantes apressaram-se para seus assentos à sua chegada, os sons de papel sendo embaralhado e tagarelar ocioso morrendo conforme se voltavam para ela.

Liliana parou na mesa à frente da sala. "Bem-vindos ao seu curso introdutório de artes necromânticas, estudantes", disse ela, com a voz ressoando no salão de palestras. "Meu nome é Professora Liliana Vess."

23/04/2021 | Por Innocent Chizaram Ilo

Fitas Verde-Azuis

#align(center)[#strong[I.]]

Um, um, dois. . .

Zimone Wola conta os aglomerados de bolhas flutuando em seu copo de Refresco de Kiwano. O Café Faíscajato começa a encher conforme se espalha a notícia de que Ellina, a barista residente, está distribuindo bebidas grátis para magos para comemorar o fim dos exames do período. Uma abundância de risadinhas e uma nuvem de tagarelar pairam espessas acima dos magos chilreando sobre os exames de uma semana, quão difíceis ou fáceis algumas das perguntas e tarefas foram e, mais importante, a partida de Torre dos Magos de fim de período mais tarde esta noite.

Zimone, Prodígio de Quandrix | Arte de: Ryan Pancoast

Zimone para de contar.

Ela direciona seu olhar ao redor da borda do copo com foco total, dividindo a bebida em três hexágonos giratórios e sobrepostos. Então ela desacelera os giros dos hexágonos até que colidam um com o outro. Nada entorna. Nenhuma rachadura no copo. A Reitora Kianne definitivamente lhe dará uma nota perfeita por isso. A garota sorri ao lembrar da primeira aula da reitora com eles no meio do semestre, Introdução a Formas e Fractais, e como ela foi a primeira pessoa em sua classe a aperfeiçoar a escultura de formas sólidas a partir da água. Kianne baixara a ponte de seus óculos grossos até a ponta do nariz e dissera: "Por favor, diga-me que você está considerando a Faculdade Quandrix para o ano que vem."

Três, cinco. . . Zimone retoma a contagem dos aglomerados de bolhas.

"Zimone. Zimone. Zimone!!!"

No terceiro chamado, Zimone olha para cima e vê seus amigos, Amaka e Nnanyielugo, acenando para ela enquanto se espremem para dentro do café pela porta lotada. Os olhos de Zimone brilham enquanto ela acena para seus amigos virem.

"Quantos magos metidos do segundo ano você teve que lutar para guardar estes lugares para nós?" Nnanyielugo diz enquanto abraça Zimone com força.

"Por favor, me diga que não seremos metidas no próximo período quando os novos magos chegarem a Strixhaven." Amaka acomoda-se na cadeira ao lado de Zimone e sinaliza para Ellina enviar um de seus imps-garçons para anotar o pedido.

"Ah, nós definitivamente seremos metidas", Zimone diz enquanto se liberta do abraço de Nnanyielugo. "O que demorou tanto vocês dois?"

"Você não ouviu?" Nnanyielugo sussurra, então de forma mais audível para o imp-garçom que acaba de chegar à mesa deles, "Dois Refrescos de Kiwano, por favor."

"Não ouvi o quê?" Zimone pergunta.

"Claro que não ouviu, porque você saiu correndo imediatamente após entregar sua prova", Amaka interrompe.

"Queria vir aqui para guardar lugares para nós." Zimone faz beicinho.

"Enfim, todos os dez reitores das cinco faculdades fizeram uma demonstração mágica para nós. Um último esforço para nos empurrar para a faculdade certa."

O imp-garçom retorna com a bebida e recita o mantra Todas as Bebidas São Por Conta da Casa Hoje que Ellina o programou para fazer.

"Você pode até ter mudado de ideia sobre Quandrix~"

Amaka engole o restante das palavras ao notar o olhar de Zimone. Zimone cai na risada, e Nnanyielugo se junta a ela. Em pouco tempo, os três amigos estão rindo e falando alto entre goles. Nnanyielugo, Amaka e Zimone se conheceram uma semana após entrarem em Strixhaven, no Biblioplex. Estavam estudando para sua primeiríssima tarefa de telecinese mas logo entraram em uma discussão acalorada sobre qual dos elementos — fogo, ar, água ou terra — era o mais importante. O trio discutiu tão alto que a bibliotecária personificação de árvore, Isabough, teve que pedir que saíssem. Agora, com o ano terminando, os amigos se preocupam se ainda serão próximos, pois escolheram faculdades diferentes: Zimone escolheu Quandrix, Amaka Prismari e Nnanyielugo Platinapena.

"Você é Zimone Wola?" uma voz trêmula pergunta.

Zimone, Amaka e Nnanyielugo pausam seu tagarelar.

"Você é Zimone Wola?" a voz pergunta novamente.

Desta vez os amigos sabem com certeza que a voz vem do chão do café. É Wallader, o Eventual, sua maleta de castanha cheia de pacotes ainda por entregar.

"Sim, sou Zimone Wola."

Wallader aperta os olhos para cima para encontrar os de Zimone como se isso fosse certificar se a garota está dizendo a verdade. Satisfeito por algum motivo de que esta garota com manchas amarelas de sua bebida respingadas em sua gravata é de fato Zimone Wola, Wallader diz: "Um pacote chegou para você há duas semanas. Sem nome ou endereço de remetente. Leve. Embrulhado com um papel de ilusão de ótica de tijolos espiralados. Eu o teria entregue antes, mas, você sabe~"

O diminuto povo-tartaruga adora mimar qualquer um que se importe em ouvir sobre como as coisas estão no escritório, por que alguns pacotes acabam atrasados, quão cansativo é caminhar por toda a extensão de Strixhaven. Sem dúvida seu trabalho seria mais fácil e eficiente se ele decidisse usar magia ou imps como todo mundo em Strixhaven, mas Wallader nunca menciona isso.

"Um pacote misterioso", os olhos de Nnanyielugo se arregalam.

"Seu aniversário foi há duas semanas, Zimone", Amaka diz, cutucando as mãos de Zimone que agora estão unidas ao redor de sua bebida.

Zimone engole o último gole de sua bebida e arroto na palma da mão. Ela certamente sabe quem enviou o pacote — recebe o mesmo pacote, exatamente como o que Wallader descreveu, há sete anos.

"Não deveriam fazer bancos de café tão altos", Wallader resmunga. "Você não precisa alcançar o teto para a bebida descer bem." Seu casco raspa contra uma das pernas do banco enquanto ajusta sua posição para abrir a maleta. "Você terá que descer desse banco para assinar e coletar seu pacote, Senhorita Zimone."

"Zimone", Amaka batuca na mesa. "Vamos logo. A partida de Torre dos Magos está prestes a começar."

"Sim, as pessoas já estão indo para o estádio", Nnanyielugo adiciona.

"Vocês dois devem ir sem mim para conseguirem lugares na primeira fila." O café está esvaziando agora. Os olhos de Zimone, ponderosos com uma mistura de expectativa e pavor, seguem Wallader enquanto ele vasculha dentro da maleta pelo seu pacote.

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#align(center)[#strong[II.]]

A primeira vez que Zimone recebeu um pacote misterioso de sua avó, Nimiroti Wola, ela tinha sete anos. Era seu aniversário. Seus pais, Zihir e Dipo, deram-lhe uma grande festa e mostraram seu novo quarto. Ela tinha sete anos e finalmente poderia ter um quarto só para si! Zihir ficou choramingando perto do portal sobre como sua filhinha estava crescendo rápido e que Zimone não deveria ter medo porque ele e Dipo estavam logo ali no corredor enquanto Dipo checava duas vezes as trancas da janela e inspecionava a cama em busca de quaisquer rugas nos lençóis, antes de finalmente puxar a filha e Zihir para um longo abraço. Quando a porta clicou ao fechar, Zimone mergulhou na cama, lançou os lençóis para o ar e se enrolou neles. Aquilo era algo que sempre quisera fazer: dormir em uma cama desarrumada.

Algo arranhou a janela. Esquilos, a menininha adivinhou, enquanto engatinhava até a janela, esquecendo tudo o que Zihir e Dipo disseram sobre mantê-la fechada. Abriu a janela e viu um pacote embrulhado com um papel holográfico de tijolos espiralados pousado no canto do parapeito da janela. O vento noturno estava começando a tombar o pacote, então Zimone o pegou e fechou a janela. Pensando que o pacote era um dos muitos presentes que as pessoas lhe trouxeram na festa, ela o rasgou. Dentro da caixa forrada de veludo estavam oito fitas listradas de verde e azul e um bilhete:

Feliz aniversário Zimone, Que este seja o nosso segredinho. Nimiroti.

Antes daquela noite, Zimone ouvira falar de Nimiroti em retalhos; pequenos pedaços de histórias que Zihir e Dipo sussurravam sobre a Vovó. Costumava haver uma foto emoldurada de uma mulher de costas, as mechas grisalhas de seus dreadlocks arqueadas como um arco, pendurada na sala. Dipo a removera depois que Zimone perguntara quem estava na foto. Pelos retalhos das histórias, Zimone conseguiu juntar as peças de que sua avó fora uma estimada professora em Strixhaven, que algo aconteceu — ela começara a esquecer as coisas, misturar feitiços, divagar no meio das aulas, quase bateu com uma urna no crânio de um mago — e que ela deixara Strixhaven e nunca mais fora vista. Seis anos após aquela noite, quando dois imps de focinho marrom entregaram a carta de admissão de Zimone em Strixhaven, Dipo objetara sobre Zimone ir. Levou semanas para Zihir convencê-lo de que Zimone era madura para a idade e poderia se proteger.

No ano seguinte, outro pacote chegou com o mesmo bilhete, mas com treze fitas. Foram vinte fitas no ano depois daquele, então trinta e quatro, cinquenta e cinco~agora, Zimone encara as fitas e o bilhete dentro da caixa forrada de veludo em sua cama. O dormitório está quase vazio; a maioria dos magos ainda está lá fora discutindo sobre a partida de Torre dos Magos. A Faculdade Platinapena venceu mesmo que um de seus jogadores tenha hipnotizado o capitão da Faculdade Quandrix na final. O Conselho de Árbitros da Torre dos Magos recusou-se a marcar esta violação clara como falta. Zimone solta um sopro de ar quente antes de começar a contar as fitas. Oitenta e nove, cento e quarenta e quatro, duzentas e trinta e três. . .

Ela estala os nós dos dedos cansados quando conta a fitas de número trezentos e setenta e sete. Então pega o bilhete:

Feliz aniversário Zimone, Vai ser difícil fazer estes pacotes chegarem a você agora que você está em Strixhaven. Com todos os olhos espreitando nas sombras. Então, este será o último. Espero que você faça bom uso das fitas. Nimiroti

Zimone dobra as fitas e o bilhete manuscrito para dentro da caixa enquanto a porta do dormitório range ao abrir e os outros estudantes começam a entrar em fila. Assim que todos estiverem dormindo, ela as trançará na trança que fez de todos os seus presentes de aniversário anteriores que está guardada sob seu travesseiro.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#align(center)[#strong[III.]]

O Reitor Imbraham aperta os olhos para o arranjo de números correndo por incontáveis caminhos serpentinos no quadro. Murmura para si mesmo, limpando a testa suada com ambas as asas. Então volta-se para o livro que suspendeu no ar e ondula o vento circundante até que o livro abra em uma página manchada de café. O reitor quebra o giz em suas mãos, atira-o pela janela e então curva a cabeça. Um murmúrio espalha-se pela classe mas silencia assim que Imbraham levanta a cabeça bruscamente.

"A coisa mais importante que vocês têm que saber sobre teoria é que ela é apenas substância que ainda não deciframos", começa o reitor. "Eu sei, magos do segundo ano da Faculdade Quandrix, vocês esperam passar o tempo conjurando fractais. Coisas reais, certo?" Ele sorri presunçosamente. "Mas vocês estão presos comigo aprendendo teorias. Por que vocês acham que esta aula é necessária? Alguém?"

"Porque teoria é o bloco de construção da substância", uma vozinha espremida no meio da classe responde.

O Reitor Imbraham arqueja. Ouvira uma resposta similar de outro estudante, há muito tempo. "Quem disse isso?" Ele varre a sala com o olhar, os olhos quase saltando para fora. Resignado de que nenhum dos magos assumirá a resposta, ele fecha o livro com estrondo. "Estamos nisto há quase uma hora. Aula encerrada. Vejo vocês na próxima semana, quando tentaremos e falharemos novamente em decifrar a Conjectura de Vorzani. Exatamente como temos feito em Quandrix por décadas."

Os magos do segundo ano arrastam os pés, empurrando suas mesas e cadeiras enquanto se apressam para fora do Salão de Torus para sua próxima aula, Formas e Fractais Intermediários (Conjuração e Contra-conjuração) pela Reitora Kianne, no Cultivarium. Imbraham acena para Zimone, que tenta passar por ele sem ser notada. Os joelhos da garota cedem e suas mãos, apertando uma pilha de livros contra o peito, tencionam-se.

"Reitor Imbraham", Zimone diz enquanto começa a caminhar em direção ao reitor.

"Você se parece exatamente com ela", ele nota, arqueando as asas.

"Com quem?"

"Sua avó, Nimiroti Wola. Dei aula para ela nesta mesma sala há muitos anos."

Zimone relaxa os ombros para aliviar o peso dos livros. O Reitor Imbraham faz menção de continuar falando mas para conforme o ar entre estudante e reitor torna-se tenso. A Reitora Kianne, passando pelo corredor para o Cultivarium em uma bola de ar para sua aula, suaviza a tensão e dá a Imbraham algo mais sobre o que falar.

"Ah, você deveria ir. Kianne não gosta de magos chegando atrasados para sua aula."

A garota assente e começa a se afastar mas para no portal e vira-se para o Reitor Imbraham. "Como ela era? Minha avó, como ela era?"

"A melhor aluna que já ensinei. E quando ela se tornou professora, uma colega ainda melhor. Todos nós a amávamos até~até ela partir."

"Obrigada."

"Ela também não tinha medo de assumir suas respostas em classe."

Os dois trocam um sorriso cúmplice antes de Zimone correr para fora do Salão de Torus. Ela chega ao Cultivarium bem a tempo de pegar a Reitora Kianne pedindo aos magos que se apresentem. Zimone espreme-se no semicírculo onde todos os magos estão sentados, com Kianne no meio.

"Zimone Wola, atrasada no seu primeiro dia", Kianne diz. "Gostaria de se apresentar para a classe?"

Lisonjeada com a atenção súbita, Zimone levanta-se para a apresentação.

"Meu nome é Zimone Wola e eu~"

"Seu nome é Zimone Wola, ou você é Zimone Wola?" Kianne estala os dedos. "Jovens magos sempre lutam para personificar quem são. A esta altura, Zimone Wola é mais que o seu nome. Agora é quem você é."

Após as apresentações, a reitora começa sua aula com uma recapitulação de suas palestras do primeiro ano antes de passar para as complexidades de conjurar formas mais complexas a partir da água: animais, plantas e arquitetura. Ela reúne os magos ao redor da fonte sul para prática.

"Lembrem-se, o truque é moldar com os olhos e não com as mãos", Kianne ecoa enquanto guia cada mago em sua primeira conjuração complexa.

Conjuração Básica | Arte de: Randy Vargas

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#align(center)[#strong[IV.]]

As páginas do livro estão manchadas nas bordas com tinta vermelha, e o texto está desbotando gradualmente; ela tem que inclinar algumas das páginas em direção à luz solar para ler. Zimone limpa a poeira na capa rasgada, abre A Conjectura de Vorzani: Leitura Estendida sobre Teoria de Fractais e acomoda-se em uma cadeira. Ela lembra do olhar que Isabough lhe deu quando solicitou o livro; os galhos da bibliotecária caíram e suas folhas cor de ferrugem se dobraram para dentro. Zimone espiara no pergaminho de registro conforme os galhos de Isabough alcançavam as prateleiras mais distantes para encontrar o livro. A última pessoa a retirá-lo fora Nimiroti Wola, há quatorze anos. Ela abre seu caderno onde rabiscou CV no topo. O Reitor Imbraham terminou o estudo sobre a Conjectura de Vorzani e passou para outro tópico porque, mais uma vez, ele e os magos falharam em decifrá-la.

Zimone murmura as palavras em seu caderno para si mesma:

A Conjectura de Vorzani é um antigo ritual mágico\/matemático referente a sequências infinitas de formas de mana imprevisíveis (Reitor Imbraham)

???Ela detém a chave para destravar a própria essência do universo; uma infinitude sem limites. Nunca resolvida. A maioria dos professores de Strixhaven parou de estudá-la desde então (apenas o Reitor Imbraham a ensina por uma semana aos magos do segundo ano da Faculdade Quandrix). Por causa de quão poderosa e desastrosa poderia ser???

Um minuto rasteja até uma hora, e uma hora até quatro. No momento em que o sino do meio-dia dobra para o almoço, Zimone está bem além da metade do livro. Isabough, farfalhando suas folhas para lembrar aos magos de entregarem seus livros antes de irem para o almoço, desperta Zimone de um mundo de equações e postulações não resolvidas para o presente. Ela fecha o caderno, pronta para o almoço, até que seu olho capta a borda de um papel estranho entre as páginas não lidas do livro. Zimone o puxa. É um bilhete manuscrito:

Pacotes de Fitas. Números um passo para trás para seguir para sempre. Livros vivos que falam com você no caminho da luz.

Não há dúvida de que esta é a caligrafia de Nimiroti. Zimone dobra o bilhete em quartos nítidos, enfia-o em seu caderno e apressa-se em direção a Isabough para entregar o livro.

Lá fora, ela esbarra em Amaka e Nnanyielugo nas escadas. Os três amigos guincham enquanto se abraçam. Mal se viram desde que o semestre começou. Tem sido de uma palestra para a próxima tarefa. Quando finalmente se aquietam, começam a perguntar uns aos outros sobre suas novas faculdades, se é tudo o que sonharam e reclamam de quão fundo estão enterrados em palestras enquanto seguem para o Refeitório.

"Zimone, sobre o que você estava lendo?" Amaka pergunta.

Zimone não responde. Sua mente vagou de volta ao bilhete dentro de seu caderno e o que Nimiroti poderia ter querido dizer com "livros vivos".

"Zimone!" Nnanyielugo cutuca Zimone de volta ao presente. "Amaka estava perguntando~"

"Nnanyielugo, não se incomode. Ela está em algum lugar em sua mente Quandrix conjurando fractais."

Zimone esboça um sorriso, mascarando as mil e uma incertezas fervendo dentro dela.

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#align(center)[#strong[V.]]

A mulher está sentada em frente à fonte de costas voltada, trançando tiras de fitas verde-azuis em suas mechas grisalhas. Zimone corre em sua direção para salvá-la, porque o Aritmódromo está desmoronando. As torres estão se rasgando ao meio, e as esculturas estão entrando em erupção em pó. Algo continua puxando-a para trás, até que ela agarra uma das mechas grisalhas da mulher. O desmoronamento para. Exatamente quando a mulher inclina a cabeça para revelar o rosto, os olhos de Zimone abrem-se subitamente. Ela suspira e volta a dormir, encharcada em seu próprio suor.

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#align(center)[#strong[VI.]]

O escritório de Kianne é cercado por prateleiras retorcidas pesadas com volumes de livros. A professora está sentada em sua mesa, rabiscando notas para sua próxima aula, quando Zimone entra. Sem levantar os olhos da escrita, gesticula para Zimone sentar. Kianne preenche outra página antes de pousar sua pena.

"Zimone. Você decidiu me agraciar com sua presença hoje. Que sorte a minha!"

A zombaria é evidente no tom da professora. Faz mais de uma semana que ela disse a Zimone para vir vê-la após a aula.

"Eu~"

"Eu sei. Aulas. Tarefas. Medo."

"Medo?"

"Sim, medo. Medo de que eu descubra o que você e o Reitor Imbraham andam tramando."

"Reitor Imbraham?"

"Sim, ele está te incitando sobre a Conjectura de Vorzani, não está?"

"Não, Reitora Kianne. Na verdade, o Reitor Imbraham passou para outro tópico em nossa aula de Teoria Mágica."

"Então por que você solicitou A Conjectura de Vorzani: Leitura Estendida sobre Teoria de Fractais no Biblioplex há dois dias?"

Zimone levanta-se da cadeira. "Posso ser dispensada?"

"O quê?"

"Não acho que queira continuar esta conversa. Meu estudo pessoal é a minha vida e não deveria estar sujeito ao escrutínio da faculdade."

Kianne senta-se de volta em sua cadeira e observa a jovem maga à sua frente. Suspira. "Pode ser dispensada, Zimone."

"Obrigada." Zimone ajeita o casaco ao seu redor e faz menção de sair.

"Sabe, foi a mesma coisa que ele fez com a sua avó — incitou-a até que os Oriq a pegassem." Kianne pausa para avaliar o peso de suas palavras em Zimone. "Você tem uma mente brilhante, Zimone, e vai ser uma maga poderosa um dia. Mas você precisa deixar o desconhecido. Há uma razão para ninguém ter desvendado a Conjectura de Vorzani."

"Novamente, o Reitor Imbraham não tem nada a ver com isso."

Zimone fecha a porta atrás de si até que ela encoste no batente, silenciosamente, como ar parado.

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#align(center)[#strong[VII.]]

A lua esta noite está tímida. Está se escondendo atrás das nuvens, aguardando seu tempo para toda Strixhaven cair no sono antes de sair. Zimone olha ao redor para garantir que ninguém a está seguindo. Estudantes não devem estar fora dos dormitórios a esta hora, e ela pode se meter em problemas se alguém a vir. As Tochas do Iluminismo estão a um passo à frente. É aqui que o livro deve falar com ela, se o bilhete de Nimiroti estiver certo. Zimone senta nos degraus sob a quarta torre e espera, girando a trança de fitas verde-azuis ao redor de sua estrutura. Uma coruja pia à distância. O ar noturno começa a espiralar ao redor de seus pés.

"Zimone Wola, neta de Nimiroti Wola, o que traz você aqui em uma noite escura e sinistra?" A voz vem de um tomo empoeirado carregado por quatro pernas metálicas que se movem rápido.

Zimone levanta-se. "Você é aquele que chamam de Códice Vocífero?"

Codie, Códice Vocífero | Arte de: Daniel Ljunggren

"Sim", o Códice faz uma reverência próxima. "Você se parece exatamente com ela, sua avó. Costumávamos passar tanto tempo juntos nestes degraus até, você sabe~"

"Até o quê?" Zimone pergunta. "Todo mundo continua insinuando que algo terrível aconteceu com a minha avó, mas ninguém nunca me conta a história completa."

"Espere, ninguém te contou o que aconteceu com Nimiroti? Nem mesmo os Reitores Imbraham e Kianne?"

Zimone balança a cabeça.

"Nimiroti decifrou a Conjectura de Vorzani. Quando os Oriq souberam disso através de seus espiões em Strixhaven, eles a capturaram. Ela voltou para Strixhaven, mas notamos que a outrora estimada Professora Nimiroti não era mais ela mesma. Ela lançara um feitiço de perda de memória em si mesma porque se não conseguisse lembrar da Conjectura de Vorzani, então não haveria nada para contar aos Oriq. E então ela deixou Strixhaven e nunca mais voltou."

Zimone esfrega as palmas das mãos para se aquecer do frio entorpecedor, refletindo silenciosamente sobre sua avó, sua coragem de enfrentar os Oriq. Outro pensamento pulsa em sua mente. E se o Códice estiver mentindo? E se todas essas coisas — os bilhetes misteriosos, as fitas, os sonhos — fossem mentiras?

O Códice subitamente gira, como se "olhando" para outra coisa. "Minha sabedoria foi solicitada em outro lugar. Boa noite, Zimone."

"Espere. O bilhete da minha avó me trouxe aqui. Você não deveria revelar a Conjectura de Vorzani para mim?"

O Códice cacareja: "Não há mais revelações a serem feitas", e desaparece em uma nuvem de névoa.

Zimone começa a descer os degraus. Um passo para frente, um passo para trás. Dois passos para frente, um passo para trás. Três passos para frente, um passo para trás. Cinco passos para frente, três passos para trás. Ela continua, focando nos degraus mesmo quando os ventos começam a girar ao seu redor e um poder semelhante a um laser queima sua espinha, até que uma sombra escura cai sobre as Tochas do Iluminismo. Zimone desenrola a trança de fitas verde-azuis de seu corpo. A trança, como se tivesse mente própria, tece-se em inúmeros padrões. Finalmente, a tecelagem para e a trança desliza para as mãos de Zimone; ela a gira e então aponta para os sóis Karu e Ezza, envoltos por nuvens púrpuras.

Um som de farfalhar nas sombras assusta Zimone. Ela gira para investigar mas tropeça e bate a cabeça contra uma das tochas. Conforme sua consciência desaparece, ela se pergunta com horror se os mesmos espiões que vigiaram sua avó a encontraram também.

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#align(center)[#strong[VIII.]]

Choques quentes correm da cabeça de Zimone para sua espinha. Ela geme e tenta abrir os olhos, recebida por uma dor cegante. Ela cede e mergulha na escuridão.

"Ela está acordada agora, Extus?"

"Não, não está. Dê tempo ao tempo."

"Mas não temos tempo."

"Esperamos por quatorze anos, Pita; tenho certeza de que podemos esperar um pouco mais."

Um de seus homens na sala puxa uma cadeira ao lado da cama onde Zimone está deitada. O outro encosta na parede e ajusta sua máscara. A sala é abafada, mesmo com todas as janelas abertas. A única fonte de luz é a fumaça roxa saindo das máscaras dos homens.

"Onde estou?" Zimone pergunta após algum tempo. A dor latejante diminuiu um pouco. Ela tenta tossir, mas seu peito dói, como se alguém tivesse enfiado pimenta malagueta dentro dele. Extus e Pita levantam-se de um salto.

"Olá, Zimone", Extus começa. "Meu nome é Extus, e eu~"

"Eu sei quem você é. Sua reputação o precede." Zimone puxa-se para uma posição sentada. "Somos ensinados a não gostar de você em Strixhaven."

Extus ri. "Sinto muito. O Caçador de Magos que enviamos a assustou. Geralmente somos mais delicados ao trazer novos recrutas. Mas a questão é que você possui tanto poder, então~"

"Você ainda não respondeu à minha pergunta. Onde estou?" Os olhos de Zimone avistam a trança de fitas verde-azuis amontoada ao pé da cama.

"Você está onde precisa estar. Nós seguimos você por anos. Sabemos sobre os pacotes e os bilhetes."

"Vocês os enviaram?"

"Não, Nimiroti está sempre um passo à frente de nós. Ela personaliza os pacotes e os bilhetes para que apenas você possa recebê-los e lê-los."

"Este é o ponto — vocês me torturam até que eu conte o que sei?"

"Não, os Oriq não torturam as pessoas para se juntarem a nós ou fazerem nossa vontade. Respeitamos o livre arbítrio de todos."

"O que, então, vocês fizeram com a minha avó?"

"Não fizemos nada. O peso da Conjectura de Vorzani foi pesado demais para Nimiroti carregar. Levou-a a um delírio. Tentamos ajudá-la a aliviar o fardo, mas ela não quis ouvir." Extus pausa para recuperar o fôlego e avaliar a reação de Zimone.

Zimone pula da cama e agarra a trança de fitas.

"Zimone, calma, não estamos aqui para lutar."

Extus e Pita levantam ambas as mãos para o ar.

"Conte-nos o que você sabe", Extus continua. "E nós lhe contaremos o que sabemos, e juntos, poderemos controlar o universo. Poderemos controlar o tempo e o espaço."

"Negociando com o diabo", Zimone rosna, e chicoteia a trança de fitas verde-azuis nos dois homens, enviando-os contra a parede na extremidade oposta da sala. "Vocês moeriam Strixhaven até o pó se possuíssem tal poder."

Negação Decisiva | Arte de: Lorenzo Mastroianni

"Não seria o melhor?" Pita interrompe. "Strixhaven acumula magia, aperta-a com palmas coladas. Se a destruirmos, então qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo poderá praticar magia. Imagine um mundo assim — onde a magia não é deixada nas mãos de poucos."

Uma rajada de vento arranca a porta dos gonzos.

"Afaste-se dela!" a voz da Reitora Kianne troveja. Atrás dela estão Nnanyielugo e Amaka.

"Calma, calma", Extus sussurra, sua voz tíbia, sua postura desarmante.

Com velocidade de relâmpago, Extus forma uma bola de fogo e a arremessa em Kianne, que a para no meio do caminho. A reitora gira a bola de fogo, atiçando suas brasas para torná-la ainda mais ameaçadora, antes de redirecioná-la de volta para Extus. Zimone gira a trança de fitas verde-azuis, tecendo-a nas minúsculas fendas do tempo e espaço, até que ela para a bola de fogo a um fio de cabelo de distância de Extus. Ela então extrai água dos aloés e samambaias no parapeito da janela para dissipar a bola de fogo.

"Nada disso é necessário", Zimone diz à Reitora Kianne. "Ele estava prestes a me deixar ir."

Os olhos de Kianne dardeiam pela sala, dos Oriq para Nnanyielugo e Amaka, e então para Zimone. Ela vê o sorriso irônico formando-se nos cantos dos lábios de Extus e então um olhar medido entre Zimone e Pita.

"Certamente", o Oriq diz. "Embora eu confie que nos encontraremos de novo, Zimone Wola."

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#align(center)[#strong[IX.]]

Nimiroti está sentada ao lado da janela de costas voltada, trançando tiras de fitas verde-azuis em suas mechas grisalhas.

"Ela não está lúcida hoje", o atendente do santuário diz a Zimone. "Em dias em que as coisas fazem sentido para ela, ela continua falando sobre sua neta, a melhor maga de todo o mundo." O atendente do santuário sorri para ela antes de partir para ajudar um velho a desenredar seu novelo de lã para que ele possa continuar fazendo crochê. "Basta chamar se ela precisar da minha atenção."

Zimone lembra da empolgação que correu por ela quando um bilhete veio de Nimiroti dizendo para vir visitá-la no Santuário dos Perdidos, um refúgio seguro para aqueles afetados pela magia. O bilhete fora a única coisa que trouxera alegria a Zimone desde seu ordálio com Extus Narr. A Reitora Kianne e o Reitor Imbraham a bombardearam com perguntas sobre o que transpirara entre ela e o líder Oriq; de alguma forma, o rumor de ela ser uma recruta Oriq espalhou-se por Strixhaven, e seus amigos Nnanyielugo e Amaka começaram a evitá-la quando esbarravam uns nos outros no Biblioplex.

Zimone caminha pesadamente até a janela e coloca a mão gentilmente no ombro de Nimiroti. A velha mulher assusta-se, então vira-se para ela e sorri.

"Olá", Zimone diz. "Meu nome é Zimone Wola."

"Quem é você?" a velha mulher pergunta através de seu sorriso desdentado.

"Sua neta. Veja, tenho fitas exatamente como as suas. Você as enviou para mim~"

Nimiroti fita a garota sentada ao seu lado e vasculha a lousa em branco de sua memória atual. Tenta, novamente, lembrar onde guardou este nome Zimone, tão familiar e no entanto tão estranho. Nimiroti suspira em derrota e diz: "Não sei quem você é, mas sei que você é alguém que eu amo."

30/04/2021 | Por Marcus Terell Smith

Uma Voz Silenciosa Chama

Vinte e três estudantes da Platinapena, a Faculdade da Eloquência, estavam em posição de sentido ao longo da borda externa do Palco Rosa, enquanto seis deles sentavam-se sobre os calcanhares, dobrados de dor, lutando para abafar seus gritos de coração partido. Em pé ou não, cada um se posicionara em círculo e observavam juntos enquanto aquele considerado o melhor entre eles — Killian Lu — preparava uma maldição destinada a despedaçar o Professor Razineth.

Killian, Duelista da Tinta | Arte de: Ryan Pancoast

A lição desta manhã envolvia um duelo improvisado sobre as Sete Atitudes Fonéticas: tom, ritmo, tom, posicionamento, ressonância, acústica e volume. Killian, como seus colegas de classe, presumira que Razineth, o renomado fiscal do curso de Intenção e Subtexto II, estava usando este duelo como um simples exercício de aprendizado. Para surpresa deles, porém, Razineth era implacável e vicioso com seus ataques. O mestre das tintas kor de rosto pálido, com seu braço de tinta-sombra esquivo, superava facilmente seus amuletos de proteção de coração e rasgava seus jovens espíritos como uma faca quente na manteiga.

O volume fora designado a Killian. Era de fato a mais difícil das atitudes de se dominar, que dirá controlar, e ele sabia que o ataque vindouro exigiria toda a sua energia, tanto para produzir quanto para manter. Dada a sua reputação estelar, o filho do grande Reitor Embrose Lu, aquela era, claro, uma designação calculada; uma certamente feita em conluio com seu pai, que estava, claro, observando à distância — sempre buscando qualquer área de melhora.

Killian dobrou os joelhos e fincou os calcanhares no chão. Lenta e estavelmente, começou a encher os pulmões. Então, como se ensaiado em uma dança mística, varreu os braços pelo ar, convocando cordas grossas e tintas que espiralavam ao seu redor e alimentavam três esferas massivas no alto acima do palco.

"Uau", disse Razineth sarcasticamente. "Alguém pode ter realmente levado a sério suas meditações de verão." Sua voz era como um siseio, estridente e serpentina, e suas palavras eram transmitidas através de seu tintim mercurial que deslizava acima do palco.

Killian pensou em seu próprio tintim, Doco, por um momento e lamentou sua ausência da luta. Embrose achava a criatura uma distração e instava Killian a nunca confiar nos outros para lutarem suas batalhas por ele. Doco não estaria lutando o duelo; ele estaria simplesmente me ajudando aqui e ali. Killian sentiu os dentes rangerem de frustração.

No início da aula, Razineth professara que se limitaria para nivelar o campo de duelo, usando apenas consoantes surdas na batalha para mostrar que o grande poder pode residir nas menores coisas. Com ele, a simples sibilância de um s transformava sua magia de tinta em adagas afiadas, e o estouro de um p expelia rajadas de fogo de canhão que abalavam a terra.

"Bem?" disse o professor, o rosto duro e não impressionado pela exibição de Killian. "O poder reside no fôlego, rapaz. Respire."

Killian parou seus movimentos ao comando. As esferas massivas de tinta que ele conjurara estavam agora congeladas no tempo e pendiam no ar como pedregulhos suspensos.

"Eu o atenderia com prazer, professor," sussurrou Killian, "mas o fedor do seu hálito envenenou o ar com facilidade!"

Sem que Razineth soubesse, uma linha de tinta, mais fina que a largura de uma teia de aranha, vinha serpenteando para cima a partir do chão como uma trepadeira alta atrás dele e, diante do insulto afiado de Killian, ela agarrou o professor, envolvendo seu pescoço, seu braço existente e ambas as pernas. Quatro s rápidos entre os dentes de Razineth cortaram de forma limpa as algemas de tinta, mas no tempo que ele levou para escapar, Killian já enviara uma de suas esferas de ônix despencando sobre ele. Momentos antes de fazer contato, Killian gritou para dentro dela:

"Dificilmente é a hora de aplaudir seus esforços, quando o nosso duelo apenas começou!"

Diante da frase, a esfera estourou e, onde seus pedaços aterrissaram, brotaram imediatamente trolls feitos de tinta empunhando martelos e machados. Em resposta, um shh interminável explodiu da boca do professor, convocando uma onda gigante de tinta que jorrou de seu braço de tinta-sombra e o cobriu em um orbe protetor de escuridão. Febreilmente, os trolls golpearam o escudo, mas ao fazê-lo, eram instantaneamente absorvidos e faziam-no crescer mais.

Killian rapidamente enviou outro pedregulho de tinta ao solo, gritando para dentro dele ainda mais alto que antes. "Shh?! Esse som suave de tanta água correndo soaria melhor com você se afogando nela!" À sua maldição, o pedregulho morfou em uma coluna preta do tamanho de uma torre e sólida como pedra. O obelisco de obsidiana esmagou o escudo de Razineth como o martelo de um ferreiro em metal quente e sem forma, enviando fissuras profundas por todos os lados. Razineth respondeu com uma enxurrada ágil de t que, ao deixarem sua boca, transformaram-se em mil flechas pretas que dizimaram a coluna inteiramente. A exibição deixou Killian sem palavras. Vendo uma abertura, Razineth voltou as flechas contra ele.

"Parasita decrépito!" Killian imprecou, permitindo que sua sobrevivência triunfasse momentaneamente sobre o revide espirituoso. "Serpente torta!" De imediato, cada fragmento da coluna desmoronante transformou-se em corvos que interceptaram cada flecha destinada ao seu coração. Então, entre dentes rangentes, Killian convocou todo o volume e vitríolo que pôde e os vomitou em seu orbe final.

"DESPERDÍCIO DE MÚSCULO! DESPERDÍCIO DE TENDÃO! BESTA AMORFA NASCIDA DE ESTILHAÇOS! PEÃO DECRÉPITO E DEFINHADO! UM PATIFE REMOEDOR, PARA DIZER O MÍNIMO!"

O céu acima deles escureceu conforme o pedregulho achatou-se em um disco giratório que se estendia por o que pareciam quilômetros. Um ponto subitamente apareceu em seu centro, o início de um ciclone selvagem e, em menos de um piscar de olhos, ele tocou o solo, pegando o professor em sua torrente. A garganta de Killian queimava e ele sentia o gosto de sangue, mas não podia ceder:

"CARNIÇA CÁUSTICA, ANSIA RANCORENSE, SACO DE GÁS NOJENTO E BABOSO! AFLIGIDO PELA PRAGA, INFECTADO PELA AFRIÇÃO, ESCÓRIA FUMEGANTE E EMACIADA!"

O veneno fortaleceu seu esforço final para vencer o dia e, através do turbilhão giratório, Killian avistou a silhueta de Razineth combatendo seu acesso de poder. Ele estava vencendo! Seus olhos arregalaram-se de expectativa. Observou os seis rostos das vítimas anteriores do professor, esperando ver a retribuição alegre em seus olhos, mas encontrou apenas tristeza — piedade por outra alma infeliz que logo se juntaria a eles em sua miséria. E ele seria a causa.

Foi quando Killian sentiu — a dor lancinante do golpe que encerraria aquela partida violenta. Enquanto ele estava distraído, um t suave saltara da língua de Razineth. Ele olhou para o peito e lá viu a ponta da flecha preta e gotejante que o atravessara. Caiu de joelhos, lutando para arrancá-la antes que a tinta se infiltrasse.

Olhou para seus colegas de classe uma última vez e captou o olhar injetado de sangue de Fannessa Fjyorne. Sua atitude de tom fora pisoteada pela manada de cavalos de tinta selvagens conjurada por Razineth. Não eram amigos e mal eram conhecidos; ela era uma nova estudante, e mal haviam trocado sequer um aceno de cabeça desde o início do semestre. No entanto, havia uma gravidade que ela possuía que atraiu os olhos dele aos dela. Ela lhe deu um sorriso empático de solidariedade. Killian ficou grato por aquilo.

No momento seguinte, a tinta do professor fez efeito. Killian foi de imediato dominado por total desespero e tristeza. O som esmagador porém familiar das botas de sola dura de seu pai recuando dele ecoou dolorosamente em sua imaginação; conseguia até sentir o peso de tantos volumes de poesia de batalha que seu pai colocaria em seus braços. Uma longa tarde de estudos estava de fato à frente. Conforme lágrimas caíam de seus olhos, ele dobrou-se e, como os seis que caíram antes, sucumbiu a uma derrota cruel.

Levou a maior parte da tarde para Killian voltar a si. Foi incessantemente atormentado por surtos de depressão e terríveis alucinações, até que a maldição de tentáculos de tinta do professor foi descascada de sua coluna e caixa torácica. Tivesse ele sido atingido por uma segunda flecha, Killian certamente teria rasgado a própria carne.

A alucinação final trouxe-o de volta ao Liceu Loquaz, o campo de treinamento intenso escondido nos muitos corredores do Biblioplex. O curso era obrigatório mas destinado apenas aos veteranos da Platinapena. Killian, por sugestão de seu pai, fizera o teste para entrar e, como esperado, passara com distinção. O Liceu abrigava uma floresta encantada e sempre-crescente que tomava e sufocava qualquer um preso sob suas folhas. Amaldiçoar a flora sem cessar era a única maneira de escapar da morte certa. Aquele era um desafio que fora enfrentado por centenas de mestres das tintas por décadas, incluindo Embrose, e Killian sobrevivera a ele. Nesta memória crivada de maldição, porém, as plantas gritavam horrivelmente, como soldados feridos implorando por suas vidas enquanto ele era forçado a arrasá-las sem misericórdia. Seu coração doía à visão de tanta destruição, e ele se odiava por destruir tantas coisas belas.

Killian abriu os olhos e viu-se encarando uma enfermeira magopenista de rosto gentil com luz dourada ondulando ao seu redor. Estava na enfermaria, descansando em um berço macio. A luz solar entrava pelas janelas altas de pedra que faziam o quarto inteiro brilhar com a mesma tonalidade dourada da enfermeira — um brilho refratado nas asas brancas de corujin da Reitora Shaile. Ela estava parada à entrada da sala, observando conforme a enfermeira extraía outro fio da tinta de Razineth do peito nu de Killian.

"Poesia de batalha", a Reitora Shaile começou. "Tal magia antiga só encontra seu caminho até os mais diligentes da Platinapena. Seu pai ficaria~digamos~levemente satisfeito?"

Killian limpou a garganta várias vezes, sentindo o peso do duelo ainda pesado sobre ela.

"Magos como você, filho do grande Embrose Lu", a reitora continuou com um sorriso quase cínico, "podem aventurar-se em profundezas inimagináveis de potencial — tanto na luz quanto na escuridão. Eu o advirto, porém. Você deve aprender a abraçar a luz de vez em quando. Melhor para a alma."

"Magia branca não é eficaz em batalha, receio", Killian respondeu, exatamente antes de a enfermeira remover um fio final de luto despertado de seu coração.

"Pelo contrário", respondeu Shaile. "Batalha é quando ela é mais eficaz. Pode vencer a guerra."

Killian encarou os olhos gentis da reitora, esperando mais. O conselho que ela provia nunca era curto; era sempre o objetivo dela transmitir sabedoria duradoura através do pensamento crítico. Ela e seu pai diferiam nesse aspecto, o que alimentava o relacionamento contencioso deles. No âmbito do Reitor das Sombras, a sabedoria só era atingida através do reforço negativo. Como poderiam algum dia concordar?

"Como um buraco em uma tapeçaria", continuou ela, "a luz pode perfurar até o mais obstinado pedaço de escuridão. Mas por mais que tente, embora possa obscurecê-la às vezes, a escuridão nunca pode perfurar a luz."

Killian refletiu sobre as palavras dela por um momento, mas suas ponderações foram interrompidas por uma dor em sua mão. Ele fez uma careta, coçando a palma.

"Sem descanso para os cautelosos, suponho", Shaile disse com um sorriso, familiarizada com esta reação de outros estudantes da Platinapena.

Killian saltou de imediato para ficar de pé, agarrou suas túnicas e marchou em direção à porta. Antes de sair, Shaile parou-o com uma mão suave em seu ombro.

"O cosmos é vasto", disse ela com um toque de espírito materno, "e os Eloquentes não são os únicos que o moldam. Não gaste toda a sua magia em um só lugar."

Killian dirigiu-se direto para as docas — a rota mais rápida para o Biblioplex, e seu pai estaria junto ao fosso. O local de encontro fora escrito em sua palma em patriscrito, ou tinta parental, que professores Eloquentes e pais igualmente usavam para lembrar as crianças de compromissos vindouros ou itens que frequentemente esqueciam. Sem mencionar que coçava para caramba até que o que fora escrito fosse dito em voz alta.

"Semântica", disse Killian. O patriscrito desapareceu.

Chegou à Doca XVII exatamente a tempo de ver o barco com destino à Semântica afastando-se. De imediato, irrompeu em uma corrida. Então, atingindo a borda da doca, saltou de um pé só.

"Como degraus robustos e sombrios, as águas sob meus pés se mantêm."

Killian proferiu o feitiço em voz alta conforme voava pelo ar, e as águas responderam da mesma forma — ondulando com energia branca que formava vários lugares sólidos para cada pé no ar pousar. Passo, passo, passo. E com um salto final, tocou o convés do barco.

Killian preferia a reclusão mas, para seu desapontamento, não faria esta viagem sozinho. Sentada no lado oposto do barco estava outra estudante da Platinapena que se virou ao baque de seus pés e puxou o capuz para trás.

"Então é assim que o grande Killian Lu nunca se atrasa para nada", fustigou Fannessa com um sorriso. "Magia branca serve para alguma coisa, suponho."

Era algo que seu pai diria.

Killian suspirou conforme sentava-se à frente dela. Fannessa recostou-se, suas duas longas tranças escuras balançando sobre os ombros, e o avaliou com olhos de tonalidade lavanda que se destacavam contra sua pele mogno. Ele percebeu que ela era do tipo que conseguia passar sem esforço de borbulhante e animada para calculista e misteriosa num instante.

"Então, aquele Razineth, hein?" ela começou. "Ele realmente leva aquele curso a sério, não leva?"

"É um curso sério", Killian respondeu monotonamente.

"Verdade. Mas uma flecha no coração é bem implacável."

"Foi um duelo bem-sucedido."

"Bem-sucedido?"

"Aprendi uma nova fraqueza. Eu hesitei. Não acontecerá de novo."

Fannessa sorriu presunçosamente, fascinada pela resposta dele.

"Misericórdia é para tolos", declarou ela. Ele assentiu por reflexo. Seu pai dissera o mesmo muitas vezes. Por mais que tentasse, porém, era um lema que Killian nunca conseguira de fato apoiar.

"De qualquer forma, você foi realmente incrível hoje. Que poder escuro e bruto. Você poderia ter matado um mago menor." Ela sorriu. "Não teria sido uma visão e tanto de se ver."

"Não estava tentando matá-lo", Killian disse rápido. "Não quero matar~estava apenas tentando vencer."

Fannessa deslizou para a borda do assento e inclinou-se ainda mais perto, absorvendo a nova energia nervosa dele. Observou conforme ele puxava a pele do pescoço, massageando a garganta.

"Você se machucou?"

"Não", Killian disse bruscamente. "Estou~vou ficar bem."

As sobrancelhas dela ergueram-se como se alguma ideia fantástica estivesse se formando. "Sabe, há um elixir que um passarinho me contou que consegue curar uma garganta inflamada em minutos. Posso conhecer uma garota que conhece um cara no Fim do Arco que consegue preparar um sem problemas."

"O Fim do Arco é para os de mente lenta e procrastinadores", disse Killian. "Existem regras pelas quais um Lu deve se portar."

"Ouvi dizer", ela quase cantou com um sorriso devvioso. "Pode ter que quebrar uma. Ou ir para a enfermaria de novo. O Reitor Lu não gostaria nada disso."

"Não posso."

"Certo." Ela recostou-se, sem fazer esforço nenhum para esconder sua desaprovação. "Strixhaven é, afinal, uma instituição de ensino. Nada mais." Levantou-se. "Sem descanso para os cautelosos, suponho."

A última frase pegou Killian desprevenido. Fora a mesma que a Reitora Shaile lhe dissera logo antes de ele deixar a enfermaria.

O barco subitamente bateu contra a Doca da Semântica. Com um gracioso salto para trás, Fannessa deslizou para outro barco que passava — um indo na direção do Fim do Arco.

"Você deveria sair para o sol de vez em quando, Killian Lu", disse ela, jogando as tranças para trás dos ombros. "Não fomos feitos para crescer nas sombras."

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Killian ficou sentado por um momento conforme o barco dela desaparecia e considerou as palavras dela, sabendo exatamente a qual sombra ela estava se referindo. Sentiu um calor nervoso subindo em sua pele conforme sua mente girava. Outro solavanco do barco, irritado por ele ainda não ter desembarcado, salvou-o de seus pensamentos espiralantes.

Correu pela escadaria de pedra que levava para dentro do Biblioplex e apressou-se através do pátio aberto. Tecendo-se sem esforço entre multidões de estudantes engajados em conversas alegres e não acadêmicas, dirigiu-se a um alto arco de pedra inscrito com as palavras Salão de Semântica.

"Killian Lu!" veio uma voz masculina subitamente. Da escuridão do arco apareceu o corpo corpulento de Quintorius, um estudante da Sapientia.

"Olá, Quint", disse Killian.

"Toda a Platinapena está falando de você e do seu duelo hoje", Quintorius respondeu com olhos intensamente brilhantes. "A Sapientia também." Ele deu um risinho suave. "Bem, só eu. Volume é coisa muito séria. Pelo som da coisa, você é um talento natural."

"Você de fato ama sua pesquisa", disse Killian, lembrando-se de quão frequentemente o via de um lado para o outro pelas estantes no último verão. Ele praticamente morava na biblioteca.

Manobrando ao redor da imensa pilha de livros em seus braços, Quintorius recuperou um tomo fino com sua tromba de elefante e o ofereceu a Killian.

"Dobarius Egolt, o Magopenista Mudo", Killian leu em voz alta. "Um mudo?"

"Ele conjurava todos os seus feitiços usando uma forma antiga de linguagem de sinais quando o volume tomou sua voz", exclamou Quintorius. "Ele era incrível. Na verdade, ele encantou um exército inteiro a depor as armas e apertar as mãos em trégua. Ele entendia que morte e destruição são notas que qualquer instrumento consegue tocar." Ele bateu a tromba no livro. "A sinfonia da criação é muito mais dramática."

Ele parou por um momento, como se surpreso pelas próprias palavras.

"Quão Platinapena da minha parte dizer isso", Quint terminou com outro risinho.

Killian sentiu outra picada na palma.

"Tenho que ir", disse Killian, passando por ele. "Minhas meditações estão prestes a começar."

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O Salão de Semântica estava para sempre envolto em luar e mergulhado em uma névoa densa. Uma vela brilhava através da névoa leitosa, acenando para Killian avançar, e ele seguiu a luz com passos apressados.

Embrose estava na sombra de uma alta pilha de livros, alto e ameaçador, suas túnicas pretas balançando em um vento forte que punha a névoa a girar. Sua pele era cinza nos raios de luar prateados, mas o branco de seus olhos perfurava o ar turvo como estrelas. A uma curta distância dele estava uma mesa de madeira e, sobre ela, a vela que conduzira Killian até ali. A chama iluminava as páginas de um livro de capa grossa.

"Você se deixou vulnerável, não deixou?" perguntou Embrose em uma voz tão profunda que fazia o chão tremer.

"Achei que tivesse pego todas as flechas do professor, pai", Killian respondeu, já sabendo que nenhuma resposta que desse impediria a lição vindoura.

"Você achou errado, não achou?"

"Talvez se o Doco tivesse permissão para lutar ao meu lado novamente — ele sempre me ajuda em tempos de dificuldade."

"Isto não é a droga de um jogo de Torre dos Magos, Killian. Confiar em seu tintim te torna dependente, fraco e desfocado." Ele deu um passo à frente, os olhos faiscando. "Eloquentes, os árbitros supremos do cosmos e executores de todos os contratos mágicos, são resolutos e inabaláveis em sua palavra. Eloquentes, o papel premiado que você pretende atingir após seu tempo aqui, não se beneficiam—"

"De distração. Eu sei", Killian disse com um bufo.

Ele voltou os olhos para o chão para escapar da desaprovação irradiando do rosto duro de seu pai.

"Sua respiração estava rasa hoje; seus ombros estavam erguidos até as orelhas; você estava constantemente esticando o pescoço como algum daemogoth das vastidões. Você vai se machucar ou coisa pior conjurando dessa maneira!"

"Apologias, pai", Killian falou, fazendo tudo o que podia para esconder o arranhar em sua voz. "Não estava esperando duelar tão cedo. E com um professor ainda por cima."

"Você deveria sempre esperar o inesperado", Embrose interveio ferozmente.

"Magia branca seria inesperado", Killian falou suavemente. "Talvez criar algo fosse melhor do que destruí-lo."

"Palavras bonitas de magopenistas e luminomantes não o salvarão da morte certa!" rugiu Embrose. "Corações Oriq não se dobram em batalha; almas de caçadores de magos nunca são remendadas. Elas devem ser quebradas!" Reames de tinta explodiram dele como lava negra e fogo branco de um vulcão. "Você está na linha para ser um dos maiores mestres das tintas da história. Por você ser tal, muitos inimigos tentarão roubar essa grandeza. Você nunca deve dar a eles uma oportunidade!"

"Eu entendi", Killian sussurrou bruscamente para o chão.

"O que você disse?"

Killian endireitou-se rapidamente e ergueu a cabeça. "Disse: 'Eu entendo, pai'."

No silêncio tangível que se seguiu, Killian sentiu os músculos na curva da mandíbula do reitor flexionarem várias vezes — um ranger de dentes sub-reptício por trás de uma careta de lábios finos. Sentiu os olhos penetrantes de seu pai estudando-o. Esperando cortar a tensão, Killian arrastou-se até a mesa onde sentou-se em frente ao livro, propositalmente aberto em um capítulo intitulado "Treno e Réquiem: Poesia de Batalha Perdida".

"Suas palavras devem ser como adagas serrilhadas, cortantes o suficiente para descascar a carne do osso. Eviscere a presa que você veio caçar e banqueteie-se nela. Essa é a única maneira de derrotar seus inimigos. Você entende?"

"Sim, Reitor Embrose."

Embrose parou um momento antes de virar-se para partir, mexido pela formalidade rígida nas palavras de Killian.

"Isto é para o seu próprio bem, filho. Você aprenderá isso um dia."

Desapontamento Esmagador | Arte de: Andrey Kuzinskiy

Killian passou o resto da tarde recitando e memorizando os poemas de batalha, o que apenas continuou a enfraquecer sua voz, tanto física quanto emocionalmente. A seu pedido, cálices de água apareceram, que ele bebeu febrilmente. Fizeram pouco ou nada para ajudar sua recuperação, mas fizeram tudo para ativar sua pequena bexiga. Falar era agora uma tarefa quase impossível, e a dor irradiando por sua garganta estava tornando-se insuportável. Magia branca poderia me ajudar, pensou ele. Mas admitir-se na enfermaria pela segunda vez seria nada menos que vergonhoso, e ele era proibido de estudá-la ele mesmo além das conjurações mais básicas.

Pousou a testa na mesa e encarou impotente o chão. Ali, entre suas botas pretas brilhantes, incheou o livro que Quintorius lhe dera, movendo-se completamente sozinho. Quando finalmente parou, uma massa de tinta preta escorreu dele, então moldou-se em uma criatura de cabeça oscilante e tinta — Doco, o tintim de Killian.

A pele de ônix de Doco nadava com o texto do livro que ele habitara. Ele deu a Killian um sorriso empático, esperando levantar seu astral com algo diferente de poesia de batalha para ler. Killian não conseguiu sorrir de volta. Na verdade, encarando o livro, foi subitamente preenchido por grande apreensão. Sua voz estava sumindo, e ele era um Platinapena. Como poderia algum dia atuar sem ela?

Seus pensamentos preocupados voltaram-se para Fannessa. Talvez devesse aceitar a oferta dela. Que outra escolha ele tinha?

Resolvido, recolheu o livro e Doco, enfiou-os em suas túnicas e saiu da sala.

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Na sombra da última pedra do Arco da Alvorada, Killian observou de longe conforme três estudantes da Murchasabugo entravam na Taverna Fim do Arco. Portas de madeira pesadas abriram-se para eles sozinhas, e a estrutura abobadada que os continha exalou com música Prismari vibrante e abrangente. Antes de desaparecer além do limiar, a terceira estudante da Murchasabugo olhou para trás e o notou.

Sua pele verde, olhos dourados brilhantes e cabelo de folhas úmidas denunciaram-na imediatamente. Era sua amiga Dina, também do segundo ano. Os dois haviam passado por um bocado de ordálios no último semestre no Brejo da Detenção mas, tristemente, haviam trocado poucas palavras desde então.

"Está esperando alguém, Killy?" Dina perguntou, ainda à distância.

Killian encolheu-se com o apelido carinhoso, que soava mais mórbido que fofo. Killy. Hesitou em falar, sentindo o arranhar já rastejando pela garganta. Apenas assentiu.

"Acha que podem estar lá dentro?" ela perguntou.

Killian olhou ao redor mais uma vez. Não vendo sinal de Fannessa, decidiu aproximar-se.

"Eu adoraria colocar o papo em dia, mas não posso demorar", disse Dina, segurando a porta para ele. "Tenho um encontro. Nosso terceiro. Algo novo que estou tentando — fazer amigos. Vickus é o nome dele. Ele é do quarto ano, e é quase legal."

"Quase?" perguntou Killian.

"Legal comigo, mas pode ser um bocado bruto. Fiz um chá para ele", continuou ela, apresentando um recipiente verde preso por uma vinha sobre o ombro. "Você pode provar se quiser. É bem forte. Melhor não perguntar o que tem dentro. A menos que goste do gosto de dentes de prende-vinhas."

"É isso que tem dentro?" perguntou Killian.

"Melhor não perguntar. Vamos entrando." Pegando a mão dele ela mesma, entraram.

O Fim do Arco era um edifício grande e circular com um teto abobadado alto. Janelas permitiam que a luz brilhasse ao redor do perímetro, iluminando passagens para outros salões, mas a área dentro do círculo era mal iluminada, exclusivamente iluminada por velas flutuantes que mudavam de cor com as notas da música. O bar principal ficava bem no centro e, flutuando acima dele, estava o palco onde a banda Prismari tocava. Espalhados ao redor deles estavam mesas redondas e bancos ocupados por estudantes bebendo de cálices espumantes e comendo carnes temperadas.

Levou apenas um momento para Killian avistar Fannessa. Estava sentada sozinha na ponta de uma mesa longa como uma grande rainha em um banquete.

"Vejo quem estou procurando, Killy", disse Dina. "Não se importaria se eu te deixasse, importaria?"

"Não—" Killian começou a responder, mas ela já começara a se afastar dele.

Killian voltou os olhos para Fannessa e deu um sorriso suave. Moveu-se rápido até ela.

"Ora, ora, olha quem decidiu aparecer", exclamou Fannessa, "Killian Lu, o quebrador de regras~e com uma namorada ainda por cima?"

"Oh não! Dina~não é~ela~não é", Killian tropeçou. A dor na garganta e o sorriso cúmplice de Fannessa cortaram qualquer explicação adicional. Sentou-se à frente dela, sem achar graça.

"Então~você ouviu?" Fannessa começou de novo. "Razineth planeja ter duelos conosco uma vez por semana."

"Sério?" Killian perguntou roucamente.

"É. Então você terá que se provar de novo e de novo e de novo."

Killian inspirou profundamente, frustrado com a perspectiva, sabendo que sua magia teria que se tornar mais violenta.

"Acho que é o que exige ser um Eloquente, né?" continuou ela. "Uma vida de dever. Sem liberdade. Além disso, você sendo o único filho do Reitor Embrose."

"Gostaria de aceitar aquela bebida, se puder", Killian interrompeu.

Fannessa sorriu, divertida com o desespero dele. "Não diga mais nada, Killy. Não diga mais nada."

Killian observou-a enquanto ela se levantava da mesa e dirigia-se ao bar. Novamente, ela dissera algo que ele ouvira em particular, mas um sorriso frio dela descartou o pensamento. Talvez fosse apenas uma coincidência.

Escapando do olhar dela, puxou o livro de Quintorius de dentro de suas túnicas. Doco materializou-se das páginas e espiou para fora. O tintim deu um sorriso e uma piscadela, feliz em ver Killian em um astral um pouco melhor. Então, usando suas patas tintas, virou para uma página no livro cheia de figuras — desenhos de mãos e dedos fixados em muitas formas e posições diferentes. Palavras de afirmação estavam escritas sob cada representação: bondoso, virtuoso, amor e muitas outras. Killian fez o sinal para "luz" sob a mesa e fechou os olhos. Crie algo, pensou consigo mesmo conforme focava sua intenção. Levou apenas momentos até ver a escuridão atrás de suas pálpebras brilhar alaranjada e sentir o calor das velas na mesa intensificar-se. Funcionou.

"Não te vi por aqui antes, Lu", veio uma voz masculina soposa por cima do ombro dele.

Killian não precisou olhar para trás para saber que era um Murchasabugo vangloriando-se para ele. Sempre carregavam o cheiro do Brejo. Este estudante, porém, se salpicara com algo floral para mascará-lo; esperando impressionar alguém, talvez. Sentou-se reto, enfiando o livro de volta em suas túnicas.

"Dina me disse que vocês dois são próximos", disse o Murchasabugo, o tom suspeito. "Disse que vocês passam tempo juntos?"

"Passamos", Killian respondeu. "No Brejo. Só ajudei ela em um projeto."

Olhou para Fannessa e viu-a observando a interação, ansiosa para ver o que se desenrolaria.

"Um projeto." O tom do Murchasabugo tornou-se ameaçador, sua natureza brutal e ciumenta revelando-se. "Contínuo?"

"Vickus", Killian ouviu Dina dizer a uma curta distância.

Killian levantou-se e virou-se completamente. O estudante do quarto ano era alto e de ombros largos. Cabelo verde como vinhas agarrava-se ao seu rosto pálido, e seus olhos esmeralda faiscaram nos de tinta preta de Killian. Na mão segurava uma praga espinhosa que começara a se contorcer.

"Não", Killian disse, dando uma última tentativa de acalmá-lo. "Ela é apenas uma amiga."

Vickus sorriu presunçosamente, exibindo seus dentes de vampiro, e as veias de seu traje subitamente começaram a brilhar com luz verde.

"Dois em um dia, Killy", disse Fannessa sentando-se. Colocou então um cálice de líquido roxo borbulhante na mesa e o deslizou em direção a ele. Ele o pegou. "Alguém está popular."

"Não vamos fazer isto", disse Killian. "Por favor."

"Não", disse Vickus. "Vamos sim."

A praga soltou um guincho conforme sua força vital partiu e entrou em seu hospedeiro. Magia verde cresceu das costas do veterano como uma árvore contorcida, suas folhas dobrando-se para formar um busto imenso e etéreo da praga falecida.

Sempre preparado para o irromper de duelos mágicos, o Fim do Arco transformou-se em uma arena com mesas e cadeiras flutuando para posições fixas ao redor da circunferência do espaço; os estudantes permaneceram sentados nelas, incluindo Dina e Fannessa. O bar e o palco subiram também, deixando um caminho aberto para maldições fluírem entre os duelistas.

Killian sabia que a notícia deste duelo correria rápido. Seria melhor ser proclamado vencedor, especialmente aos ouvidos da Platinapena e de seu pai. Então, rapidamente bebeu o conteúdo do cálice, orando para que trouxesse alívio, e instantaneamente, trouxe.

O calor do líquido com sabor de mel revestindo sua garganta trouxe consigo uma energia renovada e inebriante. Ele arquejou de surpresa, sentindo-se ele mesmo novamente. Não ~melhor que ele mesmo — melhor do que já se sentira, conforme a bebida nadava sobre ele e alimentava seu primeiro ataque.

"Oh, rapaz bruto do Brejo, agora você diz estar verde de inveja, quando todo este tempo achei que estivesse verde de inalar seu próprio fedor todo dia." Conforme as palavras deixavam sua boca, correntes pretas de magia jorraram de suas costas, transformando-se nas pernas esqueléticas e tórax longos de uma aranha. As pernas içaram-no alto acima de Vickus, que olhava para cima para ele com desdém. Ouviu deleite e surpresa da multidão de estudantes acima deles.

"Como uma flor definhante, você definhará, Murchasabugo," amaldiçoou Killian. Então, de seu tórax massivo, vomitou fios grossos de tinta que formaram barras tecidas ao redor de seu oponente. Vickus esquivou-se de cada ataque habilmente e disparou orbes de feitiço espinhosos de volta para ele. Killian evitou seus assaltos e devolveu maldição tinta após maldição tinta.

Killian estava chocado com a crueza de seu próprio poder — o perigo nele. Cada ataque parecia mais destrutivo que o anterior, e cada um era entregue sem um pingo de remorso. Não demorou muito para que toda a área estivesse coberta pelas grossas teias pretas nascidas de seu flagelo.

Agora Vickus estava arquejando de exaustão. A energia da praga estava quase esgotada. Em um esforço final para derrotar Killian, o jovem Murchasabugo convocou um enxame chicoteante de raízes de árvores do chão que buscavam sobrepujá-lo. O movimento deixou-o exposto por um momento e, vendo sua abertura (exatamente como Razineth fizera em aula), Killian disparou um t afiado de sua língua. A flecha de tinta preta disparou pela taverna e rasgou o peito de Vickus. Sem perder tempo, Killian então envolveu Vickus em suas teias, deixando-o indefeso como uma mosca.

"Verruga infinitesimal ciumenta, saco pútrido de melancolia," Killian sussurrou, aproximando-se dele. "Sua preciosa Dina tem piedade de você. Ela é uma criatura que você nunca terá, não importa o quanto tente cobrir seu fedor!"

Conforme falava, cada gota de tinta estendendo-se pela sala, incluindo a flecha de tinta, entrou no corpo de Vickus. Killian observou enquanto os olhos de seu oponente desbotavam de ouro para preto.

"Killy!" gritou Dina, a voz assustada.

Ele olhou para cima para ela, encarando diretamente um rosto aterrorizado que lhe implorava para não ir mais longe. Seu olhar então desviou para Fannessa, que parecia o oposto, contemplando a batalha com deleite diabólico.

"Dê orgulho ao seu pai, Killian Lu!" Fannessa vibrou, instando-o a desferir o golpe final.

Killian voltou-se para Vickus, cujos olhos pretos estavam agora arregalados de terror, sua alma partindo-se. Sua vítima começara a desvanecer, e ele foi lembrado de quão horrível era ser desfeito — sofrer sozinho no escuro.

Não quero isto, pensou Killian, sua consciência rebelando-se. Não quero te ferir.

Killian abriu a boca para chamar as maldições de volta mas, para seu desespero, nenhum som escapou. Tentou com mais força mas sentiu a misericórdia prender em sua garganta, como se algo dentro dele — algo escuro e malévolo, despertado pela mistura que Fannessa lhe dera — estivesse interrompendo seus esforços. Lançou um segundo olhar para Fannessa e encontrou-a fuzilando-o com o olhar, frustrada por ele não ter desferido o golpe final. Aquilo era de fato obra dela.

O tempo para salvar Vickus estava acabando. Sem voz e sem outra alternativa, Killian novamente recuperou o conto do Mudo de suas túnicas e abriu suas páginas. Doco, da mesma mente e aguardando ansiosamente sua oportunidade de ajudar, entrou em ação, transformando-se em duas mãos carregadas de tinta que sinalizaram uma frase simples.

Você — é — o bastante.

Desde a primeira interação deles, Killian vira um homem intensamente alimentado pelo ciúme e por um medo profundo de ser ignorado. Ver Killian de mãos dadas com Dina inflamara ambas as emoções. O que o salvaria, o que Killian poderia imbuir nele, era confiança. Era isso o que ele poderia criar e o que duraria.

Killian rapidamente repetiu a frase com suas próprias mãos, focando sua intenção. De imediato, luz branca ondulou para fora dele, movendo as pernas de aranha para recuarem para dentro de seu corpo. Então, exatamente como a enfermeira fizera para salvá-lo, ele chamou os feitiços de tinta contorcidos para fora. Mas mais que isso, infundiu-os com pura magia branca, enriqueceu-os com sua boa intenção e enviou-os de volta para o coração do Murchasabugo. Os olhos de Vickus começaram a brilhar como dois sóis radiantes, e seu corpo ondulou com luz dourada curativa. Seu medo fora substituído por alegria. Killian até captou um sorriso puxando os lábios do jovem, antes de ele pousar a cabeça para descansar. Com isso, o duelo terminou.

Aplausos choveram de cima e a música recomeçou enquanto a taverna transformava-se de volta ao seu estado anterior. Killian não esperou que ela se assentasse mas correu diretamente para o banheiro.

Uma vez lá dentro, correu para a pia, abriu a torneira e começou a jogar punhados de água na boca. Sua garganta parecia estar em chamas, e cada gole apenas parecia fazer o incêndio crescer.

"Então~o que aconteceu lá atrás?" perguntou Fannessa lentamente, sua voz quase sinistra, conforme entrava na sala atrás dele. Trancou a porta atrás de si. "Você poderia ter acabado com ele."

"Não . . . estava certo", Killian bufou, enfiando a boca de volta sob a torneira.

"'Eviscere a presa que você veio caçar e banqueteie-se nela.' Não foi isso o que seu pai te disse para fazer?"

Killian lançou-lhe um olhar feroz. Aquela era a terceira vez que ela citava frases ditas a ele em particular. Ela andara seguindo-o?

"Sim, estive te seguindo", admitiu ela. "Temos observado você por muito, muito tempo."

Killian começou a recuar para longe dela, agora confuso e ficando assustado.

"O que — tinha — naquela bebida?" demandou ele.

"Nada em particular — um pouco de cerveja, ervas, alguma magia Oriq para suprimir toda essa culpa que você carrega."

Fannessa estendeu ambas as mãos e caminhou lentamente em direção a ele. Uma faísca brilhante estalou no espaço acima de suas mãos que cresceu em uma bola giratória de fogo roxo. A bola continuou a expandir e retorcer-se, eventualmente tomando a forma de um elmo preto brilhante. Killian retesou-se à vista dele, reconhecendo a máscara Oriq. Fannessa também tornou-se envolta em chamas roxas que queimaram suas túnicas da Platinapena, revelando uma armadura Oriq cinza e denteada por baixo. O inimigo viera até ele, e quando ele estava mais vulnerável.

"Um mestre das tintas com consciência não faz um Eloquente", disse Fannessa com um sorriso.

O elmo deixou as mãos dela e flutuou até Killian.

"Nosso líder vê grande promessa em você", continuou ela, "mas a estrada para o seu verdadeiro destino é cheia de terrores para os quais ninguém em Strixhaven poderia jamais prepará-lo. Olhe para si mesmo agora — sua voz sacrificada por eles, por Razineth, pelas expectativas de seu pai. Toda essa conversa fiada e bravata para quê?" Ela o circulou enquanto falava. "O poder que você invocou enquanto duelava com aquele Murchasabugo patético sem as inúmeras horas de treinamento, sem medo, sem empatia, é o que você precisará para se tornar quem você deve ser."

"E o que é isso?" perguntou Killian, olhos fixos na máscara.

"Livre."

Tentado pelos Oriq | Arte de: Billy Christian

A máscara baixou-se até as mãos de Killian. Lentamente, ele a pegou. Um momento tenso passou entre eles. Parecia que a bebida que ela lhe dera fizera muito mais do que empoderá-lo — tornara-o não naturalmente suscetível às sugestões dela. Uma pressão crescendo em sua cabeça o fazia sentir como se seu crânio pudesse explodir. Queria que tudo terminasse — o arrependimento, os desapontamentos, as expectativas — e, no silêncio, considerou a ideia de desaparecer no fogo roxo Oriq.

"Coloque a máscara, Killian Lu." Ela agora estava às costas dele. Um elmo preto próprio manifestou-se na cabeça dela, o passo final em sua transformação. "Junte-se a nós. Juntos, destruiremos cada obstáculo em nosso caminho."

Naquele momento, Doco emergiu, ainda nadando com os feitiços do Mudo. O tintim pairou entre Killian e o elmo e encarou os olhos sofridos de um amigo buscando desesperadamente por uma resposta. Com um aceno de saber, Doco derreteu-se em um fiapo de tinta e escreveu uma mensagem simples no ar à frente dele.

Nós não destruímos. Nós criamos.

Killian inspirou profundamente, sentindo um peso cair de seus ombros — uma liberdade súbita que vinha com o ato de finalmente aceitar quem ele realmente queria ser. Lentamente balançou a cabeça, recusando a oferta do Oriq. A máscara evaporou-se imediatamente das mãos de Killian.

"Imp patético," amaldiçoou Fannessa. O som de sua magia de tinta agitando-se acima dele soou em seus ouvidos conforme ela começava a personificar as palavras dela. Cada bolha soltava um siseio agudo conforme formavam estalactites denteadas acima dele. "Você não é digno dos Oriq. Você é um tolo humilde e insuportável. E morrerá como um."

Subitamente, Killian ouviu gritos e rajadas de feitiços ecoando lá de fora. Outra batalha enfurecia-se além da porta, mas esta era muito maior que a primeira.

"Você não achou que eu viria sozinha, achou?" Fannessa vangloriou-se. Estendeu a mão, seu corpo inteiro ondulando com tinta e queimando com fogo roxo. "Nossos caçadores de magos varrerão a todos~incluindo sua namoradinha."

Doco morfou novamente em três símbolos manuais e, sem se virar, Killian os imitou com os seus. Luz — traz — luz. De imediato o quarto ondulou com magia branca ofuscante. Uma bola giratória de luz dourada o cercou, repelindo as lanças afiadas que Fannessa lançava em sua direção. Tudo o que a luz tocava parecia brilhar como o sol. E como o sol, ele elevou-se alto no ar.

Desprezo Radiante | Arte de: Manuel Castañón

Fannessa lançava suas maldições contra ele, mas nenhuma conseguia penetrar a luz. Killian repetiu os mesmos gestos que fizera para criar o escudo, e a bola de luz cresceu até que finalmente a sobrepujou, segurando-a firme. Aproximando-se, encarando seus olhos selvagens e aterrorizados, Killian bateu a língua contra a parte de trás dos dentes e liberou um t suave. Uma flecha, dourada e cintilante, imbuída de intenção virtuosa, foi conjurada. Deslizou suavemente pelo ar e afundou nela.

Falo misericórdia em você.

Ela soltou um grito sobrenatural antes de os fogos enfurecidos em seus olhos recuarem em piscinas silenciosas de ouro. Então, subitamente, a porta da sala explodiu. Como uma pedra catapultada, uma criatura blindada com membros artrópodes dobrada sobre si mesma disparou além de Killian e através da sala. Conforme sobrevoava Fannessa, suas dobras abriram-se e várias pernas chacoalhantes a recolheram. Avançando, colidiu com a parede e escapou para o céu.

Killian e Doco apressaram-se atrás deles, voando através do imenso buraco deixado na estrutura. Pararam logo além dele e encararam as nuvens rompidas que o inimigo deixara em seu rastro. Fannessa e o caçador de magos haviam sumido. Mas uma batalha ainda enfurecia-se conforme mais dois caçadores de magos estavam no ataque. Dentes à mostra, as criaturas hediondas chicoteavam suas caudas em forma de lança com incrível precisão, cortando os corpos dos estudantes que as engajavam. Qualquer ataque enviado no caminho dos monstros era desviado, como se tivessem esperado que o golpe viesse. Os cidadãos de Strixhaven estavam perdendo esta batalha rapidamente.

Felizmente, Killian estudara estas criaturas; seu pai garantira isso. Os espigões brilhantes estendendo-se de seus crânios blindados eram a chave para a detecção de magia e permitiam que evitassem ataques facilmente.

Doco entrou em ação, alongando-se em vinte bolhas pretas que giravam ao redor de Killian em círculo. Cada uma moldava-se na forma de um sinal manual do livro conforme passavam diante dele, e Killian imitava o símbolo com suas próprias mãos. Mais e mais rápido as formas passavam em sua visão e mais e mais rápido ele copiava, até que Doco era uma bobina giratória de tinta preta e o sinal tornou-se fluente.

Falo paz em você agora para que a luz possa expulsar a escuridão.

Exatamente então, o brilho intenso dos espigões dos caçadores de magos diminuiu e foi substituído por uma brancura ondulante. Cegos, os caçadores de magos golpeavam o ar selvagemente com seus talões, desesperados para se defenderem de seus inimigos invisíveis. Os feitiços de Killian fluíam como água por suas costas e ao longo de suas caudas, onde consumiam suas extremidades, imobilizando-os.

"Killian Lu! Ele os pegou!" gritou Vickus, agora com a força total, fustigando as bestas com galhos trançados de espinhos. Travou olhos com Killian, e os dois compartilharam um momento de respeito de guerreiros — uma camaradagem recém-descoberta. "Ataquem com tudo o que tiverem!"

Os magos feridos seguiram a ordem, formando um círculo massivo ao redor das bestas estremecentes, lançando cada feitiço que tinham em sua artilharia. Os cinquenta estudantes dispararam uma barragem de magia diversa de cada faculdade de Strixhaven contra os monstros, penetrando sua armadura, fendendo-a. O ataque final veio de Dina, que arremessou uma enorme bola de magia berilo pulsante contra as criaturas horrendas e as estilhaçou em pedaços. Com o fim dos monstros assegurado, todos os olhos dos magos voltaram-se para o céu para Killian, em assombro pelo que ele fizera. Tinham vencido, e fora ele quem fizera isso acontecer.

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Killian acomodou-se contra uma parede pouco tempo depois, completamente drenado pela batalha. Derra tudo o que tinha contra Fannessa e os caçadores de magos, incluindo sua voz, que ele ainda temia que nunca retornasse.

"Embora não estejamos mais no bar", veio a voz de Dina do outro lado da parede, "você parece alguém que precisa de uma bebida, Killy."

Ela deslizou pela esquina em seu estilo despreocupado típico, como se a batalha nunca tivesse acontecido. Seu rosto agora brilhava com luz verde encantadora que refratava a fluorescência do líquido que ela despejava em uma pequena tigela de madeira. O odor emanando da mistura suspeita foi o suficiente para fazer o estômago de Killian revirar~o que quase aconteceu. Mas ele não objetou. Orou silenciosamente e preparou-se para o tratamento que ela tinha a oferecer.

"Um dos estudantes para quem dou tutoria colocou na cabeça que meus chás eram mortais", disse Dina, levando um dedo ao queixo de Killian e inclinando sua cabeça para trás. "Eu discordo. Meus blends são repletos de ervas projetadas para curar males como a sua voz. Este lote é um dos meus favoritos e tem apenas alguns efeitos colaterais. Vamos entrando."

"Eu não faria isso", gritou Vickus subitamente. Sua voz estava mais leve agora, trançada com um sorriso. "Ervas do brejo podem fazer órgãos humanos~derreterem às vezes. Melhor ver uma enfermeira." Dina olhou-o por cima do ombro conforme ele se aproximava deles. "Oh, e era um presente para mim. Obrigada, Dina. Precisa de ajuda?"

Vickus ofereceu a mão a Killian, e Killian a pegou.

"Os rumores são verdadeiros", ele começou quando Killian estava de pé. "Vocês da Platinapena são um bando vicioso. Sabe, antes dos caçadores de magos atacarem, aquela garota com quem você estava fez saber a todos nós que Strixhaven queimaria e que todos nós pereceríamos nas mãos dos Oriq. Ela disse umas coisas verdadeiramente malignas. Ela escapou?"

A picada de fracasso tão familiar disparou pelo peito de Killian. Apesar deste despertar e aceitação do poder incrível que vivia dentro dele, ele deixara o inimigo escapar. Seu pai poderia estar certo. Magia branca não fora o suficiente para trazer o inimigo à justiça.

"Bom", disse Vickus.

Killian o encarou, confuso e pego de surpresa.

"Você a mudou", Dina interveio.

Vickus, ainda segurando a mão de Killian, colocou a outra ao redor dela calorosamente. "Se o que ela sentiu foi sequer perto do que você me fez sentir", continuou Vickus, "ela nunca mais será a mesma. E essa mudança se espalhará além dela para os outros Oriq, mudando seus corações, afastando-os de seus caminhos terríveis. Você criou uma maneira de trazê-los para a luz. Nem o Reitor das Sombras poderia negar isso."

Killian sorriu, quase corando com o elogio deles. Tendo ouvido a troca, Doco emergiu e empoleirou-se no ombro de Killian. O tintim borbulhante deu ao seu companheiro um empurrão caloroso de parabéns, instando-o a ouvir o que haviam dito e acreditar neles. A luz que ele negara por tanto tempo fizera mais do que sua magia negra jamais poderia fazer — ela criara mudança.

Rodadas de aplausos à distância atraíram os olhos de Killian para o horizonte. Ali viu, batendo no brilho do segundo sol, os rostos sorridentes e desgastados pela batalha de seus pares, seus companheiros inconquistáveis, que testemunharam o poder de sua luz. Escaneando a fila deles, Killian subitamente captou o olhar de seu pai. Embrose, de braços cruzados e rosto severo, estava parado em meio à multidão, junto com vários professores, que também haviam chegado bem a tempo de vê-lo vencer o dia. A Reitora Shaile e Razineth estavam de cada lado dele, celebrando a vitória de Killian junto com os outros.

Killian empertigou-se, mantendo a cabeça erguida, e encarou de volta os olhos de seu pai. Aquilo não era uma expressão de desafio mas um gesto de paz — uma esperança de compromisso entre dois ideais opostos que estavam finalmente se encontrando no meio.

O cosmos é vasto, e os Eloquentes não são os únicos que o moldam. As palavras ecoaram alto na mente de Killian e, com toda a sua intenção, ele as dirigiu ao coração de seu pai. Um lampejo de luz tremeluziu nos olhos de Embrose. Killian pôde ver que a mensagem fora recebida. Mas seria aceita?

Um breve momento passou entre eles antes de Killian ver a menor das pontas puxar um lado da boca de Embrose — era o que se poderia considerar o início de um sorriso, um sinal de aprovação suave. A ação até ergueu a cabeça de seu pai muito levemente, enviando energia quente fluindo na direção de seu filho. Subitamente, Killian sentiu uma picada aguda na palma de sua mão. Ele a virou e ela brilhou em patriscrito sobre a pele pálida.

"Eu posso criar", Killian disse em voz alta.

Conforme a tinta desbotava, ele respirou o ar fresco, agora maduro com a esperança de um novo destino à frente. O tempo finalmente chegara para ele sair da escuridão da sombra e enfim para a luz do sol. Ele estava pronto.